Haddad e o Socialismo como samba-enredo do bloco na rua

O bloco está prestes a ir pra rua e o esquenta já começou. Em entrevista ao blog Manifesto Petista (disponível aqui: https://www.youtube.com/watch?v=r-zxM47l7Cs&feature=youtu.be), o companheiro Fernando Haddad traz elementos importantes para orientar a organização do desfile. Irei aqui abordar e discutir alguns deles.

Diante da crise sistêmica que está posta, Rui Falcão pergunta se o socialismo é uma alternativa. Haddad responde fundamentalmente que “(…) o socialista avança na questão redistributiva, ele não vê apenas o orçamento público como um caminho de justiça social, ele vê também mecanismos de taxação de grandes fortunas, taxação de grandes heranças, taxação de rendas elevadas… ele vê nisso a oportunidade de promover uma socialização da propriedade que permita às pessoas (…) ter uma condição de se desenvolver plenamente. Então sim, nesse sentido eu acho que nós temos que avançar numa agenda que coloque essas questões na ordem do dia. Não é só uma questão redistributiva, é uma questão de transformar o universo da produção. O socialista pensa a produção.”

Continua Haddad: “(…) se a gente não repensar o modo de existência da espécie humana, nós não vamos ter êxito. Vai ser o um porcento que vai morar em marte, porque aqui não vai ter condições de morar porque nós vamos ter destruído o planeta. Então é disso que se trata, o modo de vida tem que ser reorganizado.”

Adiando a discussão sobre o que é ou não o socialismo, destaco a espinha dorsal do raciocínio de Haddad, que deve motivar e nortear a ida do bloco para a rua: é preciso transformar o universo da produção, repensar o modo de existência da espécie humana e reorganizar o modo de vida, sem o que não teremos êxito. Mas o que significa isso e como dar corpo a essa perspectiva?

Primeiro, antes de entrar em qualquer batalha, é preciso saber o que estamos enfrentando. O que aparece no primeiro plano como caos institucional, desgoverno, desemprego, desindustrialização, descaso com o povo, retirada de direitos, piora das condições de vida, entreguismo, militarização, fundamentalismo, machismo, racismo, LGBTfobia, violência policial etc. está relacionado a uma crise global e sistêmica, que é ao mesmo tempo econômica, sanitária, política, ambiental, cultural e social. Essa crise está além dos governos e personagens de ocasião e não tem como ser resolvida da noite para o dia. Ela remete ao funcionamento do sistema de relações sociais que estrutura todas as dimensões do modo de vida atual e que tem nome: capitalismo.

Por ser sistêmica, a crise exige uma alternativa de conjunto, igualmente sistêmica e que também tem nome: socialismo. Nesse ponto é preciso desfazer os velhos espantalhos que se solidificaram no PT e na esquerda e que nos deixaram desarmados para compreender e enfrentar esse estado de coisas.

Nas últimas décadas, o socialismo deixou de ser, para setores da esquerda e do partido, o horizonte estratégico, para se tornar tabu para uns e folclore para outros. Ou uma palavra proibida, cujo nome não se pode mencionar; ou uma espécie de paraíso ao qual se vai chegar um dia, mas que não se sabe quando nem como. “É uma ideia que existe na cabeça e não tem a menor pretensão de acontecer”.

Por um lado, os que internalizaram a forte propaganda anticomunista do século XX passaram a identificar o socialismo à ditadura e ao autoritarismo, fortemente impactados pela dissolução da URSS. Não é para menos. Se em poucos meses a imprensa corporativa brasileira conseguiu transformar em vilão um presidente que deixou o mandato com 87% de aprovação popular, imagine do que são capazes, em escala planetária, décadas de jornalismo seletivo, consenso acadêmico liberal e indústria cultural hegemônica produzindo um pensamento único, de Hannah Arendt ao Rambo. Poderia abordar aqui todos os horrores e genocídios produzidos pela dita “democracia liberal”, desde a segregação racial até Guantánamo, passando pelo colonialismo, mas seria material para tantos outros textos. Por hora importa dizer apenas que todas as contradições que produziram o horror, tanto nas experiências liberais, quanto nas socialistas e no Brasil de 2021, ainda continuam presentes, são estruturais e será preciso enfrentá-las cedo ou tarde.

Por outro lado, há os que até concordam com a necessidade de superação do capitalismo, mas afirmam que não há correlação de forças para isso. Se não há como fazer, não há o que fazer. E como o costume do cachimbo acaba entortando a boca, muitos terminaram se deslocando sutilmente de “não é possível superar o capitalismo agora” para “não é possível superar o capitalismo de jeito nenhum”. Além de a correlação de forças não ser algo engessado e que depende principalmente do nível de organização, mobilização e disputa, aqui mora a sutileza fundamental que precisa ditar a evolução do bloco na rua: se não é possível superar o capitalismo agora, é mais do que possível que todos os movimentos feitos para melhorar a vida do povo dentro das limitações do capitalismo, tenham como horizonte estratégico a superação desse sistema e a invenção de uma outra civilização.

Não se trata de utopia, mas de planejamento estratégico, onde as ações imediatas são guiadas pelos objetivos de longo prazo. Tampouco tem a ver com mera opção estética, mas com pragmatismo: como combater a desigualdade e manter intacto o seu motor, que é a propriedade privada dos meios de produção? Como combater o racismo e o patriarcado sem desarticular a relação funcional que existe entre estes e a reprodução do modo de vida no capitalismo? Como compatibilizar a sustentabilidade ambiental com uma economia voltada não para a satisfação de necessidades, mas para a acumulação virtualmente infinita? Como distribuir poder sem pretender alterar as estruturas seculares que garantem o poder das elites, cristalizado nas instituições do Estado (Forças Armadas inclusive), nos oligopólios de comunicação de pensamento único etc., utilizados para nos golpear sempre que há oportunidade?

Se não é possível solucionar todas essas questões de imediato, apenas enxugaremos gelo se elas não estiverem no horizonte, norteando nossas ações. Sem uma perspectiva que aponte aonde queremos chegar nas próximas décadas, ficaremos absolutamente perdidos sobre qual caminho seguir hoje. Além de não conseguir acumular forças junto ao povo em torno de um novo projeto de sociedade e nos vermos obrigados a reinventar a roda a cada quatro anos.

O abandono do socialismo como perspectiva estratégica empobreceu nossa capacidade de análise da realidade e atrofiou nossa imaginação política. Internalizar as ferramentas teóricas do liberalismo e desprezar as do marxismo, trouxe-nos a preocupação com as contas públicas enquanto normalizou a convivência pacífica com o assalto ao fundo público via mecanismo da dívida, tributação regressiva e privatizações. Passamos a escrever cartas a golpistas e pedidos de socorro à Faria Lima, na esperança de que se insurjam contra o projeto que já rendeu mais de US$ 34 bi aos bilionários do país durante a pandemia. Ao analisar o governo Bolsonaro, lançamos mão de categorias individualizantes, tão ao gosto liberal, como “incompetência”, “maldade”, “ausência de projeto” e “projeto de poder”, mas somos incapazes de visualizar estruturalmente a funcionalidade disso à dinâmica de acumulação do capital no Brasil e no mundo. É preciso atravessar a superfície ansiogênica das respostas imediatas à microconjuntura, seus tweets, memes e falsas polêmicas e recuperar a capacidade de explicar a realidade e construir alternativas políticas consistentes.

Aceitar passivamente o capitalismo como indestrutível, estreitou o espectro da nossa atuação institucional. Governo passou a ser identificado como pura e simples gestão do Estado, abrindo espaço para toda sorte de ilusões com as elites e os poderes constituídos. Como se combater as desigualdades, promover a cidadania e a dignidade do povo e construir um projeto nacional soberano fosse um mero problema técnico a resolver, e não uma constante e dura luta política contra aqueles que reinam no caos e não ficarão de braços cruzados acompanhando a caravana passar.

Aderir às ferramentas do lado de lá para explicar a realidade, nos desarmou e domesticou. Não conseguimos ler atentamente a radicalização da burguesia, que rejeitou qualquer acordo e partiu para o golpismo. Tanto é infelizmente verdade, que hoje, o projeto eleitoral majoritário no conjunto da esquerda é, em linhas gerais, uma tentativa de reedição dos anos Lula, desprezando o fato que as condições que os possibilitaram foram derrotadas e não estão mais dadas. A luta social de massas passou a ocupar um papel tão secundário na disputa política, a ponto de parte de nós considerar mais acertado encalhar com a baleia do que enfrentar a tempestade ao lado do povo.

Dito isso, Haddad acerta ao afirmar que não teremos êxito sem repensar o modo de existência da espécie humana e sem colocar a pauta socialista na ordem do dia. Para isso, é urgente que o socialismo deixe de ser tratado como folclore ou tabu e ocupe um papel fundamental na análise política, planejamento estratégico, discurso e ações de hoje. Do contrário, faremos voluntariamente com a principal ferramenta de luta que a classe trabalhadora já produziu, o que as elites se esforçaram para fazer durante todo o século XX: transformá-la em peça de museu.

Aos que abandonaram qualquer perspectiva de superação do capitalismo, aos céticos, o pessoal do “real” e do pragmatismo (que deixou de trazer até mesmo resultados eleitorais), cabe lembrar que em nenhum momento na história houve condições ideais para a luta política, que sempre foi desigual e assimétrica. Nosso campo nunca dispôs dos mesmos recursos e de paridade de armas com as classes dominantes. No entanto e ainda assim, foi possível fazer revoluções, promover transformações estruturais no funcionamento do mundo, avançar nas liberdades democráticas, nos direitos trabalhistas e nas condições de vida do povo. O que não é e não será possível é empreender mudanças sem lutar.

Como gosta Genoíno, “com um olho no retrovisor e outro no para-brisas”, é perfeitamente possível articular as ações do presente, com todas as limitações conjunturais que possam sofrer, a uma necessidade e um objetivo de longo prazo, de superação dessa relação social perversa e deletéria chamada capitalismo. É essa perspectiva que permitirá nos apresentarmos ao povo brasileiro, não só como mera alternativa eleitoral, mas como projeto de civilização com potencial para reencantar verdadeiramente corações e mentes, onde voltaremos a representar o futuro e deixaremos de representar o passado.

Se parte de nós transformou o socialismo em peça de museu, já passa da hora de seguirmos o exemplo de Bacurau: recuperar do museu as armas que tornarão possível derrotar a ameaça que tenta nos exterminar. É preciso tirar o socialismo do folclore e transformá-lo no samba-enredo do bloco na rua, para esse e para os próximos carnavais.

Fabio Rosa é militante do Partido dos Trabalhadores em Brasília, DF.

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