Mês das Mulheres: 7 dicas de homem para homem e um comentário sobre o PT

“Vou ser canceladíssimo” foi minha primeira reação ao ser convidado para escrever esse texto sobre machismo.

E talvez seja mesmo, então antes de mais nada já peço desculpas. Afinal, um homem falando de machismo?.. Topei apenas após saber que a ideia era fazer um texto direcionado a outros homens.

Escrevo então pensando em outros como eu, ou seja, rapazes já não tão rapazes assim — acabo de completar 47 anos.

Todo homem da minha geração cresceu assistindo a uma pilha de bobagens sexistas, de Trapalhões pra baixo. Mas todos podemos evoluir. E, como avalia minha colega Rita Camacho, que gentilmente me convidou para escrever esse texto, em tese eu seria um homem em constante busca por melhorar. Então chega de enrolação e vamos às 7 dicas:

1. Nunca negue seu machismo. Ao ser acusado por uma mulher de comportamento machista, nunca negue. Pode ter certeza de que foi. Peça desculpas, entenda onde errou e não repita o erro.

2. Cuidado com seus meninos. Tenho dois filhos homens (5 e 10 anos), brancos, aparentemente héteros, com alguma condição financeira e paulistanos. Com essas características no Brasil, sejamos francos: já largam com uma bela vantagem sobre a média. O grande desafio é como dar a eles essa consciência de forma tranquila, tornando-os pessoas melhores do que o pai. E certamente esse objetivo não será alcançado usando máximas do passado como “prendam suas cabras que meu bode está solto”.

3. Espere sua vez de falar. Faça a sério o seguinte exercício: em sua próxima reunião com homens e mulheres, se policie para, nem uma única vez, interromper uma mulher. Mesmo que ela esteja “falando bobagem”, e mesmo que você possa “completar o raciocínio”. Não interrompa em nenhuma hipótese, simplesmente aguarde a sua vez de falar. “Ah, mas isso é fácil”.  Ok, então tenta e depois me avise como foi.

4. “Essa louca teve um chilique”. Da próxima vez em que chamar uma mulher de “louca”, disser que teve um “chilique”, que está de TPM ou avaliar as suas roupas, corpo, cabelo ou tom de voz, pense se falaria ou pensaria o mesmo de um homem. Eu diria que, em 99% dos casos, não.

5. “Esse mundo está chato, não se pode mais nem flertar”. Essa frase é tão manjada quanto mentirosa. Óbvio que pode, todos sabemos bem a diferença entre paquera e assédio. Também não vale a igualmente clássica “ah, mas era só brincadeira”. Vamos desenhar: chamar a colega de trabalho para almoçar no quilo e trocar uma ideia, pode virar flerte. Mão boba na barriga, beijinho “sem querer” perto da boca ou massagenzinha no ombro por trás, é assédio.

6. No trabalho, use o gênero como critério de desempate. Está na dúvida entre dois nomes a contratar, promover ou dar aumento de salário? Escolha a mulher, sempre. E atenção: não estou falando em cotas (que apoio) nem se trata de “coitadismo”. Estou pedindo para, ao menos, considerar como critério de desempate. Já é um bom começo.

7. Vote sempre em mulheres. Influenciado por uma tia muito querida, desde os 16 anos escolho apenas candidatas mulheres para o parlamento. Qualquer pessoa que se julgue preocupada com justiça social e um mundo melhor deveria fazer o mesmo. Vote sempre em mulheres. Sempre. E de preferência negras.

Agora, um comentário sobre o PT

Não sou filiado, logo esse comentário deve ser encarado apenas como o que de fato é. Ou seja, um breve comentário.

O PT tem uma preocupação inegável e pioneira dentre os partidos brasileiros em relação à igualdade de gênero. Ainda em 1991, em seu primeiro Congresso, aprovou cotas de 30% para direções. Em 2011, avançou e aprovou a paridade de gênero em todas as instâncias decisórias.

É do PT a única presidenta que tivemos, Dilma Rousseff, e a presidência do partido é ocupada pela deputada Gleisi Hoffmann.

Então por que siglas como Psol ou até a Rede hoje atingem muito mais os corações e mentes de jovens Brasil afora? É apenas uma injustiça do mundo ou tem alguma razão de ser?

Estaria o Partido dos Trabalhadores trabalhando, genuinamente, por mais espaços para as mulheres em suas instâncias reais de decisão, mais prioridade na divisão de verbas partidárias e por mais justiça para elas na sociedade?

Quais as políticas que os parlamentares petistas estão, de fato, defendendo como prioridade e em bloco, com unhas e dentes, para melhorar a situação das brasileiras?

Até que ponto as pautas de gênero são uma prioridade real para os “cabeças brancas” que mandam no partido? Ou será essa questão vista como identitária, no sentido de algo menor?…

O partido tem méritos incontestáveis nessa seara, mas passou da hora de dar um largo passo à frente.

* Lino Bocchini é jornalista. Foi coordenador da Agência PT e um dos principais nomes da campanha da hoje governadora do RN Fátima Bezerra.

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