8 de março de 2020, minha última passeata

São Paulo SP 08 03 2020 debaixo de chuva mulheres no dia internacional delas protestam contra Bolsonaro na avenida Paulista foto Cesar Itiberê/Fotos Publicas

Ao descer a Augusta estimei que havia duas mil pessoas na rua. A esmagadora maioria de mulheres. Era um domingo chuvoso. Chuva fraca, mas persistente, exigia uma capa plástica.

Contra a misoginia, o machismo, o preconceito, a violência doméstica, o racismo. Pelo direito ao aborto. Tudo escrito nas faixas, nas bandeiras, nos corpos. “Fora Bolsonaro!”, muitas gritavam com disposição e coragem, sob os olhares fixos dos PMs enfileirados nas calçadas.

Meus amigos sorriam sem ocultar a apreensão. Mas alimentaram um fio de esperança ao ver as moças alegres, com seus estandartes coloridos, adereços nas cabeças, batuques, danças e performances. Destacavam-se entre poucas bandeiras vermelhas e muitas do arco-íris. 

Era como um aquecimento para a grande batalha da semana seguinte, a que colocaria os neofascistas e seus cúmplices contra os democratas e a esquerda. A favor e contra o governo. Eles haviam marcado a manifestação deles para 15, nós para o 18. A nossa seria maior, eu tinha certeza.

São Paulo SP 08 03 2020 debaixo de chuva mulheres no dia internacional delas protestam contra Bolsonaro na avenida Paulista foto Cesar Itiberê/Fotos Publicas

Meses antes saíamos às ruas em defesa da Educação e da Amazônia, contra as reformas trabalhistas e da Previdência.

Eles realizavam seus felizes encontros dominicais na Paulista. As senhoras maquiadas dos Jardins com suas camisetas cobertas por lantejoulas juntavam-se aos jovens “sarados” vestidos com calças e jaquetas em estilo militar. Berravam unidos: “nossa bandeira jamais será vermelha!”, “vai pra Cuba!”, “intervenção militar já!”.

Mas eles não perdiam por esperar, logo viria a grande batalha de março, aquela que iria medir as forças.

Mas ela nunca aconteceu. Tivemos que ir para as nossas casas e seguir as recomendações de quem entendia do assunto. A maioria da população não podia fazer o mesmo.

Trocamos então as ruas pelas lives. Os congressos pelas lives. As reuniões, os debates, as conferências e as plenárias pelas lives.

Nós já estamos há um ano fora do nosso espaço, do nosso terreno que conhecemos tão bem, aquele antes indivisível.

Eles seguem a desprezar as máscaras e o álcool em gel. A indicar o caminho para os cemitérios.

No Dia Internacional da Mulher de 2020 parecia que saíamos das cordas quando começou a tragédia. Corremos um risco de contágio ao nos reunir naquele momento tão significativo? Minha última passeata deveria ter acontecido?

No dia 12 morreria a primeira vítima no Brasil. A imprensa informou: “uma mulher de 57 anos”.  Preta, pobre, empregada doméstica contaminada pela patroa que voltara da Europa.

Celso Marcondes

05/03/2021

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