Juntas por uma sociedade mais humana e justa

 

Manifestação do 8M/2020 em Manaus contra o feminicídio (Foto Alberto César Araújo/Amazônia Real)

O mês de março, que marca as comemorações do Dia Internacional da Mulher, neste ano de 2021 ganha uma conotação diferente para nós brasileiras. É tempo de lutarmos pela igualdade de direitos entre mulheres e homens, combater a violência de gênero, batalhar pela nossa presença nos espaços de poder ou em qualquer lugar onde queremos estar e pela remuneração igualitária. Os desafios são muitos e, na atual conjuntura de retrocessos e crise sanitária da covid-19, desemprego, baixa renda, o enfrentamento ao governo Bolsonaro se torna ainda mais urgente com a resistência feminina. Nós mulheres somos particularmente alvos de ataques de um presidente misógino e somos as que mais sofremos na crise. Esta é a hora de quem gera a vida combater o governo da morte.
 
Nos anos 80, com o fim da ditatura militar no Brasil e a reconquista das liberdades, a chegada da Democracia nos inspirava a lutar pela defesa dos direitos dos trabalhadores e do povo e pelo desejo de tornar o país socialmente justo. Os espaços para a participação de cada vez mais mulheres na política foram se abrindo e nesse cenário entrei para o movimento estudantil e para a atividade política.
 
Nessa década, o PT estava sendo fundado pela força transformadora de trabalhadoras e trabalhadores, intelectuais e movimentos sociais e religiosos com destaque para a militância feminina que encontrou ali um espaço para buscar os direitos das mulheres. Influenciada por uma formação cristã que prega a fraternidade, encontrei na atuação política o caminho e na militância, ainda semi-clandestina, adotei o codinome de Rosa Luxemburgo, filósofa e economista marxista conhecida pelo ativismo revolucionário, que até hoje inspira a mim e a muitas mulheres.
 
O ambiente político, além do machismo, carga cultural da sociedade em que vivemos, é eminentemente masculino. Soma-se a isso o fato de que as mulheres que nele atuam dificilmente têm um esteio pessoal para organizar suas vidas, como cuidar do ambiente doméstico, principalmente dos filhos e relações familiares. Costumo dizer que, para uma mulher na política, falta uma mulher para a família, porque os homens não assumiram, como deveriam, a divisão dos cuidados familiares, do mundo doméstico. Exigem muito mais de nós do que qualquer homem, sempre aceito por sua condição sexual.
 
As agressões existem, claras ou veladas, ofensas ou desconstrução. Imagino que seja difícil para os homens, que sempre dominaram o espaço público, terem de conviver e disputar com as mulheres. Os lugares, na hierarquia cultural, foram conduzidos por eles assim por séculos. Por isso, as que participam, mesmo por suas causas e intenções, são vistas como ponto fora da curva, indesejáveis, fora da normalidade, quase exceções. Além de sempre serem tratadas como um estorvo ou um risco a mais na disputa por espaços e posições de poder.
 
Somos maioria da população brasileira, 52,5% dela, mas ocupamos apenas 15% dos cargos legislativos; e nas prefeituras só 11,7%. O Brasil ocupa o 154º lugar no ranking de representatividade feminina na política entre 193 países, o pior da América Latina. Temos apenas uma governadora no país e a primeira mulher a ocupar a Presidência da República foi vítima de um dos maiores golpes institucionais da história, marcado de misoginia. Como ter uma democracia plena e rumar à justiça social se metade da população não é devidamente representada nos espaços públicos de decisão e poder?!
 
No 1º Congresso Nacional do PT, nos propusemos a começar reverter essa situação no âmbito partidário. A militância feminina atuou ativamente para e mudou a estrutura de poder do partido, aprovando cota de 30% para mulheres nas direções partidárias. Hoje, 41 anos depois, avançamos. Além de termos a primeira mulher na presidência do partido, o estatuto prevê a paridade entre homens e mulheres: as direções, delegações e cargos com função especifica de secretarias deverão contar com 50% de mulheres e 50% de homens.
 
Para impulsionar a participação das mulheres na política e construir uma plataforma feminista, a Secretaria Nacional de Mulheres do PT, atua dia a dia no projeto Elas por Elas com a ideia de transformar o cenário de disparidade de gênero, dando suporte para que o despertar das mulheres seja canalizado para a luta por uma sociedade mais justa e democrática. Nosso desejo é valorizar a militância das mulheres petistas para juntas construirmos um PT mais feminino e igual.
 
Assim, o PT busca influenciar a sociedade brasileira e mostrar que as mulheres podem e devem ser protagonistas nas políticas, e que a desigualdade de gênero precisa ser enfrentada todos os dias. No Congresso Nacional, também lutamos pela paridade de gênero nas cadeiras para Câmara dos Deputados, Câmara Legislativa (DF), assembleias legislativas e câmaras municipais.
 
É claro que o cenário vem se modificando ao longo do tempo, com a contribuição do movimento feminista pela liberdade e emancipação das mulheres, numa luta contra o patriarcado, que nos oprime e resguarda as construções culturais históricas que convencionam preconceitos: violência de gênero, raça e classe social.
 
Estamos muito distantes de uma sociedade igualitária e a participação das mulheres na política é essencial para consolidar a democracia, pela responsabilidade de fazer com que mais da metade da população participe das decisões que vão dar rumo à vida do povo no país. Não teremos nem justiça e nem democracia plenas enquanto metade da sociedade estiver apartada dos processos de decisão.
 
A luta não é tirânica, nem contra os homens, mas humana e justa. Seguiremos firmes e fortes nessa empreitada por todas nós mulheres, para que todas tenham dignidade e espaço na sociedade. Juntas estamos mais fortes e enfrentaremos quaisquer adversidades em busca da construção de um país melhor e mais solidário.
 
*Gleisi Hoffmann é presidenta nacional do Partidos dos Trabalhadores e deputada federal pelo Paraná.

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