INOVAÇÃO, FINANCEIRIZAÇÃO E STARTUPS COMO INSTRUMENTOS E ETAPAS DO CAPITALISMO DE PLATAFORMAS

INOVAÇÃO, FINANCEIRIZAÇÃO E STARTUPS COMO INSTRUMENTOS E ETAPAS DO CAPITALISMO DE PLATAFORMAS*

Roberto Moraes Pessanha

Instituto Federal Fluminense/Campos dos Goytacazes – Rio de Janeiro/Brasil

Email: robertomoraespessanha@gmail.com

* Capítulo 15 do livro Geografia da Inovação: Território, Redes e Finanças. (P.433-468). Editora Consequência.

Introdução

A inovação como ideia-força sempre existiu, mas nunca como elemento de extração de valor na extensão e densidade que se observa no presente. A conexão entre a hegemonia financeira e a dominação tecnológica explica o atual estágio de oligopolização das corporações do setor, a concentração do capital e o nível de desigualdades que parece definir o “hipercapitalismo autofágico” contemporâneo [1].

A ideia difusa de progresso somada ao fetiche das invenções e ao poder da tecnologia como instrumentos e ferramentas de resolução dos problemas da humanidade – e ainda de melhoria de nosso bem-estar – passou a ter enorme potência para agregar maiorias, mesmo que com resultados conhecidos a favor quase que apenas das minorias donas do capital.

É nessa linha que este texto reproduz os primeiros resultados de leituras feitas, a partir do campo espaço-economia e da economia política, sobre os fenômenos contemporâneos que estão marcando essas duas primeiras décadas do século XXI. Observa-se um avanço colossal da hegemonia financeira aliada à dominação da tecnologia, com ganhos sobre todas as demais frações do capital e dimensões da vida social e política no mundo atual.

Uma das hipóteses pesquisadas é que esse movimento seria, fundamentalmente, consequência do fato de a tecnologia ter deixado de ser um fator ligado quase exclusivamente à produção para ser – como fruto da inovação e da ciência aplicada como tecnologia – o mais importante fator de todo o Modo de Produção Capitalista (MPC) em diferentes frações do capital. Fato que se relaciona ao gigantismo das empresas de tecnologia (Big Techs) e à participação crescente do mercado capitais nesse setor. Bilionários investimentos ampliam o controle de ativos do setor de tecnologia e sobre os novos empreendimentos das startups, o que explica as razões pelas quais o setor vai se tornando o maior oligopólio da história do capitalismo.

O casamento entre a financeirização e a dominação tecnológica tem se mostrado um processo perverso, porque amplia a exclusão social e o número de sobrantes (SASSEN, 2014) que se originam da extração de valor do trabalho, derivado do capitalismo de plataformas (SRNICEK, 2018) e da explosão de startups financiadas pelos capitais de risco em busca de maiores rendimentos. Um processo em que a inovação amplia as desigualdades e as assimetrias entre aqueles estados-nações que servem de condições gerais para o deslocamento do capitalismo, para transformações no modo de produção capitalista (MARX, 2014) e para uma nova etapa do regime de acumulação. A enorme infraestrutura do que pode ser chamado de sistema informacional (CASTELS, 2002) tem sido sustentada, em boa parte, pelos capitais de riscos que assim ajudam a produzir as transformações colossais que são vistas no território.

Assim sendo, a investigação busca uma compreensão acerca de como a financeirização e a explosão de startups – atuando majoritariamente como plataformas digitais nas diferentes frações do capital – servem ao processo de aceleração da extração de valor e de uma oligopolização que ocorre simultaneamente por conta desta sinergia entre os setores de tecnologia e finanças. Tal processo tem produzido uma enorme concentração de capital – em termos setoriais e espaciais – com tendências e características autofágicas na direção de um esgarçamento do capitalismo.

Inovação tecnológica e financeirização

A análise da relação entre inovação e financeirização envolve um conjunto de teorias e conceitos abarcados por vários autores, como Marx (2014): Modo de Produção Capitalista e sua tríade: produção, circulação e consumo; Condições Gerais de Produção; Valorização e Capitalização; Arrighi (1996 e 1997):  Circuito do Valor e sua Extração; Chesnais (2005) e Méndez (2018): Financeirização e Circuito Financeiro Global; Pessanha (2019): A “indústria” dos fundos financeiros; Mazzucato (2014): Papel do Estado na Economia da Inovação; Morozov (2018): Big Tech e Extrativismo Digital; Aglieta (1997): Concentração e Centralização de capital; Harvey (2013) e Lencioni (2020): Condições Gerais de Produção; Castells (2002): Economia Informacional; Srnicek (2018), Zysman-Kenney (2020), Langley-Leyshow (2016) e Pessanha (2020): Capitalismo de Plataformas, Economia de Plataformas e Plataformização.

A hegemonia financeira no capitalismo contemporâneo está vinculada à ampliação do papel dos derivativos (securitização e mercado futuro), ao capital fictício e à especulação (valor de mercado); nunca, porém, deixou de possuir uma relação direta com o mundo real da produção, no mesmo processo em que, adiante, os fundos financeiros aumentavam o controle acionário sobre as empresas (nas várias frações do capital e nos setores da economia: agropecuária, indústria e serviços), chamadas a partir de então de “ativos”. O instrumento dos fundos financeiros conferiu uma hipermobilidade ao capital para transitar entre as frações (mobilidade setorial e espacial), conforme a rentabilidade oferecida às gestoras dos fundos por cada um desses ativos, num movimento que passei a chamar de “capital helicoidal” (PESSANHA, 2019, p. 177-192).

De forma simultânea à mobilidade horizontal do capital, tem-se a pirâmide do capital (ARRIGHI, 1997), que mostra o movimento vertical em termos de produção de valor. O circuito do valor compreende os investimentos em capital fixo no território (onde se dá a produção material e o ciclo de reprodução social), passa pelo mercado das trocas e circulação, para seguir até o andar superior das altas finanças, onde o dinheiro novamente se transforma em capital. É neste duplo movimento: horizontal e vertical que se dá a produção de valor e a mobilidade do capital.

Esse é o movimento onde o capital financeiro (das altas finanças) buscará inovações para empreender e buscar maior valorização. Nele, há o encontro do andar das finanças (capital de riscos) com a tecnologia (inovação), que é mediado pelo sistema informacional (CASTELLS, 2002), atualmente organizado e potencializado pelos instrumentos das plataformas digitais e pelos aplicativos. Desse encontro emerge o processo de “plataformização dos negócios” como ferramenta que garante aos investidores a redução dos riscos e, simultaneamente, a ampliação dos rendimentos. Ampliação que se torna possível em virtude da explosiva utilização do mecanismo das startups, apoiadas por editais públicos e pelo fomento de fundos de investimentos, em especial os do tipo venture e hedge (multimercados).

Méndez (2018) se refere a essas redes, circuitos e mercados financeiros de uma arquitetura global como uma La Telaraña Financiera, título de seu livro editado em 2018, uma estrutura complexa de fluxos de capital em que se podem observar os principais agentes, suas trajetórias e estratégias entre as frações do capital e os diferentes espaços e regiões. Em meu livro A “indústria” dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo também trato do tema, em especial no capítulo 2, quando abordo o circuito financeiro global e a “geografia do poder financeiro”. (PESSANHA, 2019, p. 28 e p. 88).

É possível ampliar as investigações ao observar o fenômeno da financeirização numa perspectiva de totalidade e da superestrutura – a relação entre a financeirização (circuito financeiro global), a inovação, a explosão das startups (“startupização”) e de aplicativos (“appficação”), mais a utilização intensa das plataformas digitais. Com esse objetivo, e com algumas simplificações, apresenta-se um esquema gráfico (Figura 1) que detalha os principais agentes ativos desse circuito financeiro global e a inter-relação entre eles. Nesse infográfico incluem-se as startups e as plataformas digitais como instrumentos de intermediação entre o universo digital e a produção material (ciclo de reprodução social) no território. O esquema gráfico tem a intenção de auxiliar a visualização dos agentes, movimentos e estratégias que compõem o fenômeno que possui características transescalares e multidimensional.

Figura 1: Inter-relação entre financeirização, startupização e plataformas digitais

Fonte: PESSANHA, 2020. Arte: Maycon Aguiar.

Trata-se de um circuito extenso e complexo que se desenvolve simultaneamente em várias escalas. Méndez (2018) afirma que

a integração das praças financeiras do mundo e a construção de um sistema plenamente interconectado no espaço e praticamente contínuo no tempo, com operações progressivamente desmaterializadas e grande número de ordens de compra e venda circulam de forma quase permanente pelas redes informáticas. (MÉNDEZ, 2018, p. 145-146)

O sistema informacional com suas redes e plataformas digitais são os instrumentos desta potente rede de comunicação e interconexão entre os agentes apontados no infográfico (Figura 1). A inovação tecnológica e as startups financiadas pelo mercado de capitais têm viabilizado e ampliado esse circuito global, fato que ajuda a explicar, em boa parte, a explosão do lançamento de startups, das plataformas digitais e dos aplicativos para uso nos smartphones (celulares) que geram fluxos simultâneos de comandos digitais e logísticos na dimensão da economia e das relações de poder e da disputa pelo controle do poder político.

Startupização, plataformas digitais e extração de valor

O processo de startupização reduz os riscos dos negócios que, em tese, explicariam as margens de lucro das empresas no capitalismo. O trabalho qualificado de técnicos e pesquisadores vinculados às incubadoras e parques tecnológicos sustentados com apoio e recursos das universidades públicas auxiliam o surgimento de novos negócios e oportunidades em diferentes setores (frações do capital), servindo, em última instância, aos donos dos capitais. Dessa forma, os fundos financeiros quase que eliminam os riscos dos novos empreendimentos, tornando ainda mais clara a relação direta entre inovação tecnológica e as plataformas digitais, relação que também explica as estratégias entre o andar das altas finanças e a produção social no território: onde vivemos, produzimos a riqueza gerada pelo trabalho. Ou seja, a interligação direta entre inovação tecnológica e financeirização é que determina a explosão de startups e se torna parte do capitalismo de plataformas na medida em que a inovação se desenvolve majoritariamente nos processos e nas infraestruturas de intermediação entre a produção e o consumo, como aponta a pesquisa empírica que será descrita adiante.

A Inovação Tecnológica (ou os “ecossistemas de inovação”, como o mercado prefere designar) e a startupização, apoiadas pela hegemonia financeira dos capitais de riscos, ampliam e potencializam ainda mais o avanço do processo de plataformização. Os fundos de investimentos junto com as plataformas digitais financeiras foram conferindo maior potência e uma hipermobilidade ao capital. Nesse processo, as plataformas digitais expandem o potencial de captura de dados para alimentar os Big Datas (BD), os algoritmos e a Inteligência Artificial (IA). As plataformas digitais também promovem o extrativismo e a commoditificação dos dados (PESSANHA, 2020, b) obtidos do trabalho produtivo e/ou do trabalho improdutivo, através do roubo do tempo, do sono e ideias (cronofagia [2]) e vão se tornando uma das bases de sustentação do hipercapitalismo contemporâneo, com características e tendência de “capitalismo autofágico” de consumir a si próprio [1].  

As plataformas digitais também ampliam a captura das rendas (excedentes) nacionais/regionais, numa espécie de “vampirismo digital” que favorece ao gigantismo e à concentração (AGLIETA, 1979). Um processo que expõe a imensa capacidade de reprodução e acumulação rentista no andar superior das altas finanças, onde também se torna ainda mais evidente a tendência monopolista. Um novo patamar do capitalismo contemporâneo, que, visto sob o prisma da Economia Política e das relações de poder, sugere o percurso análogo à busca por hegemonia e controle, numa espécie de “neoimperialismo digital”.  

O capital é o “valor em movimento” (HARVEY, 2018, p. 129) e, portanto, necessita que se reconheça a configuração espaço-temporal do mundo em que ocorre esse movimento, pois é nesse âmbito que se identifica essa valorização vertical e horizontal e suas relações com as frações do capital e com os circuitos espaciais onde esse processo se desenvolve. Assim, é na relação entre inovação, financeirização e startupização que esses movimentos de extração de valor acontecem e se potencializam mutuamente. A captura de renda é efetuada na base da pirâmide em direção ao andar superior e, depois, no sentido inverso, quando na condição de investimentos em capital fixo (ativos) alocados nas empresas das diferentes frações, utilizando-se dos instrumentos das startups e das plataformas digitais, numa direção e noutra. Para melhor visualização e compreensão dessa dinâmica, é oportuna a apresentação do esquema gráfico a seguir (Figura 2), inspirado na leitura sobre a pirâmide do capital descrita por Arrighi (1997).

Figura 2: A lógica da Plataformização na extração de valor

Fonte: Elaboração do autor (2020, a). Arte: Maycon Aguiar.

As startups nascem de demandas no território, na base da pirâmide do capital, onde se dá a produção material e se desenvolve o ciclo de reprodução social. Os fundadores das startups enxergam ineficiências na agricultura, na indústria, no comércio, na circulação das mercadorias e também nas vendas, assim como no setor financeiro, nas infraestruturas das cidades, nos serviços de transportes e logística, saúde e educação, entre outros. É daí que surge a explosão de startups com utilização maciça das plataformas digitais, que provoca o deslocamento do capitalismo (DOWBOR, 2020) como transformações sobre o modo de produção antes vigente.

Duas afirmações de Marc Andressen, ex-diretor de empresa de software e depois fundador de um dos principais fundos de venture capital nos EUA (tipo de fundo que mais investe em empresas de tecnologia e de plataformas digitais), ajudam a compreender a forma como os donos dos capitais de riscos enxergavam as chances de acumulação neste setor de inovação tecnológica: “o software está comendo o mundo”; “os fundadores das empresas de tecnologia usam as ferramentas do capitalismo moderno”. As afirmações citadas e complementadas pelo jornalista Mike Isaac, especializado em tecnologia, em seu livro A guerra pela Uber, reforçam a visão sobre os famosos donos dessas empresas de tecnologia: “os fundadores das startups tornaram-se reis filósofos, indivíduos durões que salvariam a sociedade de sistemas burocráticos injustos e antiquados” (ISAAC, Mike, 2019, p. 109).

    A lógica de investimentos na Inovação Tecnológica e nas startups, mesmo com toda a propaganda sobre a modernidade digital e a propalada intangibilidade, prescinde sempre da dimensão territorial no interior da economia real que exige, em algum momento, investimentos em capital fixo no território. É lá que tem o início o circuito do valor sobre o qual se objetiva capturar parte de sua valorização. Em outro sentido, além de capturar valor da produção e dos serviços com o uso das plataformas digitais, é com a inovação e com a startupização que o “andar das altas finanças” desce o capital para ser investido em instalações fixas para produzir a riqueza. Adiante, ele será “desenraizado” num movimento de desenraizamento (ou desarraigamento – disembedding) (ALTAVTER, 2010, in POLANY, 1978), voltando novamente ao “andar superior das altas finanças”, já acrescida dos rendimentos obtidos com as capturas de renda, em especial do trabalho.

Harvey lembra que o movimento do capital não se dá no vácuo e afirma ainda que “o valor se move ancorado em algum lugar, onde cria geografia de cidades e redes de transportes, englobando fluxos de pessoas, bens e informações, determinando configurações territoriais de valores fundiários e habilidades de trabalho, organizando espaços de trabalho, estruturas de governo e administração” (HARVEY, 2018, p. 129). É no “andar de cima” que as “altas finanças” escolhem os lugares para a sua valorização dentro da dinâmica de acumulação e reprodução social na base da pirâmide. É nesse processo que se desenrola o movimento de financeirização, no qual o capital desce e se fixa no território para produzir valor e em seguida voltar a subir depois de percorrer as etapas das trocas e da circulação. Processo onde os instrumentos das plataformas digitais e as ferramentas das startups se tornaram imprescindíveis como infraestruturas de intermediação que unem o intangível digital à materialidade da logística do que é real, onde o trabalho produz renda e riquezas, das quais essas ferramentas do sistema informacional apenas extraem o valor que não criam. Essa nova etapa do modo de produção capitalista leva ao conceito de “capitalismo de plataformas”, utilizado pela primeira vez em 2016 pelo canadense Nick Srnicek (2018).

Capitalismo de plataformas

As plataformas digitais atuam entre a produção social no território e os donos do capital de riscos fazendo a intermediação de produtos e serviços – de forma direta – entre produtores e consumidores. Tais plataformas atuam como infraestruturas de intermediação que conectam pessoas e objetos através de uma arquitetura tecnológica modular baseadas na ideia de centro e periferia (KENNEY e ZYSMAN, 2020). Elas inovam como empresas específicas, tipo metaorganizações (KENNEY e ZYSMAN, 2020, p. 1239, in Annabelle Gawer, 2014), que aqui serão chamadas de “empresas-plataformas” por essas singularidades.

Há, nesse ponto, uma divergência com Kenney e Zysman, que avaliam que as plataformas criam valor quando elas se articulam e se integram em redes, como um “Ecossistema de Plataformas” (Caillaud e Jullien, 2003 in Kenney e Zysman, 2020, p. 56), para inovar e competir. Ainda que se utilizem de novas estruturas e comportamentos na busca de resultados, as empresas-plataformas fundamentalmente extraem, e não criam, valor em razão de suas intermediações, porque, na prática, o saldo é medido pelo grau da extração das rendas e dos excedentes gerados na produção.

A plataformização operada pelas empresas-plataformas foram constituindo, na prática, uma simbiose entre duas redes: informacionais e de logísticas materiais. Tratam-se, efetivamente, de infraestruturas intermediárias entre vários grupos (e seus agentes), como os usuários (consumidores), anunciantes, produtores e trabalhadores do sistema informacional digital e/ou da logística de transportes e entregas.

As plataformas digitais funcionam como infraestruturas de intermediação e, como tal, podem ser melhor compreendidas a partir da noção de totalidade interpretada pelo “modo de produção capitalista” e da tríade marxiana: produção-circulação-consumo. As plataformas como forma de intermediação fazem parte da etapa de circulação reduzindo o tempo entre a produção e o consumo, diminuindo, assim, a desvalorização do que é produzido, transportado, estocado e vendido. A lógica da plataformização está expressa na Figura 3.

Figura 3: A lógica da Plataformização

Fonte: Elaboração do autor (2020). Arte: Maycon Aguiar.

A plataformização da economia promove uma reestruturação da produção intermediada pela financeirização que produz transformações no modo de produção capitalista. Na essência, identifica-se que a Inovação Tecnológica e o processo de startupização e de appficação se tornam um mecanismo que serve à extração de ainda “mais valor”, um tema que necessita ser melhor investigado, numa perspectiva de totalidade de uma nova etapa do regime de acumulação na superestrutura do sistema.

O eficiente “circuito de extração de valor” se desenvolve em torno da plataformização e acontece desde a captura de dados dos usuários das redes digitais até a propaganda direcionada a partir dos algoritmos, a intermediação das vendas e dos pagamentos e as entregas (etapa final da circulação), mas possui uma lógica sistêmica entre o intangível digital e a materialidade da logística do que é real. A captura de renda (excedentes) não ocorre apenas na parte intermediária da infraestrutura de circulação, mas também se expande tanto para as etapas da produção quanto da distribuição e venda (comércio) para o consumo na outra ponta. Na produção, porque o sistema informacional permite que o comércio global imponha concorrências por produtividade, custos e preços mais baixos, que de uma forma ou outra recaem sobre o trabalho, que se torna precário e sem direitos. E, na distribuição para o consumo, porque essa lógica avança sobre os comércios locais que são, em alguns setores, suprimidos pelo e-commerce e pelo delivery, capturando os excedentes econômicos locais, que se dirigem para as grandes corporações, deixando no território o trabalho, prestado pelos trabalhadores das entregas controlados e supervisionados pelas plataformas e aplicativos, também precarizado.

ZYSMAN e KENNEY (2020) sustentam que as plataformas são simultaneamente intermediários, dois lados do mercado (two-sides), agregadores de dados e principais usuários de inteligência artificial (IA). Os autores afirmam ainda que “a IA provavelmente reforçará o poder dessas plataformas líderes porque eles têm os maiores conjuntos de dados, maior poder computacional, enormes equipes com os melhores pesquisadores de IA e vastos reservatórios de capital que eles podem usar para fazer aquisições”. Essas características reafirmam e reforçam a hipótese do extrativismo (captura) de dados como valor – e propriedade – (PESSANHA, 2020, b), que explica ainda a lógica da explosão das startups, que amplia a mais-valia sobre o trabalho qualificado de profissionais da TIC. Processo com tendência de concentração e oligopolização nas “plataformas-raiz” (PESSANHA, 2020, a) ou “Big Techs” (MOROZOV, 2018), que também mostra a relação de dependência que as empresas-plataformas possuem da financeirização. Sem os investidores de capitais de riscos dos fundos de investimentos localizados no “andar superior das altas finanças” (MÉNDES, 2018), as empresas-plataformas não conseguem se desenvolver para operar a sua função básica de intermediação.

    A economia de plataforma vem reformulando as relações sociais e espaciais (ZYSMAN e KENNEY, 2020), ganhando potência a partir da ampliação do acesso à internet móvel em todo o mundo, com o uso colossal dos smarphones e a absorção fácil dos aplicativos (software das plataformas em celulares). Esse processo de appficação ampliou a velocidade da aplicabilidade das plataformas digitais sobre os mais variados setores econômicos (frações do capital). O uso dos aplicativos começou a ganhar corpo com os serviços de transportes (Uber e depois outros) que vincula o usuário (consumidor) ao prestador de serviços (motorista), ambos dependentes do App da plataforma digital que confere ao seu proprietário a comissão de intermediação, quando e onde a renda do trabalho é extraída.

A velocidade de absorção dessas plataformas permitiu uma rápida expansão do uso desses aplicativos para vários outros setores que envolvem a atividade humana no capitalismo contemporâneo: finanças (fintechs, home-banking); educação (eTech); agronegócios (agTech); alimentação e comida (foodTech); saúde e bem-estar (healtTech: terapia e consultas on-line, exames etc.); marketing (marTech ou adTech: mídia, publicidade direcionada e de engajamento etc.); jurídico (lawTech ou legalTech: legislação, petições automáticas, resolução de conflitos e negociações); negociação de imóveis (propTech: vendas e aluguéis); logística de entrega (delivery de produtos, embalagem, mediação com pagamento, etc.); comércio eletrônico (e-commerce); gestão de documentos etc.

Todo esse processo de plataformização tem levado a relações mais fluidas, flexíveis e individuais de trabalho, em contraposição à organização coletiva e sindical, sendo próprias do neoliberalismo. Procedimento que vai gradativamente ampliando a divulgação do ideário do sujeito-empresário ou “homem-empresarial”, do “Estado forte, guardião do direito privado” (DARDOT&LAVAL, 2017), da economia sob demanda (GIG Economy ou Freelance Economy), que compreende o trabalho intermitente e temporário exercido por trabalhadores sem vínculos e sem direitos sociais que, em suma, significa uma maior vampirização da renda do trabalho e a sua precarização. O processo de plataformização é consequência da implantação do sistema técnico-informacional que tende a favorecer ainda mais a hegemonia financeira do capitalismo contemporâneo, onde se verificam aumentos colossais de investimentos em negócios de tecnologia da informação e startups. [a] [b] [c]

Num esforço de interpretação ainda inicial, é possível identificar o capitalismo de plataformas para além das dimensões econômica, tecnológica e do trabalho. Nesta pesquisa se trabalha mais a dimensão econômica e algumas repercussões na dimensão do trabalho e da geoeconomia, nas quais ficam expostas a concentração de capital e uma centralização setorial com ação sobre os demais setores econômicos. A Figura 4 expõe um quadro que resume as seis dimensões do Plataformismo (ou capitalismo de plataformas), identificando que se trata de um fenômeno não apenas multidimensional, mas também transescalar, devendo, desta forma, ainda ser observado sob o prisma das relações sociais e comunitárias, espacial, política, geoeconômica e geopolítica. O quadro traz ainda uma síntese das características principais observadas em cada uma das seis dimensões.

Figura 4: Quadro da multidimensionalidade do capitalismo de plataformas

Fonte: Elaboração do autor (2020, a). Arte: Maycon Aguiar.

É certo que há outras dimensões de análise para esse fenômeno do capitalismo de plataformas, porém, no intuito de contribuir com outras ricas investigações e intepretações que vêm sendo feitas por vários pesquisadores e redes de estudos e investigações no Brasil e em várias partes do mundo, buscou-se aqui uma síntese. Na seção a seguir, será apresentada parte dos resultados da pesquisa empírica sobre a relação entre inovação tecnológica, financeirização, e a explosão de startups no Brasil, que se situa de forma especial na dimensão econômica (Figura 4, item 1) e no desenvolvimento da tecnologia (Figura 4, item 2), com repercussão sobre as demais dimensões.

Explosão das startups no Brasil e vínculo com a financeirização e o Plataformismo

O encontro da hegemonia das finanças com a dominação digital criou uma explosão de startups observada em quase todo o mundo. Os bancos e as gestoras de grandes fundos financeiros passaram a criar várias linhas de financiamento com oferta de bilhões de dólares para além do movimento que já transcorria nas agências públicas de formulação de políticas e fomento o Brasil (Finep, BNDES, Sebrae, etc.). Várias grandes empresas (Microsoft e Petrobras, entre outras) também fizeram o mesmo movimento, lançando editais para escolha de startups que se dispusessem a trabalhar o desenvolvimento tecnológico em áreas de interesses das empresas. Ou seja, em parte, as empresas passaram a ver nas startups a alternativa para empreender o que antes era desenvolvido em seus centros de pesquisas. [d] [e] [f] [g]

As transformações na atuação dos centros de pesquisas de algumas grandes empresas merecem ser melhor investigadas. Em uma entrevista realizada em maio de 2020 com técnicos do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), no Rio de Janeiro, foi relatada a redução expressiva de efetivos no setor, acompanhada de mudanças na organização do trabalho que passou a dirigir parte dos temas das pesquisas do âmbito do Cenpes, para serem desenvolvidas por startups, escolhidas a partir do lançamento de editais. Assim, parte do trabalho dos qualificados técnicos desses centros de pesquisas estava migrando do desenvolvimento de equipamentos e tecnologias para atividades de elaboração dos termos dos editais de seleção, gestão, acompanhamento e fiscalização das startups escolhidas. Tal fato configura, mesmo que em parte, o redirecionamento da atuação dos centros de pesquisas das grandes empresas e também reforça a interpretação sobre o movimento de explosão de startups.

Sobre a relação crescente entre apoio financeiro de bancos, fundos e grandes empresas para as startups, parques tecnológicos e plataformas digitais, o infográfico a seguir (Figura 5) exibe algumas notícias da mídia corporativa que permitem uma visão geral do movimento em curso.

Figura 5: Notícias da relação entre fundos financeiros, empresas, startups e plataformas digitais

Fonte: Elaboração do autor (2020, a). Arte: Maycon Aguiar.

    A relação entre os investidores e os “pesquisadores-empreendedores” das startups é de um pragmatismo evidente. Os investidores querem velocidade e rentabilidade para os negócios nos quais resolvem apostar. No Brasil, os níveis de investimentos dos capitais de risco para as startups são normalmente divididos em quatro ou cinco etapas, que funcionam como uma espécie de funil. Os investimentos começam com uma rodada chamada de “seminal” com dinheiro investido quase a fundo perdido, que varia conforme a área ou o país, podendo envolver cifras de dezenas ou milhares de dólares, sendo os investidores chamados de “investidor-anjo”.

Uma segunda rodada, pós-seminal, é chamada de investimento do tipo semente (Seed), ou nível Classe A. Nela o investidor trabalha com a ideia de que o negócio pode não seguir em frente com um cenário ainda mais provável de interrupção. Nessa rodada, os investimentos normalmente se situam em patamares acima de cem mil dólares. A seguir encontram-se mais duas ou três rodadas divididas (por classes ou séries) conforme o país, onde o valor dos investimentos dos investidores vai aumentando gradativamente, podendo ultrapassar uma dezena de milhões de dólares quando a startup entra numa nova etapa em que o negócio pode ser adquirido por uma empresa maior. Numa etapa posterior, já com incentivos para acelerar este processo de estruturação do negócio como uma grande empresa, ela pode abrir o seu capital com um primeiro lançamento de ações (IPO), permitindo que investidores internacionais comprem ações em ofertas públicas. Outra alternativa diz respeito à possibilidade da startup comprar outra empresa, ser comprada, fundida ou incorporada por uma grande empresa e/ou passar a ser controlada (como ativo) por algum fundo financeiro, aquele que iniciou os investimentos ainda na fase de apoio (o mais comum), ou outro fundo financeiro, conforme a área e as articulações em termos de redes de negócios estabelecidos pelas suas gestoras.

Ainda sobre a relação entre os investidores e os responsáveis pelas startups, a pesquisa identificou que, de uma forma geral, os primeiros trabalham com a ideia de que o ciclo de vida de um fundo financeiro (basicamente do tipo venture e/ou hedge) que capta capitais de risco para aportar em startups é geralmente de dez anos, ao fim dos quais, esperam um retorno de pelo menos 30%, fora a correção do dinheiro. O objetivo é, porém, fundamentalmente chegar aos investimentos mais bem sucedidos que ofereceriam retorno entre 10 e 50 vezes o capital inicial. É interessante observar que à medida que as startups vão passando na peneira e subindo os degraus, em termos de resultados, mais aportes recebem, ampliando a financeirização com a participação de mais capitais de risco. Os casos dos unicórnios (startups que alcançam valor de mercado superior a US$ 1 bilhão) reforçam essa análise. Embora provavelmente já tenha ficado claro que a relação direta com a financeirização se dá em todo o percurso de desenvolvimento da startup, desde a fase inicial como investidor-anjo até ultrapassar a condição de unicórnio.

Outro importante dado captado sobre esse movimento dos investidores é que eles, normalmente, preferem diversificar as aplicações entre startups que atuam em diferentes setores econômicos. Na prática, os fundos financeiros atuam como “aceleradores” das startups, quando aportam capital que permitem ganho de tempo em termos de organização para atender a uma demanda e a um mercado já identificado e conhecido. Os investidores nesses tipos de fundos financeiros normalmente fogem de intermediários, optando por ir direto aos fundadores das startups, buscando assim ampliar ganhos relacionados à extração de valor da economia real.

O termo startup passou a ser utilizado na década de 90 nos EUA, no Vale do Silício, Califórnia, para designar empresas recém-criadas, muito rentáveis e com modelos de negócios que fossem considerados inovadores em qualquer ramo de atividade, embora tenham se popularizado na área de tecnologia da informação (TI). No Brasil, as primeiras startups surgem junto às universidades nos anos iniciais após a virada do século, porém a explosão de lançamentos no Brasil ocorreu após 2010, em especial após 2015, com forte apoio e incentivo das universidades, suas incubadoras de empresas e parques tecnológicos, agências de fomento estatais como a Finep, CNPQ, fundações estaduais e municipais de Ciência e Tecnologia etc. Pode-se afirmar que elas funcionaram como condições gerais de produção para esse processo. Esse movimento foi, depois disso, incorporado por instituições vinculadas ao setor produtivo, como federações da indústria e serviços, Senai, Sebrae, etc.  Só mais recentemente, grandes empresas estatais e multinacionais entraram nesse circuito arrastando também o setor financeiro, de forma especial, as gestoras de fundos.

Para uma melhor dimensão da evolução desse processo de startupização no Brasil, é importante observar os dados da Associação Brasileira de Startups. Segundo a Abstartups [3], em 2011, ano de criação da associação, o país contabilizava 600 startups instituídas. Em 2015, 4,4 mil. Em 2019, o Brasil já havia multiplicado em mais de 20 vezes esse número em relação a 2011, alcançando um total de 12.727 startups. O Quadro 1 apresenta a evolução do número de startups no Brasil entre 2015 e 2019. Em setembro de 2020, o número tinha saltado para 13.508 startups em funcionamento no país, havendo onze delas já atingido a condição de unicórnios. [h] [i] [j]

Quadro 1. Evolução do nº startups no Brasil entre 2015 e 2019


Evolução nº Startups no Brasil
Ano/EstadoSPMGRSRJBrasil
20151.320 (30%)365 (8%)183 (4%)343  (8%)4.451
20161.327 (31%)591 (14%)184 (4%)343 (8%)4.273
20171.668 (32%)714 (14%)223 (4%)446 (9%)5.147
20183.060 (31%)720 (7%)885 (9%)843 (8%)10.000
20193.780 (30%)1.094 (9%)918 (7%)839 (7%)12.727

Fonte: Elaboração do autor (2020); Abstartup – StartupBase.

Os dados apresentados (Quadro 1) mostram uma expressiva concentração espacial no estado de São Paulo e nos demais estados da região Sudeste, assunto que será comentado adiante. Em termos das áreas de atuação das startups, é possível confirmar a predominância (73%) das plataformas: Software (SaaS): 41%; Marketplace (19%); E-commerce: 7% e aplicativos tipo consumers (6%).

A Abstartup faz questão de se referir ao movimento como sendo um “ecossistema de startups” com 78 comunidades (dividas pelas cinco regiões do país) que leva em conta a construção de todo um ambiente considerado favorável ao desenvolvimento dos empreendimentos, envolvendo vários agentes: pessoas, empresas, instituições, universidades, órgãos de governo (Estado) etc. Esses agentes também conectam outras pessoas e instituições que atuam como mentores, investidores, aceleradoras, incubadoras, parques tecnológicos e agentes de fomento, o que ajuda a explicar essa explosão de startups no Brasil. Em 2020, a Abstartup informava em seu sítio na internet que esse ambiente se refere, segundo a sua base de dados (StartupBase), a um número que “gira em torno de mais de 20 mil perfis de pessoas e empresas” [3]. Para uma melhor visualização das relações e da integração entre os diferentes agentes (empresas, órgãos de governos e instituições) que atuam na articulação dessas empresas, elaborou-se o seguinte esquema gráfico (Figura 6).

Figura 6: Esquema gráfico das Inter-relações entre agentes do “ecossistema de startups

Fonte: Elaboração do autor (2020). Arte: Maycon Aguiar.

Esse movimento das startups levou, em outubro de 2020, o governo federal a encaminhar ao Congresso Nacional um “Projeto de Lei do Marco Legal das Startups no Brasil”. O projeto, elaborado pela Secretaria Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Fazenda com “a finalidade de fomentar a inovação, define regras de abertura, funcionamento e atuação deste tipo de empresas do setor de startups, entendidas como iniciativas de base tecnológica e que apresentam um modelo de negócio inovador”. Na apresentação do projeto, foi informado que “o Brasil seria o quarto maior mercado digital” do mundo, o que reforça a compreensão de que a atuação mais forte das startups se dá no campo das plataformas digitais. [k]

Uma base importante de análise sobre esse “ecossistema de startups” no Brasil, a respeito das áreas de atuação, tempo de implantação, localização e atividades desenvolvidas por essas empresas, foi investigada a partir do concurso “100 Startups To Watch, organizado pela revista Pequenas Empresas Grandes Negócios (PEGN) da Editora Globo, cujos resultados foram publicados na edição de agosto de 2020. [l]

O concurso na versão 2020 teve a participação (inscrição) de 1.972 startups (cerca de 15% das 12,7 mil existentes no país em 2019) cuja atuação se divide em dez diferentes setores da economia. Uma comissão de quatorze avaliadores composta por especialistas, entre eles consultores, investidores, representantes do BNDES, Sebrae, Endeavour, Itaú e Globo, fez a seleção em fases: uma primeira lista de 1,3 mil; reduzida, posteriormente, para 200; até chegar ao resultado final com 100 startups. Segundos os organizadores, a avaliação foi realizada com base em cinco critérios: grau de inovação; potencial de mercado; negócios; equipe e maturidade das soluções. A base de dados sobre as cem startups que mais se destacaram em 2020 permite, em síntese, registrar importantes questões que valem ser destacadas:

  1. Da lista de 100 startups selecionadas em destaque, nada menos que 91 delas se referem a soluções de plataformas digitais distribuídas pelos dez setores. Esse percentual enorme reforça a interpretação de que a maior parte desses empreendimentos tipo startups são empresas as quais apresentam arquiteturas de base tecnológica que fazem a intermediação de soluções para superar ineficiências numa das três etapas do modo de produção capitalista: produção, circulação e consumo entre os vários setores da economia. Os negócios-plataformas digitais variam basicamente em termos de softwares e aplicativos. Nove, das 100 startups, que não são tipo plataforma digital, estão na área de saúde, produção de alimentos, e equipamentos: rede de clínicas de saúde populares; tratamento médico; exames laboratoriais remotos e/ou de baixo custo; diagnósticos moleculares; fazenda urbana vertical; produção e delivery de alimentos saudáveis; produção de defensivo biológico e equipamento de análise computacional.
  2. A lista das 100 startups com maior destaque são vinculadas a dez setores: Finanças (22); Saúde e Bem-estar-HealthTech (16); Tecnologia da Informação (13); Serviços (11); Marketing (9); Agronegócios-AgroTech (8); Transporte e Logística (7); Gestão (7); Educação-EdTech (4) e Impacto Social (3). Fica claro o destaque para as áreas de finanças, tecnologias digitais e saúde. Em primeira posição estão as plataformas digitais da área de finanças (quase ¼), refletindo o desenvolvimento das chamadas Fintechs, que aliam a intermediação financeira com o uso da tecnologia digital facilitando os fluxos financeiros, que garantem maior mobilidade ao capital, dentro da lógica atual do capitalismo hegemonicamente financeiro. A segunda posição é da área de saúde (Health), dentro um campo maior representado pelos serviços, com enormes demandas da população, realçada a partir da pandemia. As HealthTechs estão entre as startups americanas que mais têm recebido aportes de capital em função do retorno financeiro que oferecem. A Tecnologia da Informação (TI) é outra área que reflete o desenvolvimento e a demanda do instrumento que, em última instância, é o que garante a dominação digital dentro do sistema informacional. Também é possível observar que os demais setores listados consistem em áreas-meios (serviços, transporte, marketing, gestão, etc.), que são mais propícias às soluções na linha e na lógica da plataformização.
  3. Outra observação importante para além da setorial é a que demonstra a concentração espacial, ligeiramente comentada com os dados da Abstartups. Da lista de 100 startups, 86% estão na região Sudeste, e 12% na região Sul. Em termos da localização por estado, São Paulo abrange 74%, 65% só na capital paulista. O estado do Rio de Janeiro contém 6%; Minas Gerais, 5%; o Paraná 4%; Santa Catarina 4%; Rio Grande do Sul 3%; Pernambuco 1%; Goiás 1%, Tocantins 1% e o Distrito Federal 1%. A concentração na maior metrópole brasileira e no estado de São Paulo é gigantesca. Maior que a proporção em termos de PIB da capital e do estado de São Paulo em relação aos demais, o que ocorre por uma série de razões. Vale registrar que esses percentuais são sobre a lista das 100 startups escolhidas no concurso. Em relação a todas as 12,7 mil startups do Brasil em 2019, o percentual do ESP é menor (30%) como já apontado no Quadro 1. A concentração maior dos dados “100 Startups To Watch” em São Paulo pode indicar um maior sucesso das startups com localização onde também se reúnem e se localizam os suportes financeiros, como as sedes dos bancos e das gestoras de fundos de investimentos instalados na maior metrópole do país. Aliada a isso, a proximidade com as maiores e melhores universidades e centros de pesquisas do país, assim como com os parques tecnológicos, e ainda a proximidade com as demandas de soluções geradas por setores dinâmicos e economias de aglomeração que as startups buscam atender se juntam e formam uma sinergia, concêntrica e cumulativa, que concorre para reafirmar a expressão usada pela Abstartup sobre o ambiente do “ecossistema de inovação”. Esses fatos explicam a exclusão de outras regiões e a tendência que a inovação tecnológica tem de promover ainda mais desigualdades, reforçando também a interpretação mais geral de que a inovação tecnológica, além de ser desigual, produz e acentua ainda mais as desigualdades regionais. Apesar de muitos esforços de políticas públicas com arranjos múltiplos e parcerias privadas, os sistemas regionais – como nos casos dos estados do Sul (SC, PR e RS) – não conseguem reverter esse quadro, que relaciona a inovação às desigualdades espaciais regionais, o qual não é muito distinto na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia.

No que concerne ainda à pesquisa empírica sobre as startups no Brasil, sua relação com a financeirização e a predominância das que funcionam como plataformas digitais, é oportuno observar a lista das onze primeiras startups (Quadro 2) que, até setembro de 2020, transformaram-se em unicórnio.

Quadro 2. Primeiras startups unicórnios no Brasil.


Startups que se tornaram unicórnios no Brasil (até set. 2020)

Startup
Ano criaçãoData unicórnio
Área de atuação
992012Jan 2018Plataforma de transporte de passageiros
Nubank2013Mar 2018Plataforma financeira – FinTech
Stone2012Out 2018Plataforma de meios de pagamento
IFood2011Nov. 2018Plataforma de delivery (entrega) de comida
Loggi2013Jun 2019Plataforma de entregas por motoboy
Gympass2012Jul 2019Plataforma de exercício físico por assinatura
Quinto Andar2013Set. 2019Plataforma de aluguel de imóveis
EBanx2012Out. 2019Plataforma de meios de pagamento
Wildlife2011Ago 2019Desenvolvimento de jogos (games) para celulares
Loft2018Jun 2020Plataforma de compra, reforma e venda de imóveis
VTEX1999Set. 2020Plataformas digitais para e-commerce de varejo

Fonte: Elaboração do autor (2020); O Globo e PEGN [i] [l].

Como é possível ver, a condição de chegar a unicórnio é recente: pouco mais de dois anos, a partir de janeiro de 2018. Outra observação é a predominância absoluta entre as onze primeiras startups que chegaram à condição de unicórnio de empresas-plataformas. Praticamente na mesma proporção de 90% (10/11) da lista do concurso “100 Startups To Watch” da revista PEGN. O fato também reforça o destaque das plataformas digitais (aplicativos) como intermediação de soluções, uma das hipóteses centrais desta pesquisa. O tempo médio entre a criação e a passagem para a condição de unicórnio varia entre seis e sete anos. A única exceção é a VTEX, que levou 21 anos para chegar a essa condição. Por áreas de atuação, três são de meios de pagamento/Fintech; três de transportes e delivery; duas de serviços/comércio; duas de negócios imobiliários e uma de tecnologia em games.

É oportuno registrar que, em setembro de 2020, a despeito da pandemia, as negociações de startups no Brasil já haviam batido o recorde com 100 transações entre fusões e aquisições, superando as 63 transações de 2019 e 27 de 2018. Essas negociações indicam o interesse do mercado e a participação dos capitais de riscos nesse tipo de empresas. [m]

Segundo dados da consultoria Distrito, o volume de investimentos em startups no Brasil alcançaram US$ 1,39 bilhões em 2018, US$ 2,96 bilhões em 2019 e chegaram a US$ 3,14 bilhões, em 2020, ano da pandemia, metade nas Fintechs que receberam aportes de US$ 1,5 bilhão. Em três anos os investimentos em startups no Brasil somaram US$ 7,5 bilhões (MATSUURA, 2021). [n]

A pesquisa empírica sobre a instalação das startups no Brasil ainda está em curso e demanda várias outras investigações. Porém, já foi possível perceber a intensa relação e dependência dos capitais de risco para o desenvolvimento dessas empresas, independente da condição de configurarem, ou não, plataformas digitais. A forma e a intensidade da presença da financeirização indicam que os capitais de risco estão antecipando a entrada nos negócios ainda na fase de maturação. Processo relativamente novo e vinculado à inovação tecnológica.

Os fundos de investimentos há algum tempo passaram a comprar ações ou todo o controle de empresas em funcionamento, tornando-se controladores da maior parte dos ativos de maior valor, dirigindo, dessa forma, paulatinamente, a produção material. Agora, o aumento da hegemonia financeira está levando esses capitais de risco a participarem tanto dos processos de instalação como de desenvolvimento das startups, controlando, desse modo, também o processo que identifica – antecipadamente – o momento de ampliar a participação financeira ou até de adquirir o controle daquelas mais promissoras em termos de rentabilidade.

O prosseguimento da pesquisa empírica poderá confirmar a hipótese de que se trata de um novo modus operandi ainda mais interessante para os investidores na medida em que, tomando parte dessa fase inicial, os donos do capital têm condições de decidir o momento ideal de entrar na participação acionária, ainda na fase de filtragem e antes de as startups se tornarem unicórnios. Os investidores poderiam, assim, comprar a sociedade por valores menores ou mesmo adquirir todo o controle. O mesmo se dá com relação às grandes empresas que estimulam o lançamento de startups em áreas e temas que são seus gargalos. Dessa forma, gastam menos com pesquisas e desenvolvimento de tecnologia, e podem adquirir a startup ou tornarem-se sócias de soluções que sejam complementos para os seus negócios. O acerto nas decisões pode representar uma conquista de rentabilidade superior a 50 vezes o capital inicial alocado nas startups em rodadas de investimento. Essas hipóteses seriam, se confirmadas, a ampliação da hegemonia financeira que tende a garantir um regime de acumulação e lucros ainda maior, em boa parte vinculada à tecnologia, não como fator de produção, mas como uma espécie de dominação sobre todos os outros setores da economia. Segundo Méndez (2018, p.41), “todo regime de acumulação é uma construção social, resultado conjunto de estratégias privadas e políticas públicas com vistas a um fim”. Para compreender e analisar um pouco mais esse fenômeno descortinado na pesquisa empírica, é interessante esclarecer algumas terminologias aqui utilizadas, assim como resgatar alguns conceitos que auxiliam na compreensão desse processo.

As dimensões do Plataformismo

Antes de ir adiante é oportuno resumir essa trilogia de conceitos (Figura 7) para que se tenha uma maior clareza de análises sobre o que envolve a ampliação da importância da tecnologia digital no mundo contemporâneo, sendo as Plataformas Digitais (PDs) o instrumento, a ferramenta desse processo; a Plataformização, o processo de intermediação executado pelas PDs; e o Plataformismo ou Capitalismo de Plataformas, o regime de acumulação capitalista que avança na direção monopólica.

Figura 7: Glossário do capitalismo de plataformas

Fonte: Elaboração do autor (2020, a). Arte: Maycon Aguiar.

O fenômeno pode ser visto como uma nova etapa do regime de acumulação que se utiliza ainda da rigidez fordista, se apropria da flexibilidade toyotista, mas ganha agora impulso com o plataformismo, sem deixar de se apropriar das etapas anteriores do MPC. Nesse percurso de análise, não é um exagero afirmar que o conhecimento, a internet e a tecnologia estão se tornando os principais fatores de produção, produzindo transformações tanto no modo de produção quanto no aparente novo ciclo de acumulação capitalista, em que se identifica uma hiperconcentração, com a formação de ainda maiores oligopólios que reforçam o movimento de tendência monopolista.

Figura 8: Plataformismo – Transformações no Modo de Produção Capitalista

Fonte: Elaboração do autor (2020, a). Arte: Maycon Aguiar.

O plataformismo também faz a intermediação e o uso simultâneo de uma espécie de fordismo digital (Amazon e Alibaba com maior controle e supervisão sobre a produção e geolocalização da distribuição), da flexibilidade informacional da acumulação flexível que se viabiliza a partir do Toyotismo e se encontra ampliado e radicalizado no plataformismo, que reúne tudo isso sob a lógica do sistema informacional (CASTELLS, 2002).

Vale registrar que, na virada do século, o sociólogo espanhol Manuel Castells, há mais de duas décadas (1996) seguido por outros pensadores, estimou esse processo sob uma análise prospectiva – e um tanto utópica – no livro A Sociedade em Rede, o primeiro da trilogia A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura. Os dois outros livros foram O Poder da Identidade (1997) e Fim de Milênio (1998). A trilogia merece ser revisitada, especialmente agora em que o fenômeno do sistema informacional deixa de ser pensado como cenário e hipóteses e se figura como realidade. Assim, é possível comparar, compreender e analisar melhor, por meio dos fatos que se desenrolam e dos agentes em movimento, o fenômeno que se tenta decifrar. Esse exercício poderá trazer mais clareza acerca dos processos por intermédio dos quais se chegou ao presente.

De forma breve e de passagem, é possível dizer que o plataformismo é consequência da globalização dos mercados e consiste num fenômeno transescalar, ou seja, que se desenrola simultaneamente em espaços globais e locais/nacionais (por isso transescalar e não multiescalar), sendo também multidimensional, embora de forma imbricada e cruzada. Essas investigações transescalares e multidimensionais podem ajudar na compreensão sobre os impactos que o plataformismo produz com alterações significativas na organização espacial dos negócios, da concorrência, do mercado de trabalho e sobre a organização das cidades. Para avançar um pouco mais sobre o fenômeno do capitalismo de plataformas (plataformismo), é oportuno analisar as transformações que estão acontecendo no modo de produção capitalista.

Plataformismo como reflexo da potencialização da etapa de circulação no MPC

A totalidade incorporada no conceito de Modo de Produção Capitalista (MPC) revela a interdependência e a integração entre as etapas da produção, circulação e consumo. O uso das plataformas digitais como infraestruturas de intermediação ampliou as oportunidades da lógica de extração de valor presente nas três etapas do MPC, em especial na circulação. Isso se dá porque o processo da plataformização é parte da etapa de circulação (meio) – infraestruturas digital-logística – que realiza a intermediação desde a produção até à entrega da mercadoria.

Neste raciocínio é pertinente recuperar o conceito de Marx sobre as Condições Gerais de Produção desenvolvido pela professora Sandra Lencioni da USP, que lembra que “a duração da circulação é desvalorizante”. (LENCIONI, 2020). Por essa razão, o capital busca “a redução da distância e do tempo de percurso” para superar barreiras que retiram valor da produção.

É exatamente neste ponto que as empresas-plataformas atuam num mix entre ações informacionais e logísticas. Daí, seguindo essa ideia, é possível afirmar que a plataformização tem funções como “meio de circulação”, onde o intangível do sistema digital se encontra com o tangível e material da logística. Como meio de circulação, as plataformas digitais aproximam as distâncias, diminuindo assim o tempo desse processo com o uso da infraestrutura de logística, pela qual se romperá a barreira da distância. Assim sendo, as plataformas digitais, como condições gerais de produção, são, ao mesmo tempo, condições prévias e resultados do próprio processo capitalista de produção estando, portanto, relacionadas ao valor em movimento. Lencioni (2020) lembra ainda que “a transformação de um produto em mercadoria só se completa, na forma de mercadoria, quando é vendido. Em estoque é apenas uma mercadoria em potencial”.

Não apenas as plataformas digitais (PDs) como também as gigantes infraestruturas logísticas se constituem como Condições Gerais de Produção e se tornam a base para a reprodução ampliada do capital. A produção capitalista amplia enormemente o seu poder com essa junção da infraestrutura digital das plataformas de informática e a infraestrutura física do mundo real no território. Esse processo representa uma mudança colossal em relação às condições anteriores em que as vendas eram intermediadas por atacadistas e pelo varejo das lojas e comerciantes locais nas cidades. Essa junção do intangível digital com o tangível da logística daquilo que é real se trata de uma “quase revolução” na etapa de circulação das mercadorias ao contribuir para promover um deslocamento do capitalismo em direção a um novo ciclo de acumulação, a que tenho denominado e referido como Plataformismo.

É nesse contexto que as empresas-plataformas não só reduzem a desvalorização do produto na etapa de circulação, como também sugam uma parte maior do valor tanto da produção (quando evita a desvalorização), quanto na distribuição para o consumo. Além disso, elas também capturam e incorporam os ganhos de renda da etapa da distribuição e venda, que eram dos comércios locais, recolhendo os excedentes regionais que, em boa parte, rumam para o andar superior das finanças, onde estão os fundos financeiros que passaram a controlar, junto com os bancos, porções expressivas dos ativos dessas empresas-plataformas.

A esse processo eu tenho denominado figurativamente como “vampirismo digital” da renda do trabalho, o qual encontra-se vinculado a uma crescente precarização tanto na etapa da produção (daí os cortes nos direitos trabalhistas e previdenciários), quanto, em especial – e hoje de forma mais conhecida e debatida –, na precarização da atividade informal e sem direitos executada pelos entregadores na ponta do sistema. Não é possível analisar a plataformização dos negócios sem identificar a colossal extração de valor que ela traz em seu âmago.

As empresas-plataformas foram, assim, tornando-se gigantes oligopólios, sem correr maiores riscos e sem produzir nada, incorporando colossais comissões que são derivadas do trabalho dos outros. Trata-se, portanto, de um processo que amplia enormemente a concentração de capital e a formação de oligopólios que tendem a ser supranacionais porque representam vantagens de ganhos em escala, como já é possível observar mundo afora. A compreensão dessas transformações exigirá ainda mais investigações tanto no que diz respeito às plataformas digitais, quanto sobre a forma que está se dando a institucionalização empresarial dessas startups (metaempresas ou metaorganizações, na leitura de Annabelle Gawer, 2014, citada por KENNEY e ZYSMAN, 2020, p. 56), que são a base do avanço do processo de plataformização e de um novo ciclo de acumulação derivado do que aqui foi referido como plataformismo.

Considerações finais

A pesquisa centralizou as suas atenções para as transformações recentes do capitalismo contemporâneo. Foi nessa direção que se desenvolveu a investigação empírica a qual forneceu importantes informações que demonstram que a inovação, em grande parte, não tem produzido mais riqueza, mas sim uma extraordinária extração de valor e de renda. Além disso, mais que uma ideia difusa de progresso, a inovação tem servido para ampliar as desigualdades, a despeito dos esforços de políticas regionais de inovação que buscam criar valor em vez de desenvolver programas e projetos que levem à captura de excedentes regionais e à extração de renda do trabalho, as quais, no sistema informacional, podem ser chamadas de “vampirismo digital”.

A inovação tecnológica (IT) tem estimulado o surgimento das startups, em especial sob a forma de intermediação, utilizadas pelas plataformas digitais, que permitem uma interligação mais rápida entre o andar das altas finanças e a produção social no território. Os fundos financeiros se tornaram os instrumentos ideais desse processo, deram potência e mobilidade ao capital para, por meio da Plataformização, retirar os riscos dos negócios nos diferentes setores, expandindo as margens de lucro e de acumulação. Assim, o capital ampliou ainda mais a sua mobilidade (hipermobilidade) e a sua capacidade de acumulação em direção à sua tendência monopólica em termos de reprodução e de acumulação.

A pesquisa empírica comprovou que o processo de criação de empresas (startupização) de base tecnológica tem representado não necessariamente a criação de empregos, mas um avanço colossal da hegemonia financeira aliada à dominação da tecnologia, para as quais representam ganhos sobre todas as demais frações do capital e dimensões da vida social e política no mundo atual. Esse fenômeno reflete um movimento na etapa de circulação da tríade marxiana que é reflexo de uma potente composição entre o digital e a logística, uma articulação entre o “intangível” do sistema informacional e a materialidade da infraestrutura de logística, que passam a funcionar como elementos e etapas da arquitetura do capitalismo de plataformas no mundo contemporâneo.

A realidade empírica trouxe, além disso, a explosão das startups (startupização) e elementos claros sobre as estratégias de financeirização e sobre a atuação majoritária das plataformas digitais nas diferentes frações do capital. Os fatos comprovam que as startups têm servido a esse processo de aceleração da extração de valor com oligopolização e concentração dos setores da tecnologia e das finanças que levam ao esgarçamento do capitalismo, havendo o setor de tecnologia se tornado paulatinamente o mais importante oligopólio da história do capitalismo.

Num esforço de interpretação em termos de totalidade e numa perspectiva da superestrutura, a potente relação entre o circuito financeiro global e a inovação tecnológica (através das startups) também expõem a característica mais importante do plataformismo: a enorme extração de valor. O plataformismo pode e deve ser ainda analisado em outras dimensões, para além da econômica.

Radicalizando mudanças que simultaneamente convivem e se harmonizam entre a rigidez do fordismo e a flexibilidade do toyotismo já existentes, o Plataformismo aparenta ser mais do que transformações no MPC. Há aí duas hipóteses sobre o capitalismo de plataformas, que precisam ser ainda mais aprofundadas e melhor analisadas, tanto em termos empíricos quanto teóricos, baseadas fundamentalmente em Marx. Estaríamos diante de uma nova etapa do MPC ou seguindo em direção a uma etapa posterior de um novo – e diverso – ciclo de acumulação que surge a partir do processo de plataformização? A relação estreita e intensa entre as empresas-plataformas-digitais e a financeirização sugere um novo ciclo de acumulação, que seria a “da globalização entendida como a plena realização do mercado mundial inerente ao conceito de capital (Marx) como a etapa posterior do modo de produção capitalista que se instala a partir da entrada da China na OMC” [4].

A observação mais detalhada dessa realidade permite ver com relativa clareza a necessidade que se tem de redesenhar as políticas e os sistemas nacionais e regionais de inovação (chamado de “ecossistema de inovação e startups”), de forma a melhor orientar os investimentos públicos e privados no país e, assim, deixar de estar exclusivamente a serviço da dominação do capital, da lógica do desenvolvimentismo e de uma modernização excludente e concentradora, características e consequências da racionalidade neoliberal.

O desenvolvimento regional na concepção furtadiana prescinde de uma orientação e uma atuação a favor do bem-estar social, do trabalho, dos empregos e direitos sociais. A inovação na periferia tem que fazer parte da política de inversão de prioridades a fim de promover inclusão social e de reduzir as desigualdades, e não as acentuar.

As políticas e os programas precisam frear a oligopolização e o capitalismo monopólico não concorrencial a que a inovação tem servido no capitalismo contemporâneo. Assim, poder-se-ia evitar a concentração e a acumulação de capital que têm dado mais poder a quem já tem poder e mais dinheiro a quem já tem dinheiro. É necessário romper esse casamento perverso entre a financeirização e a tecnologia digital (sistema informacional) que tem auxiliado a ampliar a exclusão social em todo o mundo.

As formas contra-hegemônicas, que também já se utilizam das plataformas digitais, devem ser incentivadas na busca de interesses coletivos e comunitários, mesmo em meio a um sistema perverso em sua gênese. As políticas contra-hegemônicas desenvolvidas nas diferentes escalas, do local, nacional ou global, devem tomar outra direção privilegiando, assim, o trabalho e as pessoas, e não apenas o mercado, como tem ocorrido. O cooperativismo de plataformas constitui uma dessas possibilidades que estão sendo experimentadas na lógica da tecnologia: servir à sociedade e não se servir dela como mais um elemento de exclusão e dominação. Em meio às dificuldades, é necessário buscar saídas para impedir uma nova e mais radical rodada do neoliberalismo. Tal empenho, porém, não pode ser efetivado sem que se compreenda o fenômeno em curso; razão, esforço e contribuição desta pesquisa aqui relatada.

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A – Notas:

[1] A referência à expressão “capitalismo autofágico” se dá como analogia ao termo derivado do sistema biológico e celular. Autofagia se refere ao processo de degradação e reciclagem de componentes da célula. O termo autofagia deriva do grego e significa “comer a si próprio”, ou seja, a célula digere partes de si mesma. O termo é também uma analogia ao personagem “Macunaíma” do livro de Mário Andrade (1893-1945), que usa a metáfora de sua antropofagia. Essas analogias ajudam na leitura sobre como o regime de acumulação primitiva e de tendência monopolista do capitalismo (visto de forma geral) seria um sistema basicamente autofágico.

[2] Artigo do SCAFFIDI, Giuseppe no portal Outras Palavras: “Cronofagia: o roubo do tempo, sono e ideias”, publicado em 17 de fevereiro de 2020. Scaffidi cita Jean-Paul Galibert e seu manifesto Cronòfagi (2015), quando afirma que Galibert foi quem cunhou pela primeira vez o termo “cronofagia”, configurando-o como uma das bases de sustentação do hipercapitalismo contemporâneo. Scaffidi também se refere à influência do termo Cronofagia em outro ensaio de 2015, “Capitalism 24/7 – Il capitalismo all’attacco del sonno” [Capitalismo 24/7 – o sono sob ataque do sistema] de autoria de Jonahthan Crary, que “evidencia como uma necessidade biológica fundamental entrou em claro contraste com as exigências voltadas a alcançar a distopia de um capitalismo 24 horas por dia, 7 dias por semana”. Disponível em: <https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/cronofagia-o-roubo-do-tempo-do-sono-e-das-ideias/>.

[3] Associação Brasileira de Startups (Abstartup), criada em 2011 com o objetivo de promover e representar as startups brasileiras. Tem sede no município de São Paulo, e seu portal informa que possui mais de 1000 startups inscritas na associação: <https://abstartups.com.br/>.

[4] Breve leitura do professor François Chesnais sobre o Plataformismo, a partir de diálogo iniciado em sua palestra, na webinar, realizada no dia 22-10-2020, na RedeSist (Rede de Pesquisa em Arranjos e Sistemas Produtivos e Inovativos Locais instalada no Instituto de Economia – IE/UFRJ) sobre o tema “Platform capitalism, surveillance capitalism: challenges and perspectives for sustainable production and innovation systems”. Sobre o tema, foram realizadas trocas de e-mails, que permitiram esta breve referência sobre a ocorrência de um novo ciclo de acumulação a partir do que aqui foi denominado como Plataformismo.

B- Reportagens na mídia:   

[a] Revista Época, 29 de julho de 2019. Softbank cria fundo de investimento de US$ 108 bilhões para startups. Disponível em:  <https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2019/07/softbank-cria-novo-fundo-de-investimento-de-us-108-bilhoes-para-startups.html>.

[b] Revista Exame, em 15 de abril de 2013. 15 fundos de investimentos de olho nas startups brasileiras. Disponível em: <https://exame.com/pme/15-fundos-de-investimento-de-olho-nas-startups-brasileiras/>.

[c] Estadão, em 12 de maio de 2019. Conheça os principais fundos que investem nas startups brasileiras: <https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,conheca-os-principais-fundos-de-investidores-nas-startups-brasileiras,70002825230>.

[d] Startupi, em 26 de novembro de 2019. Microsoft lança fundo para investir em startups empreendedoras: <https://startupi.com.br/2019/11/microsoft-lanca-fundo-para-investir-em-empreendedoras-brasileiras/>.

[e] Sebrae, em 17 de setembro de 2019. Sebrae plataforma aproxima indústrias de soluções 4.0: <https://www.industria40.ind.br/noticias/18747-plataforma-aproxima-industrias-de-solucoes-40>.

[f] Agência Brasil, em 4 de setembro de 2019. Petrobras lança edital para projetos inovadores com startups: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2019-09/petrobras-lanca-edital-para-projetos-inovadores-com startups#:~:text=O%20edital%20prev%C3%AA%20o%20financiamento,R%24%2010%20milh%C3%B5es%20nessa%20etapa.&text=Os%20participantes%20ter%C3%A3o%20at%C3%A9%20dois,meses%20para%20desenvolver%20o%20projeto>.

[g] Isto é dinheiro, em 22 de julho de 2020. Trinta startups vão para a fase final de edital da Petrobras e Sebrae: Disponível em: <https://www.istoedinheiro.com.br/trinta-startups-vao-para-a-fase-final-de-edital-da-petrobras-e-sebrae/>.

[h] Portal G1, em 15 de janeiro de 2020. Número de startups no Brasil aumentou 20 vezes nos últimos oito anos; 11 já são unicórnios. Há dois anos, o país vê startups atingirem valor de mercado de US$ 1 bilhão, com cenário econômico que estimula investimento no setor.

Disponível em: <https://g1.globo.com/globonews/noticia/2020/01/15/numero-de-startups-no-brasil-aumentou-20-vezes-nos-ultimos-oito-anos-11-ja-sao-unicornios.ghtml>.

[i] O Globo, em 29 de setembro de 2020. Brasil tem mais um unicórnio. Veja quais são as start-ups nacionais que superam a marca de US$ 1 bilhão. Com aporte recebido nesta semana, a VTEX se juntou ao grupo que reúne Nubank, QuintoAndar, iFood e outras empresas de sucesso. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/economia/brasil-tem-mais-um-unicornio-veja-quais-sao-as-start-ups-nacionais-que-superaram-marca-de-us-1-bilhao-24666641>.

[j] Valor, em 07/08/2020. PEGN aponta as cem empresas mais promissoras no cenário da inovação: edição de agosto traz reportagem especial sobre as “100 startups to watch”. Disponível em: <https://g1.globo.com/globonews/noticia/2020/01/15/numero-de-startups-no-brasil-aumentou-20-vezes-nos-ultimos-oito-anos-11-ja-sao-unicornios.ghtml>.

[k] Folha de São Paulo. Disponível em:  <https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/10/governo-finaliza-marco-legal-das-startups-projeto-segue-para-o-congresso.shtml>.

[l] Revista PEGN, edição agosto de 2020. 100 Startups to Wash: as empresas mais promissoras do ecossistema brasileiro. Conheça os negócios inovadores e altamente escaláveis que se destacaram em 2020. Disponível em: <https://revistapegn.globo.com/Startups-to-Watch/noticia/2020/08/100-startups-watch-empresas-mais-promissoras-do-ecossistema-brasileiro.html>.

[m] Estadão em 30 de setembro de 2020. Aquisição de startups no Brasil chega a 100 transações e bate recorde. Disponível em: <https://link.estadao.com.br/noticias/inovacao,aquisicao-de-startups-no-brasil-chega-a-100-transacoes-em-2020-e-bate-recorde,70003457187>.

[n] O Globo, 4 janeiro 2021, P.21. MATSUURA, Sérgio. Apetite para o risco – Após captação recorde de US$ 3,1 bi em 2020, start-ups seguem na mira de investidores. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/start-ups-batem-recorde-em-2020-com-us-31-bi-em-aportes-seguem-na-mira-dos-investidores-1-24821880.

C – Quadro das “100 Startups to Wash elaborado pelo autor, a partir das informações da revista PEGN com tabulação sobre o ano de criação, localização e descrição das atividades das startups. Acesso ao quadro disponível em aqui.

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