Justiça por Kathlen

Fui dormir ontem e acordei hoje indignada com a notícia sobre a morte evitável de Kathlen de Oliveira Romeu, de apenas 25 anos de idade. Resolvi transformar minha ira em palavras porque entendo que quando se trata de defender a luta contra o projeto velado de reduzir a presença física de corpos negros nesta sociedade, o tema transcende às lutas sociais da população negra. Trata-se de uma questão que precisa envolver todas as pessoas que não se movimentam nos espaços de ódio e de preconceitos. Em especial é necessário destacar o papel das pessoas brancas que se reivindicam de esquerda nesse engajamento. É, portanto, uma tarefa necessária para militantes que se comprometem com a luta por uma outra sociedade, fundada na solidariedade e na liberdade para a convivência entre indivíduos diferentes que, todavia, se irmanem pela prevalência dos interesses da coletividade. Uma sociedade em que gênero e cor não sejam, senão detalhes tanto quanto o formato do rosto ou a cor dos cabelos.

É dentro deste escopo e espírito que me atrevo a, nestas linhas, me manifestar. Uso, nesta escrita, especialmente minha prerrogativa de mulher e de militante. É na condição de quem se compromete em defesa de uma sociedade livre de preconceitos e sem a exploração da força de trabalho que leva à, cada vez mais perceptível, polarização entre riqueza e pobreza; entre privilégios e exclusão de dignidade, que eu preciso defender justiça por Kathlen.

O caso da Kethlen não pode ser entendido como um ato isolado ou como uma fatalidade. Não pode, porque a Kathlen poderia ter acordado hoje, como ontem, com o seu “bom dia nenem”, saudando com alegria a sua iniciada maternidade, não fosse o fato de ser pobre e preta. A bala que ceifou a vida de Kathlen e que devasta com a dor mais cruel, seus familiares não foi um ato do acaso, ainda que a bala não fosse para ela. As balas ditas perdidas que matam pobres e pretos todos os dias têm alvos e miras intencionais. Elas são frutos dos restos, bem vivos, de uma sociedade que não deseja se libertar do escravismo, essa condição doentia, legada desde o início do processo colonizador, ainda vigente em muitas práticas no Brasil. Justiça por Kathlen não é apenas justiça para uma jovem mulher. Uma quase menina, que para além de detentora de uma beleza rara, daquelas que o espelho converte em felicidade, porque eleva a autoestima, sonhava com um futuro que incluía o cuidado com outra vida, também eliminada em seu ventre. Justiça por Kathlen é parte da luta, cada vez mais necessária, em defesa das vidas negras. Kathlen importa porque as vidas negras seguirão sendo alvos deliberados, porque sem importância, desde os gabinetes de autoridades eleitas, muitas vezes também com os votos de outras famílias de kathlens, que provavelmente não tiveram o direito de aprender que a luta é o único caminho para superar as injustiças sociais e conquista de direitos. A luta por justiça é antes de tudo uma luta contra esta sociedade que produz bolsonaros aos milhões, por ser fundada sobre bases profundamente equivocadas. Bases que contam com as instituições constituídas, supostamente para levar adiante um projeto civilizatório, no qual as desigualdades sociais devem ser entendidas como naturais. E, ao se naturalizarem, impedem que a opressão de classe seja compreendida e responsabilizada pelas mortes diárias de tantas kathlens. A luta por justiça para Kathlen é a luta contra a sociedade de classes. Classes que no Brasil tem também cor e endereços sem CEP  (Código de Endereço Postal) como destino favorito para as operações policiais, somente justificáveis desde planos de governos identificados com os ideais ainda vivos da divisão social em casa grande e senzala. O envolvimento das instituições na matança de pessoas negras, que há alguns dias também encerrou a vida de quase trinta pessoas no Jacarezinho passa pela escola e se fortalece na igreja. A escola é culpada porque é projetada para, juntamente com a igreja, produzir nas famílias e nos indivíduos uma “verdade” comum sobre a sociedade. Consolida-se deste modo, a compreensão que nega as classes e a política como território das disputas de interesses e, portanto, da existência da luta de classes. É nesta sociedade em que as classes são apenas letras ou degraus – alta, média e baixa, que divide as pessoas desde seu poder (ou falta de ) aquisitivo, que se criam as instituições com poder de polícia, que ainda que disfarçadas de forças de segurança, são pensadas e treinadas para eliminar pretos.  Numa sociedade que foi ensinada a ver pessoas pretas, não como seres de direitos, mas como bandidos, que só podem ser gente se forem exploradas como força de trabalho barata, a morte através das balas dos fuzis portados por bravos policiais é, por antecipação, a eliminação de um mal, talvez maior.

Neste sentido, justiça por Kathlen é, antes de tudo, um símbolo e uma denúncia contra o extermínio da  população negra. Justiça por Kathlen é um chamamento ao engajamento nesta justa e necessária luta em defesa de direitos para pretos e pretas. Justiça por Kathlen é também uma forma de reagir enquanto classe trabalhadora ao modelo de economia neoliberal que torna mais sutil a divisão e a percepção das classes nesta sociedade. Kathlen era negra, favelada e trabalhadora. Sem desejar hierarquizar estas condições, mas olhando sociologicamente sua morte prematura, fica claro que ser favelada foi a condição primeira para que a bala a encontrasse. Morasse a Kathlen num bairro, que para a especulação imobiliária é mais importante, sua vida não teria sido interrompida ontem. Assim sendo, a luta em defesa das vidas negras é também a luta contra esta sociedade. E esta luta não pode menosprezar o lugar das instituições e, dentre estas, o papel da corporação chamada Polícia. Repensar as instituições armadas no Brasil é uma necessidade tão urgente quanto a proposição de políticas públicas de combate à fome. 

Onete Lopes – Doutora  em Educação e professora da Universidade Federal Fluminense.

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Este post tem um comentário

  1. Vânia Márcia da Costa Abreu

    Esse manifesto traduz os pensamentos e angústias dos que já não conseguem engolir tanta violência. O RJ se tornou a cidade da covardia e da perseguição aos negros e pobres, favelados e desabrigados. Aos que não têm nada que os favoreça.
    O Governador do RJ na pessoa de Cláudio Castro, esse substituto frio e manipulador do Wilson Witzel, se preocupou em articular os apoios políticos para a próxima eleição e o troca-troca nas Secretarias e só se manifestou sobre a morte dessa jovem linda e seu bebê, hoje às 18.30. Um dia depois. É monstruosa a organização criminosa que cresce no RJ, com o apoio do Presidente da República e seus filhos e dessas ordens religiosas que se aproveitam da fragilidade dessas pessoas e sabem a sangue frio o que fazem. Todos sabem!
    Parabéns por esse texto de contexto tão real e próprio de pessoa de coração, carater e envolvimento total com as causas sociais como você, que para meu total orgulho, orienta minha formação docente!
    Que a luta não seja em vão!

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