BBB e o PT: duas siglas que mobilizam brasis

Mal começamos 2021 e o placar de 7×1 continua sendo uma constante na vida do povo trabalhador do país. Não bastassem as agruras causadas pela peste do coronavírus, a necropolítica que move o governo Bolsonaro e sua base golpista continua a castigar milhões. Nesse cenário distópico brasileiro, duas siglas aparentemente sem conexão continuam a mobilizar diferentes brasis. São elas: BBB e PT.

A primeira, que ocupa seguidamente os topos das listas de assuntos mais destacados nas redes “sociais” atualmente e é velha conhecida da geração millenial, se refere a um espetáculo de realidade (tradução literal do inglês, mas que diz muito sobre meu ponto de vista do assunto), cujo episódio de estreia foi ao ar em 29 de janeiro de 2002. É também nesse ano, onde o Big Brother Brasil ocupava o centro do entretenimento gratuito do país, que a tempestade perfeita se formava para que setores da segunda sigla – PT (Partido dos Trabalhadores) – também ganhasse o coração de uma parte da burguesia.

Contudo, assim como aconteceu com a atração pós Jornal Nacional, a fórmula que fez casar patrões e empregados estava destinada a se deteriorar conforme as décadas avançavam. A vida do povo, que melhorou significativamente sob a sombra da sigla petista, deixava menos espaço para a centralidade dos paredões televisivos. Mas, após um golpe de Estado em 2016, da prisão ilegal de Lula, da vitória eleitoral bolsonarista, mergulharmos em uma profunda crise econômica, cultural e política, que fez com que o BBB ganhasse novamente mais espaço como sigla mobilizadora da sociedade.

Assim como nas primeiras edições, a suposta transparência do acompanhamento da “casa mais vigiada do Brasil” esconde a intenção ideológica atrás da atração. A emergência dos debates de identidade, a absorção das pautas de mulheres e raciais como commodities para o mercado, empurrou o programa a se reinventar. Diante da queda consistente de sua audiência e relevância, a lâmpada voltou a brilhar. Acompanhando as narrativas construídas pela mídia empresarial de antipetismo, anticomunismo e aproveitando a onda bolsonarista, não custou muito ao roteiro do BBB ser reescrito para os admiráveis tempos novos.

É evidente a vinculação do formato do programa com o texto de Orwell*, pois o efeito cultural de manipulação das ideias se insurge com potência. E um Brasil racista, machista e lgbtfóbico deseja ver os supostos representantes da militância de esquerda revelarem suas “verdadeiras identidades”. É mão e luva. É ensinar ludicamente que “os esquerdistas, cirandistas, vermelhinhos e coloridos” são arrogantes, contraditórios, hipócritas. E se são assim no BBB, devem ser assim todos “esses aí”.

E há, na minha humilde opinião, uma confusão completa quanto ao fenômeno de nossa parte. Como integrante do PT desde 2014, experimentei nas ruas o processo de manipulação do “gigante acordou”, que despertou em parcela dos setores progressistas aquela vontade antiga de chegar na era pós-petê e que foi abraçada de bom grado pela burguesia que rompia o acordo de conciliação. E hoje, em 2021, vejo profundas semelhanças entre os fenômenos.

O BBB está na esfera da disputa cultural, espaço esse que pouquíssimo disputamos com nossos governos. E é nesse terreno que ganhamos os tais corações e mentes que Gramsci** tanto alertava. E, perdemos. Um dos erros que voltamos a cometer é não entender que o programa faz parte de um processo de luta de classes, e que ele é voltado aos interesses dos que detêm os meios de produção. Em síntese, muitos setores progressistas despejam suas melhores energias no Twitter, repercutindo cada frase “polêmica” que um brother ou sister emitem. Acho que todas estamos cansadas, desalentadas, precisando de uns colírios para as dores do mundo, mas achar que o BBB é apenas isso é um engano dos mais ingênuos.

O segundo aspecto que me chama a atenção é da disputa de narrativas imposta pela Globo. A seleção dos participantes está umbilicalmente ligada à temperatura das ruas. É necessário acabar com a narrativa antirracista que estava ditando as ideias-forças no Brasil. Imaginem o medo dos senhores desse país com uma consciência negra socialista. É imperativo substituir essa potência por uma narrativa liberal – black money, pretos no topo (como se isso não pressupusesse permanecer com uma base).

E aqui, a multidão de especialistas em Twitter se mobiliza para apontar seus dedos canceladores e dar ainda mais munição aos já armados séquitos fascistas de Bolsonaro. Ao invés de disputarmos culturalmente com o BBB, muitos de nós nos embriagamos com o perfume da mansão do confinamento e depositamos nossas escolhas democráticas em um paredão da Globo. Para mim é triste perceber isso. E a cada novo pedido para comentar a atração percebo o quanto de trabalho precisa ser feito para revertemos “tudo isso que taí”– como diz o próprio cavernícola.

As explicações individuais, a exibição de personagens cuidadosamente escolhidos para “tombar” a militância nos empurram para polêmicas que ocupam o topo das listas e que nos separam de outros brasis. Daquele que assiste pessoas confinadas em segurança de suas casas sem água e sem separação entre cômodos, daquele outro Brasil que assiste da TV as festas sem fim, enquanto lamenta não ver seus parente por medo do vírus, de um outro recanto desse país-continente onde milhares morrem sem oxigênio nos leitos públicos.

Se a sigla do PT não tomar para si a disputa cultural e realmente eliminar no paredão da vida real esses atores que querem a miséria do povo, temo que continuaremos a assistir nos jornais da esquerda, nos parlamentares de esquerda, uma preocupação descomunal com um espetáculo de realidade cuja batuta é tocada por nossos inimigos de toda a história da humanidade. Ou rompemos com a mediocridade, ou nos reduzimos a ela. É necessário ir além do BBB se queremos dialogar com o povo, é necessário pegar marretas e arrancar pedras como fez padre Júlio Lancellotti, é necessário criar centros de organização socialistas, é necessário dar suporte aos trabalhadores de aplicativos, é necessário mobilizar a classe artística para fazer algo tão bom e genuíno quanto o que Faela Maya*** faz com sua câmera de celular. A “novela da pobreza brasileira” criada no interior do Ceará conta o dia a dia desses trabalhadores, suas necessidades e é bem melhor que BBB.

Precisamos que a abreviatura do maior partido não signifique uma diminuição de nossa capacidade de conversar com o povo sob um projeto de vida socialista, antirracista, antimachista e antilgbtfóbico sem ter uma corporação como atravessadora dessas pautas.

Rayane Andrade é professora, advogada e militante do PT.

 

*Refere-se ao livro “1984”, de George Orwell, lançado em 1949.

**Antonio Gramsci (1891-1937), filósofo marxista italiano.

***Mulher trans cearense, de 28 anos, produtora da web novela “Pobreza Brasil”.

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