Como botar o bloco na rua?

Valter Pomar

Definitivamente, o PT não é para principiantes. Em um partido mais “convencional” a direção nacional teria se reunido, tomaria uma decisão e a informaria publicamente numa coletiva comandada pela presidência. No PT é um pouco diferente: Lula se reúne com Haddad, Haddad dá uma entrevista ao 247, o Estadão e outros jornalões repercutem interpretando, certa confusão se estabelece dentro do Partido e principalmente entre os aliados.

Sendo assim as coisas, nos demos o direito de fazer nossa própria interpretação, por partes como faria o camarada Jackie.

Parte 1: Lula tinha o direito de ter sido candidato em 2018 e tem o direito de ser o candidato em 2022. Mas para que ele possa exercer este direito, primeiro o Supremo Tribunal Federal precisa lembrar que a Constituição existe. Entretanto, o STF é um órgão político e na ausência de grande pressão popular pode acabar prevalecendo mais um ornitorrinco: reconhecerão que Moro foi parcial, determinarão que as sentenças proferidas pelo Marreco sejam anuladas, mas Lula continuaria sem direitos políticos, devido a outra sentença, aquela copiada e colada. Desta forma o STF daria o troco em Moro, mas sem interferir no resultado das eleições de 2022, medida assaz “sábia” uma vez que todos sabemos que interferir contra o PT pode, mas interferir a favor pode causar alguma celeuma. E como mesmo tal ornitorrinco não é garantido, há quem proponha que Lula deixe claro que se recuperar os seus direitos políticos, não pretende exercê-los e portanto não seria candidato em 2022. Na opinião dos que defendem isso, abrir mão de uma candidatura teria duas vantagens: aumentaria as chances de vitória no STF e reduziria a zero a possibilidade de uma derrota em 2022. Afinal, Lula candidato não é Lula eleito. E Lula derrotado seria um desfecho obviamente muito duro. Além disso, os defensores de que Lula pendure as chuteiras lembram que nem Rafael Correa, nem Evo Morales, nem Cristina Kirchner disputaram a presidência de seus países, depois que foram alvo da “operação golpismo”. Porque, perguntam os adeptos da direção defensiva, Lula deveria fazer diferente dos hermanos?

Parte 2: se Lula não for candidato (por vontade própria ou devido a ilegalidade continuada cometida pelo sistema judiciário), as chances do PT vencer em 2022 se reduzem muito, podendo ocorrer não apenas uma derrota eleitoral, mas também uma derrota política. Há quem especule que, pela primeira vez na história desde 1989, o PT poderia ficar em terceiro lugar numa disputa presidencial. Especulações interessadíssimas à parte, se Lula não for candidato as chances de o PT realizar alguma política de alianças ficam menores do que já são. Sem Lula candidato, há quem diga que até mesmo nossos mais tradicionais aliados poderiam – por diferentes razões – buscar um caminho longe do PT. E o que já é complicado no plano nacional, mais complicado fica no plano estadual, com o risco de as dinâmicas regionais prevalecerem e levarem ao impensável: uma candidatura presidencial petista ser “cristianizada” por governadores, senadores e deputados do próprio PT. Repito, tudo isto é especulação, muitas vezes especulação interessada, mas faz parte do debate. Para completar, a alternativa adotada em 2018 – manter Lula como candidato até que a justiça não se faça – parece hoje irrepetível. Diante disto, que fazer?

Parte 3: construir uma frente ampla, dizem uns. Construir uma frente de esquerda, dizem outros. Debater programa, dizem uns e outros. Tudo muito politicamente correto, mas ali na frente o dilema estaria reposto: quem será o candidato que o PT proporá a esta (suposta) frente? Se não for Lula, quem seria? Tirante o anteriormente citado, os dois nomes com maior “capital eleitoral” são os de Dilma Rousseff e Fernando Haddad. Sabendo que “capital que não circula diminui”, existiu quem defendesse que Haddad deveria ter “colocado o bloco na rua” desde o dia seguinte ao segundo turno de 2018. Assim como houve quem defendesse que ele fosse candidato a prefeito de São Paulo, o que aliás poderia ter alterado muito o resultado das eleições de 2020 e ampliado suas/nossas chances num eventual 2022. Mas prevaleceu outro entendimento, como todos sabemos.

Parte 4: se tudo isto for assim, caberia perguntar por qual motivo não fazer as coisas como manda o figurino? Tipo reunir a direção do partido, deliberar, informar oficialmente aos aliados, depois contar a boa nova ao mundo? Talvez o procedimento heterodoxo se deva ao seguinte: no fundo os envolvidos não estão totalmente seguros do acerto da tática que estão implementando. Vai que o STF nos surpreende, vai que a pré-candidatura não decola… por estes e outros motivos, melhor manter tudo em termos mais informais. Restando no fundo, no fundo, um único problema: se com Lula a vitória não é certa, com Haddad tampouco. Com algumas diferenças importantes. A primeira é fácil de explicar: Lula não seria cristianizado, mas Haddad poderia ser. A segunda é um pouco mais difícil de explicar, embora o povo tenha vindo em nosso socorro: para enfrentar a conjuntura, precisamos que Haddad invoque seu lado Andrade, ou seja: que radicalize muito, mas muito mesmo. Saberá fazê-lo? Conseguirá fazê-lo?

Parte 5: chegamos então ao que nos parece ser a famosa pedra de toque da questão. Para alguns, a derrota do golpismo, do ultraliberalismo e do bolsonarismo é um assunto essencialmente eleitoral. Para outros, inclusive este que vos escreve, derrotar o mal que nos aflige é um assunto que transcende o mundo das eleições. Se não houver uma alteração completa da linha política e do modo de funcionamento da esquerda em geral e do PT em particular, em 2022 teremos saudades de 2020. Neste espírito, é muito positivo que Haddad “coloque o bloco na rua”, mesmo que tarde. E melhor ainda será que Lula recupere seus direitos políticos e possa concorrer em 2022. Mas como dizia o poeta: mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria uma solução. Neste sentido, tão importante quanto decidir colocar o bloco na rua é decidir como fazer isso. Apesar do método atravessado e mesmo sabendo das reviravoltas que ainda podem ocorrer dentro e fora do Partido, é e será de grande ajuda colocar o bloco na rua, desde que seja para defender a vacinação, o emprego, o auxílio emergencial, o impeachment, a restituição dos direitos de Lula e debater nosso programa de reconstrução e transformação. Pois para vencer nas urnas, antes precisamos vencer nas ruas.

Valter Pomar é membro do diretório nacional do PT.

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Este post tem um comentário

  1. Com todo o respeito q vc merece, me pergunto qdo estará de acordo com algo q aconteça no PT, mesmo que ” heterodoxamente”. Com ou sem consulta ao partido, sabemos que, no momento, não existe no PT, quadro com mais capital político do que o de Haddad. E “botar o bloco na rua”, não quer dizer q Haddad será o candidato do Partido, mas sim, q ele comece a colocar a questão eleitoral e política , na rua e nas redes. E interpretações e ilações são livres. Cada um q faça a sua enquanto a nossa Caravana passa e avança. REGINA ALMEIDA

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