Eleição das Mesas passou, e agora?

Natalia Sena

Entre os dias 1 e 3 de fevereiro aconteceram as eleições para as Mesas da Câmara e do Senado. Na Câmara, Artur Lira (PP) foi eleito presidente, com 302 votos e o apoio de Bolsonaro; oficialmente a bancada do PT apoiou Baleia Rossi (MDB), que teve 145 votos. No Senado, também com o apoio do Planalto, Rodrigo Pacheco (DEM) foi eleito presidente com 57 votos, entre os quais os seis votos da bancada petista. O Partido dos Trabalhadores vai ocupar a 3ª secretaria no Senado (Rogério Carvalho/SE) e a 2ª secretaria na Câmara (Marília Arraes/PE).
A tática adotada pelas bancadas petistas foi alvo de muitos questionamentos, por parte da militância e por setores da direção e da bancada. Na Câmara, decidiu-se pela composição de um bloco articulado por Rodrigo Maia e do qual fez parte PSDB, MDB e vários outros golpistas, além do apoio ao candidato a presidente Baleia Rossi. Os argumentos que justificaram a adoção dessa tática foram basicamente dois. O primeiro é que seria uma tática “anti-Bolsonaro”, pois através dela derrotaríamos o candidato do presidente da República. O segundo, que compor o bloco era fundamental para ocuparmos “os espaços” que são legítimos de serem ocupados na Mesa, pela maior bancada da Câmara. A vida foi implacável: nem derrotamos o candidato de Bolsonaro, nem ocupamos o espaço que se almejava (1ª secretaria) na Mesa. E a cereja do bolo foi a tática do PT no Senado, definida após a da Câmara e que comprovou que não tinha nada de “anti-Bolsonaro nessa coisa toda. A bancada do PT no Senado decidiu que o apoiaria justamente o candidato de Bolsonaro para presidente, e lá ficamos com a 3ª secretaria da Mesa.
Foi nesse ambiente que o PT foi submetido a situação de ter o seu nome na 2ª secretaria da Mesa escolhido pela maioria de direita da Câmara. Divergências internas e a decisão da deputada Marília Arraes de ser candidata em qualquer circunstância, mesmo com o Partido escolhendo outro nome, escancararam o que sobrou para o PT na definição de uma tática que estava errada desde a sua origem. Penso que uma divergência política de fundo, de princípio, poderia justificar politicamente uma prática divergente e a inscrição de uma candidatura avulsa. Por exemplo, uma candidatura avulsa para presidente da Câmara. Mas o que aconteceu foi outra coisa. A partir do momento que toda a tática do Partido girou em torno da ocupação dos tão valorizados “espaços” (cargo na Mesa, presidências de comissões, relatorias de projetos), abriu-se um verdadeiro “vale tudo”, que dá margem para a situação absurda de a candidatura oficial do PT, deputado João Daniel, de Sergipe, ser derrotada em plenário para outra candidatura do PT, da deputada pernambucana Marília Arraes. Um desastre.
E o que sobrou para o povo, para a classe trabalhadora, de todo esse processo? A primeira votação nessa nova gestão da Câmara dos Deputados é sobre a autonomia do Banco Central, em curso na sessão de 09 de fevereiro. O resultado da votação ainda não saiu, logo saberemos, mas é possível imaginar qual será. E o governo federal já indicou suas prioridades para 2021: reforma administrativa, privatizações, a própria autonomia do BC, já em pauta, e diversas outras questões da pauta econômica ultraliberal. A mesma que Rodrigo Maia e Baleia Rossi sempre fizeram questão de dizer que tinham total acordo, que estavam totalmente alinhados com o governo Bolsonaro.
Espero que um balanço interno seja feito, pela direção e pela bancada, sobre todos os aspectos dessa situação. Mas o fundamental é fazer o balanço acerca do caminho que nos levou a este resultado desastroso, quando poderíamos ter acumulado forças no debate público e fortalecido a oposição ao governo Bolsonaro com uma candidatura de esquerda e petista, tanto na Câmara quanto no Senado. A ficha precisa cair, antes que seja tarde demais: os golpistas de ontem não são nossos aliados contra Bolsonaro. Ou derrotamos todos eles, ou uma alternativa popular para o comando do Brasil estará cada dia mais distante.

Natália Sena é advogada e integra a executiva nacional do PT

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