Que pedra você vai arrancar hoje?

Rita Camacho

“Foto marqueteira”. “Jesus na Terra”. Esses foram alguns dos milhares de comentários nas redes sociais à iniciativa do padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo, de posar para uma foto de marreta na mão. A imagem, que rapidamente “viralizou”, registra o momento em que o religioso arranca pedras que foram cimentadas pela prefeitura tucana sob um viaduto da Radial Leste, obviamente para evitar que esse espaço seja abrigo da população em situação de rua.

Bruno Covas, que curte ser VIP em estádio durante licença médica e que faz alarde porque se mudou com toda a comodidade para a sede da prefeitura durante a pandemia, tirou o chão de quem já não tem teto. O prefeito e a elite empertigada de São Paulo querem banir seres humanos das calçadas, dos viadutos, e de qualquer parte onde estejam visíveis. Querem a cidade livre de “mendigos, pedintes, gente fedida e maltrapilha”. Querem desfilar suas posses sem interferências estéticas que deponham contra sua imagem. Querem fazer selfies dignas de uma celebridade.

Julio Lancellotti é o “chato” que não só grita que a população de rua existe, e cresce assustadoramente durante a pandemia, mas que tenta manter uma rotina de atendimento digno e respeitoso (pedindo aqui e ali sabonete, pasta de dente, alimentos). Sim, ele mesmo responde ao zap quando a pergunta é “o que está faltando este mês, padre?”. E o faz objetivamente. Não tem tempo a perder. Tenta organizar uma sistemática de atendimento que dê conta de seu público, porque as pessoas comem todo dia e não só no Natal. Aos 72 anos, o religioso luta contra políticas higienistas, enquanto muita gente dorme na “paz de Cristo” depois de dar uma esmola eventual ou os produtos vencidos na despensa.

Esse padre, que rema contra a maré do egoísmo capitalista, merece mais do que a nossa solidariedade. Seja você cristão, ateu, agnóstico, místico, tenha ou não uma marreta disponível, entre em ação. Padre Julio, a cada dia, dá exemplo de atitudes que a esquerda, a começar pelo PT, deve adotar como prática e não só como discurso.

Com contas nas redes sociais, presença em lives, programas de rádio, TV e todo canto onde lhe concedam espaço, padre Julio repete incansavelmente uma ladainha, na qual fala de sua experiência de décadas com o povo da rua e convida a quem o ouve a adotar gestos simples, como perguntar o nome de quem está sentado na calçada, ou levar água fresca nos dias quentes.

Por causa de sua persistência nas causas do sem voz, já foi ameaçado de morte muitas vezes. Não desiste. E dá suas mensagens simbólicas também. Outro dia, quando rezava missa na Paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca, usava um adereço eclesial que trazia a imagem de Monsenhor Romero, bispo de El Salvador executado pelo esquadrão da morte em 1980. Agora santo, Romero enfrentava os ditadores e as Forças Armadas, em alto e bom som em suas homilias ou em seus programas de rádio. Foi baleado no altar.

Após o protesto midiático de padre Julio com marreta na mão, Covas alegou que um servidor municipal cimentou pedras à revelia do comando do Paço. O prefeito exonerou o funcionário e mandou remover as pedras. Dias depois, militantes de diversos coletivos, movimentos sociais, partidos políticos levaram flores sob o mesmo viaduto. Foram recebidos com pães produzidos pela Casa de Oração Povo da Rua. Afinal, cada um dá o que tem!

Rita Camacho é jornalista

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