Retornar ou não, eis a questão!

Ana Flávia

Existe uma grande polêmica, hoje, sobre a retomada ou não das aulas no formato presencial. Abordarei aqui especialmente essa discussão nas instituições públicas de ensino por um motivo simples: as instituições privadas, em sua ampla maioria, já retornaram as atividades presenciais. A resistência que encontramos hoje sobre esse tema paira especialmente no setor público a partir do argumento de que o que estamos observando é um aumento de casos e de mortes decorrentes da pandemia da COVID-19. Assim, a linha de raciocínio seguinte é a de que as nossas instituições de ensino seriam ambientes propícios para a proliferação do vírus, colocando toda a comunidade escolar em risco, o que é bem verdade. Assim como é bem verdade que transporte público lotado, com frota reduzida, também é ambiente propício de contaminação. De tal modo o é uma fábrica de tempero na cidade de Mossoró, que vem funcionando normalmente e empregando centenas de trabalhadores. Ou, ainda, um shopping center lotado. Ou, até mesmo, os comícios que fizemos em outubro para deixar a memória mais fresca.

Nessa celeuma, é certo que a imensa maioria dos trabalhadores brasileiros não está em isolamento social. É certo que essa maioria, desde o início da pandemia, precisou continuar trabalhando para garantir a sua sobrevivência, ainda mais com o aprofundamento da miséria, com a piora das nossas condições de vida, com o fim do auxílio emergencial e com um cenário em que, pela primeira vez na história, o Brasil registrou mais de 50% de desempregados, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE. Enquanto isso, já passamos mais de 230.000 mortes no país. À classe trabalhadora coube, desde sempre, a decisão: ou morrer do vírus ou morrer de fome.

Abre parêntese. Os estudantes provenientes das escolas e universidades públicas são, em sua massa esmagadora, estudantes trabalhadores, isto é, fazem parte da maioria da população brasileira que não está em isolamento social porque precisa sobreviver. São estudantes que estão fazendo bico – sim, isso inclui crianças e jovens menores de 18 anos -, estão sendo contratados por programas como o jovem aprendiz, estágios ou sendo explorados pelas plataformas de aplicativos uberizadas. Essa é a realidade da maior parte da comunidade escolar e universitária. Fecha parêntese.

Por óbvio, esse cenário posto é obra de um sistema de produção capitalista que necessita da exploração do trabalho – especialmente nos países de capitalismo periférico como o nosso – para garantir a reprodução infinda do capital. Isto é, para garantir o que a velha musiquinha de Gaspar e Rangel nos ensinava: “o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre. E o motivo todo mundo já conhece: é que o de cima sobe e o de baixo desce”. Por óbvio, igualmente, o governo genocida de Jair Bolsonaro, representante fiel das elites nacionais e internacionais, vem cumprindo um papel fundamental nesse caos social: desdenhou da pandemia, incentivando desde o início o desrespeito às políticas sanitárias; não garantiu políticas sistemáticas de emprego e renda à classe trabalhadora, pelo contrário, determinou a redução de salários; cortou investimentos nas áreas sociais; não prorrogou o finado auxílio emergencial; fez campanha contra a vacina; e segue se aproveitando da pandemia para desmontar a educação pública.

O ensino remoto tem se mostrado um completo desastre, sejam nas escolas secundárias ou nas universidades. Isso decorre de diversos fatores, dentre eles: a) a ausência ou limitação das políticas de assistência estudantil que garantam a inclusão digital por meio da oferta das tecnologias da informação e da comunicação e de planos de internet; b) a ausência de espaços apropriados para estudo nas casas dos estudantes; c) o pouco letramento, inclusive digital, por parte dos responsáveis pelas crianças e adolescentes para acompanhamento e auxílio nas atividades; d) a grande sobrecarga de atividades por parte dos discentes; e) as más condições de trabalho dos profissionais da educação; f) a ausência de um planejamento adequado para a retomada dessas atividades, que levasse em conta um diagnóstico da realidade dos estudantes, do seu núcleo familiar e dos docentes – com exceção de algumas universidades públicas; g) a atuação aquém do esperado das entidades de representação das categorias sobre o ensino improvisado pelo MEC; h) a ausência de acompanhamento psicopedagógico aos estudantes; i) os problemas de ansiedade e depressão que se aprofundaram consideravelmente com o distanciamento da comunidade escolar; j) e a necessidade de crianças, jovens e adultos terem que largar as atividades de ensino para trabalhar fazendo bico e sendo mão de obra barata.

O que observamos é que a classe trabalhadora está ficando para trás nos estudos, perdendo inclusive o vínculo com as instituições de ensino devido às condições materiais, que a impediram de acompanhar o ensino remoto, enquanto os filhos da elite retomaram suas atividades, seja de forma remota, inicialmente, com todas as condições necessárias à nova modalidade; seja de forma presencial com todos os protocolos de biossegurança que esse setor tem direito. O movimento que estamos assistindo e que será aprofundado com mais ferocidade no próximo período, se não agirmos, é o de diminuição brutal da presença dos estudantes das escolas públicas, da juventude trabalhadora, nas universidades públicas. É um retrocesso brutal frente aos avanços que tivemos nos nossos governos petistas.

Para que tenhamos noção da ponta do iceberg, observemos que o índice de ausência na realização das provas do ENEM dobrou, chegando a atingir mais de 50% neste ano – a maior abstenção da história do exame. A aposta que faço, afinal de contas carecemos de números concretos sobre isso, é a de que não é apenas um fenômeno decorrente do receio de contaminação por parte dos participantes, mas substancialmente pela concorrência com os estudantes das escolas particulares, que tiveram aprofundadas suas condições privilegiadas de estudo e de preparação em decorrência da política bolsonarista para a educação nesse período.

Portanto, se, segundo os últimos dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad), apenas 18% dos jovens na faixa etária de 18 a 24 estavam nas universidades 23% dos jovens entre 15 a 29 nem estudam nem trabalham, a previsão para esse período é de que esses índices caia e suba, respectivamente. Isso vem apontando para um índice de expulsão literal da classe trabalhadora dessas instituições, que – não tenhamos dúvidas – as digitais serão desse governo genocida.

Diante de todo esse cenário de certezas, quais sejam a expulsão dos estudantes das escolas e universidades e de desmonte das políticas que tínhamos conquistado, nos resta fazer um debate franco: vale à pena insistir em não retomar as aulas? Vale à pena retardar esse debate que deveria ter sido iniciado pelas entidades de representação da classe desde o ano passado? Falo isso porque precisamos estar um passo à frente dos nossos inimigos. A discussão sobre a retomada das atividades seria inevitável. Se nós tivéssemos nos antecipado, construído espaços amplos de discussões, apresentado uma pauta concreta pela necessidade de testagem em toda a comunidade acadêmica, exigindo um plano de biossegurança, reivindicando readequação do espaço físico ao passo em que travássemos a luta contra o governo Bolsonaro e as suas políticas educacionais, certamente teríamos acumulado muito mais força e conseguiríamos debater com as necessidades reais da comunidade, isto é, de garantir a conclusão do ensino fundamental, médio e superior com permanência e qualidade.

O que está posto é que frente à escolha de morrer pelo vírus ou morrer de fome, que cruzemos os braços e façamos luta para derrubar esse governo. Sem dúvidas, construir essa luta perpassa por pautar as questões anteriormente postas somadas à campanha pela vacinação. É preciso fortalecer os laços com a classe trabalhadora, não agindo como se fosse à parte dela, mas aproveitando esse debate e processo sobre a retomada para fazer luta, encontrar as pessoas e organizá-las.

Ana Flávia é Coordenadora Geral do DCE Romana Barros e militante do PT.

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