Volta às aulas no Brasil

Gabriela Affonso Frison

Com a chegada da vacina tem sido cada vez mais considerado, mesmo pelos campos da esquerda, o retorno presencial às aulas no Brasil. Esta é uma pauta que levanta muitas dúvidas, pois de fato há vários pontos a serem analisados e discutidos para que se chegue a uma conclusão. Em função da falta de acesso à internet e computador, além da instabilidade dos lares brasileiros, a maioria dos jovens está se afastando do meio escolar. Largando os estudos pelo trabalho e fechando as portas do seu futuro na faculdade. Podemos pensar que por estas dificuldades o ensino presencial ou semipresencial facilitaria na reconexão com a educação. No entanto, o modelo mais popular de retorno às aulas presenciais, adotado principalmente pelas particulares, resulta numa sobrecarga desumana dos professores que precisam se dividir entre a didática presencial e digital. Colocando o professor na posição de atender metade da turma presencialmente e a outra metade a distância, será necessário que se planeje aulas, trabalhos e atividades diferentes para cada ocasião, na tentativa de envolver os dois grupos de alunos no aprendizado. Como defensores da classe trabalhadora não podemos fechar os olhos para essa jornada dupla de uma categoria que já é desvalorizada e atacada diariamente. Nessas condições, nossa esperança de que um retorno presencial religue os alunos à escola pode sair pela culatra. Não se pode esperar que o jovem consiga acompanhar uma aula transmitida de quatro a cinco horas seguidas, seja pela densidade ou pelas dificuldades de conexão. Isso pode resultar num ensino ainda mais fragmentado, pois o formato da transmissão da aula presencial limita as possibilidades de didática EAD.

O que poderia ser feito para solucionar os dois problemas anteriores é um maior investimento na educação, contratar mais professores e dividir quais ministram a aula a distância e quais a presencial, aproveitando a oportunidade para especializar os mesmo na didática EAD. Também repensar formatos de retorno presencial, com menos encontros e menos tempo de aula, poderia ser efetivo. Sabemos que o governo fascista de Jair Bolsonaro não tem interesse em investir e garantir a educação pública, muito menos gerar empregos, então seria quase impossível conquistar este ideal. Da mesma forma, mais investimento poderia fornecer inclusão digital efetiva e qualidade de ensino à distância, portanto prefiro que cobremos verba para que o EAD seja acessível, pois tem questões de saúde pública do retorno presencial que não podem ser evitadas. Acredito que o grande problema da volta às aulas, antes da vacinação de todos os grupos de risco, é a impossibilidade de se garantir o distanciamento social e a segurança da comunidade estudantil, e por conseguinte da sociedade brasileira. A grande maioria dos estudantes utiliza o transporte público e muitos moram em uma cidade e estudam em outra, essa movimentação presencial, ainda que com a turma reduzida, traz grande risco de contaminação mesmo com o uso de máscaras. Isso pode nos levar a uma nova onda de coronavírus e ao colapso do sistema de saúde. Por esses motivos, é importante salientar que não basta apenas incluir os professores nos grupos prioritários da vacina para o retorno às aulas, mas sim a garantia da vacinação em massa da população de risco. Acho este caminho mais possível uma vez que tem mais pressão social para que o governo invista na vacina do que na educação. Além de que é a única forma de a volta às aulas ser completamente segura e não prejudicial nem aos estudante nem aos professores.

Gabriela Affonso Frison é Diretora da UBES de Assistência Estudantil e presidenta do Grêmio Estudantil L.U.T.A.R do IFSul de Sapucaia do Sul.

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