Retornar às bases

Ao completar 41 anos, o Partido dos Trabalhadores está confrontado por desafios que podem determinar seu futuro, não só como representação da classe trabalhadora, mas como organização política capaz de disputar o destino histórico do Brasil.

Nesse sentido, as eleições municipais de 2020 foram um indicador de alerta. O PT perdeu espaço em municípios em que teve forte representação no passado, a exemplo de São Paulo, Porto Alegre e Belém. Outros indicadores são as disputas que lhe foram impostas pelo Mensalão e pela Lava Jato. Em ambas, o PT foi incapaz de fazer um acerto de contas com dirigentes envolvidos em casos nebulosos e, por outro, desmascarar o caráter de tais operações. No caso da Lava Jato, principalmente, como estratégia de impedir Lula de concorrer às eleições presidenciais.

Em relação ao futuro do PT, mais preocupante talvez seja sua incapacidade de enfrentar, como estratégicos, tanto os problemas acima, quanto as mudanças atuais na sociedade brasileira, a exemplo da desindustrialização, do desemprego, e da redução dos trabalhadores fabris.

O PT também não tem considerado que o 1%, que domina as riquezas do país, modificou suas estratégias de combate, desde 2013, quando mobilizou parcelas importantes das classes médias. E que, para piorar, como resposta, o governo dirigido pelo PT impôs uma política econômica neoliberal, que isolou tanto o governo quanto o próprio partido, politicamente, das forças populares e intermediárias.

Para piorar, nada disso foi examinado criticamente, nem levou a mudanças corretivas, estratégicas, táticas e organizacionais. O PT foi incapaz de mudar a estratégia que tinha como centro o acúmulo de forças eleitorais e institucionais, associado ao abandono do trabalho diuturno de participação e organização, conscientização e mobilização das camadas da base da sociedade.

Embora parte da militância continuasse nas lutas cotidianas, a estratégia e as táticas políticas do PT deixaram de orientar de fortalecimento de tais lutas como orientadoras da política institucional, criando um fosso entre essa suposta “grande política” e a ignorada luta de base, fazendo com que fosse quase nula a mobilização contra os golpes da condenação de Lula e do impedimento de Dilma. 

Algo idêntico ocorreu na disputa que levou Bolsonaro ao governo. Sem base social mobilizada, e sem clara definição das forças que apoiavam o Bozo, o PT realizou uma campanha pouco esclarecedora e pouco mobilizadora. Ao invés de tomar as camadas populares como forças básicas a serem conquistadas, centrou seu discurso político na possível conquista da burguesia e da classe média com promessas conciliadoras. Essa linha tem permanecido, sempre na expectativa de que o “centro” se deslocará para a esquerda.

É lógico que parte do “centro” político atual é composto por forças que se consideram “traídas” por Bolsonaro, embora sua história reacionária fosse conhecida, e ele não a tenha escondido. Por outro lado, a história do “centro” político demonstra que seu objetivo básico consiste em locupletar-se, sendo incapaz de se deslocar para a esquerda, mesmo light.

Nessas condições, a questão chave continua consistindo, em mobilizar as grandes camadas populares numa dimensão que leve o centro político a ficar indeciso ou neutro, e a direita a ser imobilizada. Tudo de modo que os crimes civilizacionais dessa direita sofram condenações apropriadas, incluindo derrotas eleitorais amplas e irrevogáveis. Afinal, na história dos povos, as grandes mudanças resultaram sempre da crescente participação da base da sociedade nos movimentos contrários à situação vigente.

O próprio PT é exemplo disso. Nasceu quando a classe trabalhadora, concentrada no ABC paulista, acordou para liquidar o arrocho salarial imposto pela ditadura, intensificou sua organização e mobilização no chão das fábricas, rompeu as proibições ditatoriais ao direito de greve, e se jogou na luta política, engrossando a mobilização de outros setores da sociedade.

Na atualidade, com a desindustrialização, talvez tenhamos uma classe trabalhadora menor. Mas, certamente, temos uma massa humana desempregada e desvalida muito maior, com queda da renda, assolada pela miséria, pelo aumento dos preços, pela moradia precária, sob uma pandemia assassina e um governo que, num país em que a Justiça funcionasse com rigor, seria condenado por crime de lesa-pátria.

Diante desse quadro, o petismo deveria mergulhar em sua própria história, para recuperar o que o levou a construir o PT como representante e como orientador da organização e das lutas da classe trabalhadora. E, também, mergulhar na história dos partidos que, num passado não muito distante, procuraram representar essa classe e, por desvios políticos de diferentes tipos, tornaram-se insignificantes ou, simplesmente, desapareceram.

Tal mergulho poderia ajudar a retomar o trabalho de base junto às camadas populares, reorientando os núcleos partidários de base, assim como a mobilização das organizações sindicais e populares. Trabalho essencial para a discussão e mobilização social, não só em defesa da soberania, das liberdades, dos direitos e do desenvolvimento econômico, social e nacional, mas também pelas mudanças estruturais para construir um Brasil socialista e democrático.

Wladimir Pomar é jornalista e escritor

12/02/2021

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