Baile de máscaras

Rita Camacho


A condução genocida de Bolsonaro frente à pandemia do novo Coronavírus não nos deixou apenas sem Carnaval e sem pelo menos 25 mil postos temporários de trabalho. Conseguiu nos tirar mais um importante espaço de protesto contra sua política de supressão de direitos. A vacinação é lenta e esparsa (apenas cerca de 2% da população tomou a primeira dose) e, sem condições sanitárias para a festa mais popular do país se realizar, até o Olodum teve que optar por uma live. Pois é, nossa decadência como país está nos grandes temas, mas também nos detalhes.

Outro dado da Confederação Nacional do Comércio, Bens, Serviços e Turismo (CNC), revela que o Brasil deixará de injetar R$8,1 bilhões na economia devido à suspensão (ou adiamento) do Carnaval. Quem gosta, ou pelo menos acompanha as atividades nos meios de comunicação ou nas redes sociais, sabe que além de toda a dinheirama que envolve as transmissões de desfiles e camarotes Brasil afora, é inegável que a festa sempre foi palco de manifestações (espontâneas ou não) contra nossas mazelas.

Mesmo durante o regime militar e com agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) vigiando os passistas, algumas escolas ousaram nos enredos fazendo crítica político-social. Nos anos 80, quando transitávamos da ditadura ao período democrático, de um lado, o Carnaval se especializava em explorar o corpo feminino como sua maior atração (e contava com a ajuda estratégica da Embratur presidida por hoje governador de São Paulo, João Dória), por outro lado, a crítica política estaria cada vez mais presente nos desfiles.

Quem já entrou para os “enta” vai se lembrar do enredo Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia, da Beija Flor de Joãozinho Trinta, em 1989. O carnavalesco, famoso pelo luxo que imprimia a seus desfiles, levou para a avenida uma réplica do Cristo Redentor rodeado de mendigos, como crítica à crise econômica. A imagem (que também estaria vestida de mendigo) entrou coberta por uma lona negra e com a frase: “Mesmo proibido, olhai por nós”, fazendo referência à censura imposta pela Justiça a pedido da Igreja. A escola não ganhou o concurso, mas garantiu um dos desfiles mais polêmicos da história da Sapucaí.

A trajetória de Lula foi tema da Gaviões da Fiel, de São Paulo, em 2012. O ex-presidente estava em tratamento de câncer e foi representado por dona Marisa no desfile com o enredo “Verás que o filho fiel não foge à luta – Lula, o retrato de uma nação”.

De lá pra cá, o Brasil viu muito golpe e perseguição. Malhamos bonecos de Michel Temer no Sábado de Aleluia, em 2017, e amargamos a visão do inferno ao vermos o Judas passar a faixa presidencial a Bolsonaro, em 2019. Naquele ano e em 2020, Bolsonaro foi Bozo na Sapucaí, tema de deboche nos bloquinhos de rua de São Paulo e por todo canto o Fora Bolsonaro se misturava a suor e glíter.

Em 2020, a campanha Lula Livre também ganhava corpo nas ruas. Teve até marchinha, e os coletivos fizeram faixinhas para a cabeça de foliões e folionas. Lula saiu da prisão e somamos o Anula STF ao nosso refrão.

Todos sabemos que Lula foi solto, mas não está livre. E estava aí uma ótima oportunidade para gritar bem alto na arquibancada e nas ruas para que seus direitos políticos sejam restabelecidos.

Mas neste Carnaval, as aglomerações são risco de vida e a pandemia mata mais de mil brasileiros e brasileiras por dia. Resta-nos a criatividade para existir e resistir ao menos nas redes sociais. Afinal, precisamos contar ao mundo que o Baile de Máscaras está terminando. E, uma a uma, as máscaras estão ficando pelo salão.

Rita Camacho é jornalista.

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