A incompetência militar para governar

Precisamos debater e denunciar a incompetência militar para governar. No caso atual brasileiro, traduzida pela inflação, desemprego elevado, aumento da pobreza e da quantidade de gente “em situação de rua”, volta da fome, incêndios na Amazônia e Pantanal, e, principalmente, pelo total fracasso em enfrentar a pandemia – a segunda maior quantidade de vítimas fatais, sendo a sexta maior população. Graças à incompetência do governo federal, caminhamos rapidamente para 300 mil mortes por Covid-19 no primeiro semestre de 2021, das quais a maior parte poderia ter sido evitada, se tivesse havido outra postura desde o início. O general que figura como ministro da Saúde e ocupa o ministério com mais duas dezenas de oficiais da ativa e da reserva, conseguiu não saber com antecedência que faltaria oxigênio nos hospitais em Manaus, deixar vencer milhões de testes e não comprar vacinas quando surgiu a oportunidade.

Todas as dez maiores economias do mundo em 2020 (EUA, China, Japão, Alemanha, Reino Unido, Índia, França, Itália, Canadá e Coréia do Sul) têm governos civis. E o Brasil, que fazia parte das dez maiores economias até 2019, está desde esse ano sob o comando de militares no Executivo federal: além do presidente e do vice, mais de 11 mil oficiais da ativa e da reserva das Forças Armadas (1), ocupam cargos em todas as áreas – contingente maior do que o dos governos da ditadura militar (1964-1985).

Servidores públicos federais lotados nas Forças Armadas têm preparo específico para as suas atividades, constitucionalmente definidas. Não são preparados para atuar politicamente, muito menos para exercer funções executivas. Chama a atenção, no caso dos tenentes-coronéis, coronéis e generais do Exército (e patentes equivalentes da Marinha e Aeronáutica) que estão efetivamente comandando o governo federal no Brasil, o fato de serem das turmas da Academia Militar das Agulhas Negras, Escola Naval e Academia da Força Aérea dos anos 1970-80, época do auge das ditaduras militares no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia e Peru, analisadas pelo Pe. Joseph Comblin no livro “Ideologia da Segurança Nacional – o poder militar na América Latina”, publicado em 1978. Portanto, são oficiais das Forças Armadas da geração das ditaduras, da ideologia da Segurança Nacional, e do poder militar na América Latina que estão efetivamente no comando do Brasil desde 2019.

A incompetência em atividades militares é analisada no livro “Historia de la incompetencia militar” (Editorial A Crítica, Barcelona, 1989), no qual Geoffrey Regan trata dos muitos casos de perdas humanas e materiais resultantes da incompetência dos comandantes, que enviaram para a morte centenas de milhares de soldados. E os filmes “Paths of Glory” (1957), de Stanley Kubrick, e “A Vontade de um General” (1970), de Francesco Rosi, apresentam um caso típico do abuso do poder supremo concedido a oficiais pela lógica hierárquica militar. Mas a incompetência militar para governar ainda carece de mais estudos, porque o foco, no caso dos livros e filmes sobre as ditaduras, costuma ser muito mais em relação à covardia e à crueldade da repressão militar, do que dos governos que realizaram, no tocante à economia, meio ambiente, e a outros aspectos.

Nota: (1) Segundo o jornal digital Poder360, havia no governo federal, em julho de 2020, um total de 2.930 oficiais da ativa e 8.450 da reserva (https://www.poder360.com.br/brasil/8-450-militares-da-reserva-trabalham-em-ministerios-comandos-e-tribunais/).

Milton Pomar, 62, é professor, geógrafo, e mestre em “Estado, Governo e Políticas Públicas” pela Flacso/Brasil. Serviu Exército em 1978.

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Quem já teve a oportunidade de conhecer o restaurante dos oficiais do batalhão, sabe bem a “papa fina” consumida diariamente – inclusive em acampamentos nas manobras militares – pela elite dos servidores públicos federais lotados nas Forças Armadas. Era assim em 1978, quando servi Exército. Estávamos há 14 anos sob ditadura militar, o que talvez explique o comportamento “aristocrático” dos oficiais, comendo e bebendo do bom e do melhor, e com muitos soldados fazendo-as-vezes -de-garçons para lhes atender. Para nós, obrigados a tomar “kaol” no café e a almoçar e jantar a famosa comida do “rancho” do quartel, trabalhar no restaurante dos oficiais equivalia a uma “promoção”, benefício concedido somente aos “peixes” (protegidos) de tenentes das companhias. Naquele ano como agora, também houve denúncia de superfaturamento nas compras do rancho – só que nas internas, porque nada desse tipo de coisa saía na imprensa.

Em 2021 segue do mesmo jeito, de acordo com o foi divulgado pela imprensa há poucos dias, sobre a aquisição, pelas Forças Armadas, de muitas toneladas de picanha, filé e lombo de bacalhau, mais uísque e cervejas caras.

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