A república das milícias

Em 2018, quando a Constituição de 1988 comemorava 30 anos, quase 60 milhões de eleitores votaram em Jair Bolsonaro para presidente da República, um militar reformado que fez sua carreira no Congresso Nacional como um outsider que atacava a Carta Magna e a Democracia brasileira.

A Nova República, naquele ano, ao contrário do que a sociedade brasileira esperava, chegava a um impasse. Diante de graves crises políticas e econômicas, os eleitores optariam por um político que nunca escondeu seu objetivo de subverter a estrutura institucional vigente para transformar o Brasil num imenso Rio das Pedras – bairro carioca que a partir dos anos 2000 espalhou o modelo de governança das milícias para outros bairros do Rio de Janeiro.

Conforme a leitura miliciana do mundo, assumidamente compartilhada pelo novo presidente, o estado de direito e a Constituição atrapalhavam o trabalho das autoridades paramilitares, que se impunham pelo armamento pesado, pela ameaça do uso da força e pelo discurso de guerra ao crime.  A política, na verdade, era uma guerra em que os inimigos deveriam ser derrotados.

Como chegamos a esse ponto? Como esse discurso antissistema e a ideologia miliciana conseguiu seduzir milhões de brasileiros?  Por que o discurso do confronto e a crítica à democracia e ao Estado de direito continua seduzindo tanta gente, mesmo depois de dois anos desastrosos do atual mandatário?

O livro A República das Milícias – dos esquadrões da morte à era Bolsonaro (Todavia, 2020), de Bruno Paes Manso, busca mergulhar na história do crime no Rio de Janeiro para enfrentar essas e outras questões.

Tentar entender como surgiram as milícias e quais suas ligações com o presidente e com sua família. Conta a história de Fabrício Queiroz no 18º Batalhão da Polícia Militar, em Jacarepaguá, e de sua aproximação com o capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, que se tornaria um dos criminosos mais perigosos e violentos da história recente do Rio de Janeiro.

A ascensão do capitão Adriano no crime fluminense ocorreria com o apoio político dos Bolsonaros, que inclusive empregariam seus familiares no gabinete de Flavio, deputado estadual e filho mais velho. O livro também conta sobre os esquadrões da morte, da Scuderie Le Cocq, dos grupos de extermínio da Baixada Fluminense, suas ligações com o Jogo do Bicho e com Exército, com policiais durante a Ditadura Militar, para depois discorrer sobre o novo mercado de drogas no Rio.

A ideia de que a violência, em vez de um grave problema, pode ser vista como uma solução para a criação de uma nova ordem e para o fortalecimento de uma autoridade redentora esteve sempre presente na história recente brasileira, culminando com a eleição de Jair Bolsonaro e com seu projeto de milicianização nacional. A República das Milícias tenta mostrar os caminhos que o país trilhou, via eleição direta, para seguir rumo a um dos mais profundos retrocessos civilizacionais de sua história.   

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