A pandemia no Brasil e a Guerra das Malvinas

Devido à pandemia, não haverá manifestações de rua na Argentina no dia 24 de março, quando completará 45 anos o golpe militar que tirou da presidência Isabel Perón, e foi derrotado a partir do fracasso da aventura dos generais argentinos na Guerra das Malvinas (abril a junho de 1982), cujo desastre precipitou o final da sangrenta, covarde e cruel ditadura que impuseram ao país, da qual resultaram estimadas 30 mil mortes e incontáveis casos de tortura, prisão, exílio e outras tragédias humanas – como o sequestro e a adoção por militares, de bebês das mães torturadas e assassinadas em instalações militares, como a Escuela de Mecânica de La Armada (ESMA).

O general argentino Jorge Rafael Videla, presidente de 1976 a 1981, foi julgado e condenado à prisão perpétua, por crimes contra a humanidade, em novembro de 2010, e morreu na prisão em maio de 2013. Muitos outros oficiais superiores das três armas também foram condenados. Dia 18 de fevereiro de 2021 saiu mais uma condenação por crimes de lesa humanidade, dessa vez pela Internet, relativa ao “megaprocesso” da ESMA (816 vítimas).

Essa é a diferença fundamental entre as ditaduras militares da Argentina e do Brasil – lá, a maior parte dos torturadores e assassinos foram julgados, condenados e presos. Aqui, eles não só foram “anistiados”, como seus discípulos participaram ativamente do golpe (coincidentemente derrubando também uma presidenta eleita) de 2016, e elegeram presidente da República um ex-capitão insubordinado e mentiroso, que declarou, em entrevista no programa “Câmera Aberta”, da TV BAND – https://www.youtube.com/watch?v=ElBQbueU0tQ), em 1999, quando estava deputado federal, que o Brasil “Só vai mudar infelizmente quando partirmos para uma guerra civil, fazendo um trabalho que o regime militar não fez.” “Matando uns 30 mil, começando com FHC, não vamos deixar ele pra fora, não”. “Vão morrer alguns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra, morrem inocentes. Eu até fico feliz se morrer, mas desde que vão 30 mil junto comigo.”.

Os Estados Unidos, que participaram ativamente dos golpes e apoiaram as ditaduras militares nos dois países, em 2020 lideraram o negacionismo em relação à pandemia, desde o seu início, com resultados desastrosos: com 4% da população mundial, e apesar de ser o país mais rico do mundo, os EUA tiveram até hoje 28,8 milhões de contaminados (25% do total mundial de 115 milhões) e meio milhão de vítimas fatais (20% dos 2,5 milhões no mundo).

Em segundo lugar e sexta maior população, o Brasil (259 mil mortos), e em terceiro o México (188 mil mortos), países nos quais a subnotificação é elevada – é possível que no caso brasileiro o total real de mortos pela Covid-19 passe de 300 mil. Os presidentes dos três países se posicionaram contrários às orientações dos cientistas e profissionais da saúde, desde o início.

Agora, na iminência do caos no Brasil, com quase duas mil mortes diárias por Covid (números oficiais) em março, vem a lembrança da tragédia dos soldados argentinos nas Malvinas, causada pela incompetência dos seus comandantes da ditadura militar. O caso das Malvinas faz pensar quanto da tragédia atual brasileira é incompetência do atual governo militar, e quanto resulta da lógica anunciada em 1999 pelo atual presidente, da necessidade de uma “guerra civil”, da vontade de matar “uns 30 mil”, e da desimportância de morrerem “alguns inocentes”.

 Milton Pomar, 62, é professor, geógrafo e mestre em “Estado, Governo e Políticas Públicas” (Flacso/Brasil)

04/03/2021

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