Maioria do Senado Federal é cúmplice da necropolítica do governo Bolsonaro

No dia em que o Brasil deixou de figurar entre as dez maiores economias do mundo e registrou mais um lamentável recorde de mortes por Covid-19, o Senado Federal aprovou a chamada PEC Emergencial (PEC 186/19), com 62 votos favoráveis e apenas 16 votos contrários, e rejeitou o destaque apresentado pela Bancada do PT, que instituía um auxílio emergencial no valor de R$ 600 e ressalvava as despesas com saúde pública do teto de gastos e das demais regras fiscais em vigor, de modo a permitir o efetivo enfrentamento da pandemia, com fortalecimento do SUS e implementação de uma política de vacinação em massa da população. O destaque do PT obteve 24 votos favoráveis e 43 votos contrários.

Sob o pretexto de garantir a retomada do auxílio emergencial – um auxílio que terá valor, duração e alcance extremamente limitados –, o governo Bolsonaro aprovou um pacote de maldades que aprofunda a política de austeridade fiscal inaugurada pela EC 95/16 (teto de gastos), induzindo a privatização de ativos, penalizando servidores públicos e desvinculando receitas de fundos públicos estratégicos – como o Fundo Social do Pré-Sal – para drenar essas receitas para o serviço da dívida.

Nos Estados Unidos, o presidente Joe Biden anunciou um pacote de estímulo de US$ 1,9 trilhão, que contempla auxílio emergencial, aumento do salário mínimo, vacinação em massa, facilitação do crédito, dentre outras medidas consideradas emergenciais para minimizar os impactos econômicos e sociais da pandemia.

Na contramão do que ocorre mundo afora, o governo Bolsonaro aposta no caos, um caos planejado, que talvez seja uma etapa decisiva do seu projeto de poder, a partir do qual buscará justificar um golpe miliciano-militar, capaz de absolver o clã Bolsonaro dos seus crimes e de condenar a esquerda a um paredão bem distinto daquele promovido como entretenimento pela Rede Globo, ou simplesmente de manter as instituições ditas republicanas reféns da ameaça de fechamento do regime. Um caos tolerado com parcimônia pelas elites nativas e por suas ramificações internacionais, uma vez que preserva seu enriquecimento ininterrupto e resgata a privataria tucana.  

Quem não pode de forma alguma ficar refém do projeto de poder bolsonarista, das suas ameaças ao que resta de institucionalidade democrática nem das alternativas político-eleitorais que a direita tradicional e golpista tenta forjar como solução são as forças democrático-populares, pois o compasso de espera, citado no Manifesto alarmista do professor Conrado Hübner Mendes, além de naturalizar a tragédia, impede o acúmulo gradativo de força e mobilização que pode vir a desencadear a rebelião necessária.

A decisão coletiva de perder a paciência e organizar a indignação não é incompatível com o cuidado que deve ser adotado para que a militância não seja vitimada pela Covid-19 nem se torne vetor de propagação do coronavírus. As divergências no campo da esquerda sobre o caminho a ser trilhado até 2022 também não podem produzir efeito anestésico, inclusive porque a unidade na luta social pode contribuir decisivamente para abrir caminhos. Nas próprias redes sociais, nossa organização e mobilização está muito aquém do nosso potencial, como se a distopia – para usar um termo que está na moda – dos tempos que vivenciamos estivesse provocando uma espécie de paralisia.

Não podemos desprezar, logicamente, que parte significativa da nossa militância está sentindo na pele os efeitos do desemprego, da informalidade, da precariedade e da própria Covid-19. Perdemos lutadores, familiares e amigos para uma doença devastadora que recebeu autorização governamental para se disseminar livremente no território brasileiro. Mas nossa única alternativa para superar a barbárie é canalizar o sofrimento e o luto para um processo de mobilização e resistência. Pedro pedreiro penseiro talvez esteja apenas esperando que nós cansemos de esperar, talvez esteja apenas esperando o expresso da luta para embarcar.

Bruno Costa é Militante do PT/DF

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