Infância molestada

Nasci e vivi em La Paz, Bolívia, até os dez anos de idade. Aos finais de semana, eu e minha irmã participávamos de pequenas locuções de histórias clássicas infantis na rádio Amauta que nos presenteava com ingressos para o cinema. A poucos metros de casa ficavam os cinemas Ebro e Princesa. Não havia televisão na Bolívia naquela época, então a principal maneira de entrar em contato com o mundo era através do cinema e do rádio. Não sei ao certo se foi numa dessas ocasiões ou se realmente compramos os ingressos para assistirmos a um filme muito concorrido.

Ao entrarmos na sala, percebemos que não havia lugar na plateia. Dois distintos senhores nos chamaram para sentarmos no colo deles e assistirmos ao filme. Devia ter uns seis anos. Não entendi direito quando começaram a nos bolinar, possuía nenhuma informação sobre sexo. Só muito tempo depois entendi o que aconteceu naquela tarde no cine Princesa.  Mas aquela não foi a única vez que fui molestada.

Cochabamba era lugar de férias. Embora encravada em montanhas muito altas, a cidade fica mais de mil metros abaixo dos 3.762 metros de altitude de La Paz. Ali, os adultos sentiam um alívio frente à cotidiana carência de oxigênio na capital. Mas, para mim, a questão não era falta de ar: Cochabamba era férias e ponto final. Férias e tudo que vem junto nesse curto período em que a farra é longa e especial.

Tenho uma única foto em branco e preto do núcleo familiar, à beira da piscina. Essa foto me lembra algo daquela época. Minha memória nunca apagou a imponência da Eletrola de tipo JukeBox, no bar-café do hotel. Quando os adultos se recolhiam para a sesta, eu ia ao encontro da eletrola, essa máquina mágica capaz de manter-me em completo fascínio. Naquela tarde não foi diferente. Cheguei ao bar, peguei uma ficha. Antes que pudesse usá-la, o barman me chamou: “Niñita, dame tu mano” (menininha, me dê sua mão), ele disse. Com seis anos, tendo na época só uma irmã, não conhecia a anatomia do homem. Saí correndo, sem saber o que foi aquilo. Não era capaz de entender o que aquele homem pedira para eu segurar. Esqueci do episódio por alguns anos. Mas, quando vi o primeiro nu masculino, entendi o que havia passado.

Clara Ant, arquiteta, integra o Conselho do Instituto Lula, do qual foi diretora de 2011 a 2017.

08/08/2021

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on telegram
Telegram
Share on whatsapp
WhatsApp

Este post tem um comentário

  1. Julio Héctor Marín

    Minha solidariedade, a todas as mulheres que tem passado por essa experiência criminosa

Deixe um comentário