A detenção de André Constantini por pedir o fim da polícia militar

No início da tarde da última quinta-feira, (04/03) acompanhamos com apreensão a condução de André Constantini, liderança petista jovem e negra com militância nas favelas do Rio de Janeiro, por policiais militares que lhe deram voz de prisão, após André ter feito críticas aos militares, na Cinelândia.  

Exatamente seis anos antes (quem não se lembra?) também acompanhávamos com imensa preocupação, a condução coercitiva de Lula para prestar depoimento à polícia federal sem sequer ter sido antes intimado para depor.

Foi naquele 04 de março de 2016 que advogadas e advogados de esquerda e progressistas se mobilizaram e agruparam, começando a se organizar, assombrados com a violação imposta a Lula, e de lá para cá o que era assombro virou regra.

Regra de um estado de exceção no qual, até aqui, a polícia militar tem exercido o papel de braço de força assemelhado ao mesmo que reprimiu, torturou e matou durante a ditadura iniciada em 64.

E é contra esse braço de força do Estado que André Constantini se insurge consciente de que sua militância enfrenta e afronta a repressão da PM contra pretos e pobres, o desgoverno Bolsonaro e seus apoiadores repletos de ódio.

Trajando uma camiseta com os dizeres “Favela não se cala – o diabo veste farda”, durante a entrega de marmitas na Cinelândia pelo MST, Constantini protestava contra a PM, que tem prendido ambulantes e camelôs na região, quando foi interrompido, em pleno exercício de seu direito à manifestação, justamente por PMs, que o conduziram à delegacia.

Foram feitos vídeos do momento de sua prisão e, como observou uma companheira nossa, “André foi preso por um oficial; pelas três estrelas, ou é um capitão ou major”, e não um soldado, como chegou a se afirmar nas redes sociais.

Através do companheiro Rodrigo Mondego, advogado defensor de direitos humanos e um dos que foram à delegacia amparar juridicamente André Constantini, soubemos que a condução se dera por “desacato”, também conhecido por nós, que costumamos acompanhar esse tipo de ocorrência com militantes, como o famoso “kit polícia” que, quando não tem outra acusação para fazer, comumente tenta enquadrar em “desacato”, “desobediência” e até “dano ao patrimônio público”, acusando manifestantes de chutar e amassar a viatura.

Acontece que, os vídeos o provavam, André não atacara e nem desacatara nenhum policial. Quando os advogados populares que o socorreram mostraram um dos vídeos para o delegado, a autoridade entendeu que se tratava, na verdade, de “fato atípico”, mandando arquivar o caso.

André Constantini foi detido quando propôs discutir o fim da instituição “que caça preto e favelado todos os dias”. Arrancaram-lhe, nessa hora, o microfone das mãos, e o levaram, justamente ele, preto e favelado, sob a acusação de ter atacado e desacatado policiais.

André foi liberado, mas sua segurança nos preocupa, porque sabemos que esse enfrentamento é dos mais desiguais que se afiguram, assim como sabemos que nas comunidades periféricas a ditadura militar jamais terminou.

Ao contrário, a polícia militar é a cria que ficou como um dos saldos nefastos daqueles 21 anos, e hoje aparece como corpo autorizado e incentivado a reprimir com violência militantes de causas populares e sociais.

Assim como jamais esqueceremos o que aconteceu com Lula naquele 4 de março de 2016, é imperioso não esquecermos o que aconteceu com André Constantini neste 4 de março de 2021, nos somando aos companheiros das comunidades periféricas na busca de diálogos e participação na organização popular para o enfrentamento da questão antiga, que se acirra e recrudesce mais a cada dia.

Somemo-nos à luta travada por companheiros que travam a mesma luta de André Constantini. Não apenas para socorrê-los nas delegacias, mas para compreender a coragem dos que sempre tiveram a força da repressão como o único braço do Estado que os alcança.

Sabemos que não acabou.

Tem que acabar.

Tânia Mandarino, militante petista e advogada pela democracia

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on telegram
Telegram
Share on whatsapp
WhatsApp

Deixe um comentário