Povo do Nordeste não é fumega. Está aperreado para lutar

O consórcio deve ajudar a economizar recursos nas compras de materiais – Fernando Vivas/Governo da Bahia

A grandura e calentura do momento exigem que a gente tire o cabrunco do mondongo, que dirige o país como se fosse a casa de noca, mas não tem nada de leso, mesmo sendo abilolado. É preciso tirar o domínio dos goderos e botar os que trabalham no comando. Os governadores do Nordeste estão funcionando como guio, sem bolodório, nem emboança, para defender os interesses do povo[1].

O companheiro Jonas Paulo, coordenador do NAPP Nordeste[2] escreveu uma pequena nota com o título que expressa a posição de muitos nordestinos: “DE CANUDOS A PALMARES AO CONSORCIO NORDESTE. AQUI É RESISTÊNCIA É ALTERNATIVA!”

Não parece haver dúvidas de que os novos governos do Nordeste, das várias colorações partidárias, mas liderados pelos governadores e governadora do PT no Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Bahia “nasceram das derrotas das velhas oligarquias” e implementaram políticas desenvolvimentistas, inspiradas na política federal de Lula e Dilma com um “ Estado indutor dos investimentos públicos e parcerias privadas regulador da economia provedor de serviços a cidadania e inibidor das desigualdades sociais e regionais”.

Também há um certo consenso de que esses governos representam novas articulações de forças dominantes na região, aproveitando-se de alianças que se consolidaram com avanço das oposições aos dirigentes oligárquicos tradicionais nos estados nordestinos, com alianças no interior e nas capitais de forças amplas, muito além da esquerda. O apego ao poder de parte desses grupos derrotados moveu alguns deles para se aproximar dos novos dirigentes regionais vitoriosos.

Há limites nessa aliança dos progressistas com os desgarrados das classes dominantes locais, que aderiram aos governos com objetivos variados, indo desde as contradições provincianas da disputa paroquial, até o oportunismo de aproveitamento das obras e ações com interesses nada republicanos. Há também aqueles que efetivamente gostariam de algumas medidas modernizantes e redutoras de desigualdades históricas. O fato é que as alianças foram fundamentais para implementar as mudanças até agora e sua continuidade impõe novas políticas e rearranjos.

Ainda citando Jonas Paulo, com longas passagens pelo Diretório Nacional do PT:

A igreja, o associativismoo, o mutirão e o Sindicato tiraram a venda dos olhos do sertanejo e depois veio a cooperativa, a federação, a CUT e a política partidária.
A resistência gerou luta de oposição, ganhou corpo, elegeu vereadores, prefeitos e formou professores, advogados e se aliou as lutas das cidades e ajudou a promover a derrubada das oligarquias, que eram sustentáculo do poder com a aliança dos coronéis do sertão com as elites sulistas.  Era a manutenção dos currais eleitorais no Norte e Nordeste que garantiam o poder dos capitalistas sudestinos no País.

A bancada nordestina no Congresso muda e os governadores refletem as novas forças dominantes locais implementando políticas de inclusão e melhoria das condições de vida do povo nordestino que vive momentos de redução de desigualdades e pobreza absoluta, mesmo em períodos de “brabura da seca”, como se diz por aqui.

Não só os programas de transferência de renda, como o Bolsa Familia, aposentadoria rural e outros programas voltados para as populações mais pobres como a elevação do salário-mínimo, o Minha Casa, Minha Vida, Luz para todos, programas de acesso a água, com a construção de aguadas, cisternas, adutoras e barragens tiveram maior impacto na região porque ali se encontrava uma população mais carente, como vários programas estruturais foram implementados.

As obras do polo petróleo e petroquímico de Pernambuco, o GASENE, – gasoduto de integração das malhas nordeste e sudeste de gás natural, mudanças significativas no apoio a agricultura familiar, a transposição do Rio São Francisco, expansão do ensino superior e técnico e programas de energia eólica e solar, além da ampliação do acesso à internet colocaram o Nordeste em uma rota de crescimento, com redução da pobreza. Obras de mobilidade urbana mudaram a forma das pessoas se deslocarem nas grandes cidades, enquanto as pequenas cidades viviam o boom dos pequenos negócios estimulados pela transferência de renda.

As diferenças entre o Nordeste e o centro sudestino diminuíram com o crescimento dos mais pobres e a economia bombava. Os sistemas de educação ampliavam a inclusão, mesmo que a qualidade ainda deixasse a desejar, como expresso na resistência dos indicadores de aprendizagem, que caem lentamente. Os sistemas de saúde chegavam a lugares antes nunca imaginados e vários programas sociais se espalhavam pela região, empoderando as populações, que antes dependiam dos coronéis e chefes políticos locais. O estado chegava ao cidadão.

A violência continuava um problema e as políticas de segurança mantinham, comportamentos conservadores e racistas de origem histórica com poucas mudanças. O punitivismo continua oprimindo os negros e populações mais pobres.

No agronegócio, também o Nordeste se destaca com a expansão da produção de grãos no chamado MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), apesar de todos os problemas ambientais e de concentração de renda, ao mesmo tempo em sua agricultura familiar dava saltos com nichos de alto valor agregado e melhoria de sua comercialização e produtividade.

Mesmo depois do golpe do Temer e a destruição das políticas nacionais de inclusão social, os governadores do Nordeste, com suas alianças políticas locais amplas, se constituíram em resistência, tentando manter as ações desenvolvimentistas na região, mesmo com as limitações dos órgãos subnacionais. Há limites, no entanto, tanto para os projetos estruturantes, como para as ações compensatórias.

Há na região hoje um grande número de projetos estruturantes paralisados, com um pequeno folego devido à ação dos governos estaduais. São adutoras, ferrovias, parques eólicos, linhas de transmissão, infovias, redes de internet, aeroportos, portos e estradas começados e não concluídos ou em ritmo muito lento. Destaque-se a contração das atividades dos centros universitários e de escolas técnicas, que tiveram um período de construção inédito em sua história, com a interiorização da oferta de vagas para treinamento e formação profissional.

O grande problema está na política. As alianças em torno dos governadores, sejam do PT ou dos outros partidos que fizeram essas mudanças na política regional e que deram uma significativa votação para Haddad contra Bolsonaro em 2018 está agora apresentando seus limites.

O Consórcio do Nordeste, mesmo com essas limitações, é um arranjo institucional de tipo novo, que pode ser um centro de resistência ao desmonte e de articulações das forças vivas regionais, se houver a vontade dos governantes de enfrentar os graves problemas distributivos de renda, riqueza e poder da região. Difícil, mas possível.

A formação dos palanques estaduais para 2022, incluindo partidos adversários no plano nacional e afastando partidos que são próximos na oposição a Bolsonaro, pode ser um problema. O PDT se afasta do PT e flerta com o DEM e partidos históricos das oligarquias regionais. O MDB, mantendo sua tradição, não toma posições na região e fica observando os movimentos, para escolher o melhor lugar para consolidar seu poder local. O PSB teve uma disputa feroz com o PT em muitos estados, com exceção da Bahia. O PC do B busca seu lugar ao sol com o Maranhão sendo sua vitrine, enquanto o PSOL tem que dirigir a cidade nortista de Belém, com repercussões obre capitais do Nordeste.

Na Bahia, o DEM não consegue galvanizar o apoio de PSD, PP e outros partidos conservadores. As lideranças do PSD e PP estaduais têm planos de afirmação própria para 2022, mas sabem do potencial eleitoral do atual governador e das mudanças do quadro nacional, com a potencial candidatura de Lula de volta.

Os desafios de manter o arco de alianças, ao mesmo tempo em que os programas de transformação da sociedade local precisam avançar são o grande desafio das lideranças progressistas do Nordeste.

Como dizem os baianos: o momento está barril dobrado. Se ligue e fuja da crocodilagem. Não é preciso paletar, nem dar um zig. Pega visão e vamos brocar, como fazemos de hoooje. Ó paí! Colé mermão! Aonde! Fique de boa, não adianta pegar ar, porque é niuma.  Não vamos ficar de cocó, porque a disgraaaça no comando vai cair[3].

Referências Bibliográficas
NAVARRO, F. (2013). Dicionário do Nordeste. CEPE/EGBa.  716 p. 2ª.  Ed. ISBN: 978-85-7858-138-1.


[1] Tradução do “nordestinês”: A grandeza e calor do momento exigem que nós retiremos o encrenqueiro tumorento, que dirige o país como se ninguém mandasse, mas não é nada doido, mesmo sendo tosco. É preciso tirar o domínio dos parasitas e colocar os que trabalham no comando. Os governadores do Nordeste estão funcionando como cunha de ferro para quebrar pedra, sem conversa mole, nem alvoroço,  para defender os interesses do povo, cf (Navarro, 2013)

[2] O NAPP Nordeste promoveu um importante seminário sobre o Nordeste disponível em https://fpabramo.org.br/2021/02/17/fpa-realiza-jornada-tematica-sobre-nordeste-democracia-e-desenvolvimento/

[3] Em tradução livre: o momento está muito tenso. Preste atenção e fuja da traição. Não é preciso andar muito, nem se desviar do caminho. Abre o olho e vamos ter sucesso, como fazemos há muito tempo. Olhe para isso! De jeito nenhum! Qual é meu irmão. Fique tranquilo, não adianta ficar irritado, porque vai ter troco. Não vamos ficar calados, porque o miserável dominante vai cair.

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