Um bonaparte a procura de um cavalo

Vivemos tempos tormentosos, sob a égide de um governo neofascista nascido do ventre intumescido de um golpe de Estado  assestado pela burguesia e seus agentes políticos e sociais contra  a Constituição de 88, as maiorias e as organizações operárias e populares, especialmente o PT e suas lideranças. Como consequência, o Estado brasileiro sofreu uma clivagem que delimitou os campos entre “amigos” e “inimigos”, nos termos propostos pelo jurista totalitário (adepto do Terceiro Reich), Carl Schmitt. Para “os de cima, a legalidade na tutela da propriedade, dos direitos civis e políticos; para “os de baixo”, a suspensão das normas, em nome de um decisionismo de cunho moral. Buscou-se assim normalizar a obstrução das garantias materiais, processuais, a interdição de direitos, a criminalização de movimentos sociais, a destruição de políticas públicas, a expansão da miséria, do desemprego estrutural e a prática deliberada de genocídio, em razão de uma pandemia instrumentalizada por um governo de morte – além, é claro, do banimento do PT e de Lula da vida política institucional.

     Para os autênticos democratas, verdadeiramente irresignados com a exceção instaurada, sobrou um único caminho: a denúncia pronta de tal infâmia, além da solidariedade irrestrita aos perseguidos pela atual “normalidade” trazida à superfície pela extrema direita. Nesse sentido, cabe registrar um juízo pouco edificante sobre os distintos atores políticos do país, com exceção da esquerda e de alguns democratas isolados, pois a quase integridade dos quadros do centro e da direita associaram-se à vilania golpista.

    Há, entretanto, os capciosos, os que agem ambiguamente, produzindo uma distância entre intenção e gesto, como diria Chico Buarque. O mais notório de toda essa grei de homens pendulares é indubitavelmente Ciro Gomes, bem como os demais membros da oligarquia Ferreira Gomes. Do alto de seu proverbial histrionismo, Ciro Gomes disse-se contrário ao golpe contra Dilma Roussef, xingou Temer, prometeu até insurgências civis contra as arbitrariedades cometidas pelos autores do “putch”. Mas entre a declaração retórica e os atos abriu-se um abismo profundo.. Ato contínuo voltou suas baterias verbais sobre Lula e o PT, brandindo as mais vis acusações, quase todas replicando a lógica bolsonarista/morista da extrema direita. Como um ágil camaleão, deslizou entre os diferentes “fronts” político-ideológicos, auditórios, apresentando-se em feitio de Napoleão à procura de um cavalo, disposto a selá-lo a favor de quem se dispusesse a oferecer-lhe atenção e apoio.

     Ciro Gomes sempre caracterizou-se pela trajetória errática. Gerado no ventre da ditadura militar, por ela empunhou o verbo quando atuou no movimento estudantil, chegando a integrar a chapa da direita da UNE quando esta lutava pela redemocratização do país. Serviu com denodo aos coronéis da política estadual, cerrando fileiras na Arena, depois no PDS. Na abertura democrática converteu-se ao PMDB, em seguida adornou-se com as penas tucanas ingressando no PSDB, depois foi passando por uma fieira de partidos, de distintas feições ideológicas, até aprochegar-se ao PDT, que fora do histórico Leonel Brizola. Em meio a tudo isso foi prefeito, governador, entusiasta da “meritocracia gerencial” do empresariado cearense enquistado no CIC, sem olvidar suas gestões ministeriais nos governos Itamar e Lula. Mais do que tudo orientou-se pela coerência na perseguição ao poder, pela selvageria palavrosa a desancar a honra alheia, pelo gongorismo das fórmulas vazias, pelas bravatas de gogó, e por fim, pelas afinidades fugidias com a charmosa Paris, enquanto terçava-se uma luta infrene contra a ameaça do protofascismo entre nós.

     O enfrentamento do monstro de duas cabeça – o governo neofascista e neoliberal de Bolsonaro – exige unidade da esquerda, não somente capacidade de elaboração programática vinculada às lutas populares cotidianas, ao acesso a vacina, ao auxílio emergencial de 600 reais, à estruturação de obras públicas que gerem emprego e renda para os desempregados e a tantas outras reivindicações, mas ainda a abertura de uma interlocução com a Sociedade Civil, com os setores insatisfeitos com Bolsonaro e seu governo necropolítico.

     Contudo, faz-se crucial separar o joio do trigo, não alimentando expectativas com o centro e uma direita genuflexas ao golpismo em curso, à exceção formada pelos aparatos estatais que mantêm nexos orgânicos com a extrema direita. Não é possível crer em figuras rocambolescas, que por atos e palavras já deixaram claro suas reais intenções. Ciro Gomes cavou suas trincheiras no terreno da direita, aposta em tornar-se herdeiro das hordas do neofascismo acéfalo e do antipetismo, posicionando-se como possível instrumento de manutenção da interdição das instituições ao PT e à imposição de condições de “governabilidade” restritiva delimitada pelo golpe de 2016. Iludir-se quanto a sua boa fé, relativizar suas reiteradas agressões ao partido, a Lula, vendo-as apenas como manifestações intempestivas de uma personalidade desequilibrada, é um grave equívoco tático. Mais do que isso, tal persistência em atrair Ciro Gomes já começa a trazer-nos problemas junto a nossa base social. Afinal como justificar a leniência com uma figura que age assemelhadamente aos próceres da extrema direita?

     O bonapartismo emerge no momento das polarizações, notadamente daquelas que se produzem entre esquerda e direita, quase sempre abrindo caminho para a inflexão reacionária, para o ludibrio dos segmentos proletários. Ciro Gomes inflete à direita, propõe-se a servir de ponte entre a direita golpista “arrependida”, aglutinando DEM, PP “et caterva” e os “democratas” de ocasião, para revigorar as velhas razões da interdição às classes subalternas. Não lhe falta vocação despótica, flertes autocráticos, arroubos destrutivos e aquela inconsútil aversão à substância democrática.

     Saber combinar a versatilidade da ação política virtuosa pressupõe lidar com a complexidade, recompor laços organizativos,  trazer novos aliados, isolando Bolsonaro, Moro e as extrações protofascistas da burguesia e da pequena burguesia brasileiras. Isto porém sem debilitar a definição clara de nosso programa de esquerda,assimilando as linhagens dos valores democráticos, da tolerância, das liberdades civis, apostando no transcrescimento das lutas a serem encetadas. Para isso, não pode haver tergiversação em face dos candidatos a Bonaparte, dos que miram em nossas cabeças, barganham nossas existências políticas no balcão da “pequena política”. O que precisamos é de uma construção da unidade das esquerdas, dos movimentos, dos partidos, dos sindicatos, das centrais sindicais, da intelectualidade crítica, dos artistas, dos lutadores em torno de um programa imediato de derrocada do governo neofascista de Bolsonaro.Acordos oportunistas, calcados no mero somatório de forças em sentido contrário, não nos ajudarão. Mais do que nunca, a esquerda precisa proclamar seu nome, reivindicar-se anticapitalista, ousar afirmar o socialismo como única alternativa civilizatória à crise estrutural do Capital e suas tendências horrendas, irracionais e destrutivas.

Newton de Menezes Albuquerque  é professor da Faculdade de Direito da UFC, militante da Núcleo Américo Barreira do PT e ex-membro do Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo (FPA)

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