A fome e as Carolinas do Brasil

Mulher, mãe, negra, favelada, catadora de papel. Quantas brasileiras com esse perfil estarão neste momento percorrendo as ruas de uma grande cidade do país na busca pelo sustento da família? Sem máscara, sem sapatos, sem esperança.

Uma, em especial, está eternizada nas páginas do livro “Quarto de despejo: diário de uma favelada”. Carolina Maria de Jesus, representante desse grupo nos anos 50, infelizmente, continua muito atual: “Hoje estou contente. Ganhei dinheiro. Contei até 300! Hoje eu vou comprar carne. Atualmente quando o pobre compra carne fica rindo atoa.”, conta Carolina em 15 de janeiro de 2021. Não, perdão, era 1959.

“Há de existir alguém que lendo o que eu escrevo dirá… isto é mentira! Mas as misérias são reais”.

Não tivesse a autora sido descoberta pelo então repórter Audálio Dantas, seus escritos sobre o dia a dia naquela comunidade teriam sido enterrados com ela. Seus textos, que tiveram a grafia original preservada, falam de injustiça social, de discriminação, da hipocrisia de políticos, e, sobretudo, da fome.

A busca por comida para ela e seus três filhos, com quem vivia na favela do Canindé, em São Paulo, é o que permeia os dias e as noites de Carolina. Quando tem feijão, falta gordura para cozinhar. Se consegue uns ossos, pode fazer uma sopa. Quando chove, impossível catar papel. Sem papel, não há dinheiro, não há comida. E quem dorme com fome? “Já que a barriga não fica vazia, tentei viver com ar. Comecei desmaiar.”

Durante as madrugadas, Carolina discorre em seus cadernos também sobre a decisão de viver sem um homem; sobre seu gosto pela leitura; reflete sobre as relações afetivas de seus vizinhos e de como o instinto de sobrevivência se entrelaça com esses sentimentos. “Eu percebo que se este diário for publicado vai maguar muita gente. Tem pessoa que quando me vê passar saem da janela ou fecham as portas. Estes gestos não me ofendem. Eu até gosto porque não preciso parar para conversar.”

Irreverente e cortante, Carolina “sequestrou-me” da primeira à última página. Mas não tive dúvidas sobre que frase dela deveria encerrar este texto:
“26 de agosto de 1959 – A pior coisa do mundo é a fome!”

Quarto de despejo: diário de uma favelada, 1960, de Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Editora Ática, 200 páginas.

*Rita Camacho é jornalista.

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on telegram
Telegram
Share on whatsapp
WhatsApp

Deixe um comentário