Casagrande

Na semana que o Brasil bateu recorde e registrou mais de 300 mil mortos pela Covid, a Revista Piauí, estampou: “empresários tomam vacina às escondidas”. Enquanto milhares são infectados, choram seus mortos, seus doentes, o desemprego cresce, boletos vencem, o preço da carne, do gás de cozinha, da gasolina e do diesel disparam e falta comida na mesa, ‘cidadãos do bem, vestidos com o manto da preocupação em ajudar a coletividade, se imunizam e usam a classe trabalhadora para conseguir a única proteção possível, até o momento, contra o coronavírus. A corrida pelo ouro é cruel e bárbara, não respeita pandemia, nem dor.   

“O que nós não queremos é ir para o plano de vacinação. Queremos vacinar direto. Esse é o objetivo, porque, se vai para o plano, aí entra na burocracia novamente. O grande lance é a gente começar a vacinar, porque o objetivo é vacina. Tudo é muito moroso. O objetivo é acelerar isso”, declarou o empresário Washington Cinel, em 24 de março, em matéria publicada na coluna Painel S.A da Folha de São Paulo. Título da reportagem: “Queremos vacinar funcionários, diz empresário”. Ele foi o anfitrião do encontro que reuniu, na semana recorde de mortos, nomes como Abílio Diniz, Flavio Rocha e Luiz Carlos Trabuco com os presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco.

O grupo defende ideia semelhante à da dupla Luciano Hang (Havan) e Carlos Wizard (escola de idiomas Wizard), almeja alteração da recém-criada lei que permitiu aos empresários comprar vacinas desde que as doses sejam doadas ao SUS. Para Cinel, a escassez não seria um problema. “Não é que não tem vacina. O objetivo é deixar a gente procurar. Eu tenho condições de pegar dois ou três empresários e trazer um bom número de vacinas para os funcionários, familiares deles e outras coisas mais. Agora, a gente fica: ‘não tem vacina’. Aí atrasa. É liberar para que a gente possa agir”, disse o empresário com negócios em diferentes setores como Gocil, de segurança, e Broto Legal, de alimentos.

Cinel tem diálogo próximo com a elite do setor privado e acesso a grandes nomes da política, leia-se presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria. Horas antes da publicação das afirmações dele, outra reportagem revelava a prática dos empresários de Minas Gerais, imunizados às escondidas, com a primeira dose do imunizante da farmacêutica Pfizer. A revista citou que o deputado estadual de Minas, Alencar da Silveira (PDT), também teria sido vacinado, segundo relatos de pessoas presentes.

Cada dose da vacina da Pfizer teria custado R$ 600,00 – são duas doses. Uma dose tem igual valor do auxílio emergencial, pago em cinco parcelas pelo governo federal a cada beneficiário, em 2020. As últimas três parcelas foram de R$ 300,00. O benefício foi suspenso no final do ano passado, sob o argumento de governantes, ‘setor produtivo’ e mercado, que seria impossível manter a ajuda, pois, quebraria o Brasil. Novo auxílio foi aprovado pelo Congresso Nacional, neste ano: R$ 150,00, limitado a uma pessoa de cada família. Serão só quatro parcelas. Até, até 25 de março, o pagamento não havia começado.

É de imaginar que a vida dos irmãos Rômulo e Robson Lessa, donos da viação Saritur, organizadores da imunização às escondidas, esteja muito difícil como a da maioria do povo, afinal, saíram de suas casas, correram risco, para se imunizar. Não bastasse, tiveram que suportar espera. Conforme relatos, o grupo foi vacinado por uma enfermeira que atrasou, pois, estava imunizando outro grupo na Belgo Mineira, uma mineradora da região.

As doses, segundo a revista, foram ministradas na garagem de uma empresa do setor de transporte. Eles, improvisaram um posto de vacinação. Possivelmente, uma garagem, onde um homem ou uma mulher que vende a sua força de trabalho aos empresários tem os direitos trabalhistas desrespeitados. Vinte dias antes dos patrões e seus familiares serem vacinados, jornais mineiros noticiaram: “após cerca de oito horas de paralisação, os motoristas de ônibus da Saritur, que opera parte do transporte coletivo na Grande Belo Horizonte, suspenderam a greve e voltaram ao trabalho”. Cerca de 150 funcionários da empresa cruzaram, na ocasião, os braços, em protesto contra os atrasos recorrentes nos salários e do vale alimentação, além do não pagamento de férias.


Unidos e ligeiros – A corrida da elite pela vacina, começou antes mesmo do SUS iniciar a imunização. Antevendo que não seriam vacinados com rapidez, diversos empresários passaram a tensionar para a iniciativa privada comprar vacinas. Aproveitaram o fato do presidente da República que elegeram, negar a doença, debochar das mortes e não firmar acordos internacionais para garantir as doses necessárias aos brasileiros, se aproveitaram da lentidão e apresentaram a solução mágica, a “saídas para crise da falta de vacinas”.

Reportagem no site da Forbes Brasil do dia 10 de fevereiro, mostra a união de um desses grupos e tal iniciativa: “Luiza Helena Trajano, presidente do conselho do Magazine Luiza, decidiu começar o ano unindo um grupo para tirar do papel o movimento Unidos pela Vacina”. O objetivo: “imunizar todos os brasileiros contra a Covid-19 até setembro.

A pressão do empresariado funcionou. A ideia foi aceita por boa parte, senão a maioria, dos integrantes dos poderes Executivo, Judiciário e Legislativo. A lei que garantiu a compra de vacinas pela iniciativa privada, coincidentemente, teve origem em proposta, apresentada no dia 23 de fevereiro pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, do DEM de Minas Gerais, mesmo estado do grupo imunizado às escondidas.

Cientistas e especialistas diretamente atuando na crise sanitária alertaram que a compra pela iniciativa privada traria sérios problemas. Eles, a exemplo da Organização Mundial de Saúde (OMS), alertam sobre as desigualdades na distribuição dos imunizantes, concentração das vacinas em países ricos e o risco que significa aos mais pobres a compra privada. Alertas ignorados, a proposta, no Congresso Nacional, tramitou à jato. Uma vez aprovada, posteriormente, com a mesma velocidade, acabou sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro. No dia 10 de março, a lei entrou em vigor no Brasil. Rapidez igual é rara e não se fez presente no governo central em nenhum outro momento da pandemia.

A lei 14.125/21 permite que estados, municípios e o setor privado comprem vacinas contra à Covid-19 com registro ou autorização temporária de uso no País. O grupo de privilegiados de Minas Gerais foi vacinado 10 dias depois da aprovação da lei. Em curto espaço de tempo, conseguiu comprar, importar e receber doses. A vacina da Pfizer é fabricada nos Estados Unidos. Não se tem notícia que a receita da eficiência de compra, foi dada aos trabalhadores, nem ao povo, também, ávidos pela vacina. Presente no Brasil desde 1952, a Pfizer destaca em sua página na internet ser uma empresa “comprometida com a saúde do Brasil”. Também, detalha suas ações de “responsabilidade social”.

Pela lei, as doses adquiridas – setor privado (empresas e laboratórios clínicos, por exemplo), deverão ser integralmente doadas ao SUS enquanto estiver em curso a vacinação dos grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde. Após a conclusão dessa etapa, o que estamos longe de atingir, o setor privado poderá ficar com metade das vacinas que comprar, e estas deverão ser aplicadas gratuitamente. A outra metade deverá ser remetida ao SUS. Pelo que retratou a revista que denunciou a vacinação dos empresários e familiares mineiros, o grupo não doou as doses, nem avisou que compraria aos órgãos públicos responsáveis.

Um dia depois do Brasil descobrir a vacinação clandestina de empresários, seus familiares e políticos em BH, o juiz Rolando Valcir Spanholo, da 21ª Vara Federal Cível do Distrito Federal autorizou a compra de vacinas pela iniciativa privada sem doação ao SUS. 

A decisão do magistrado autorizou que o Sindicato dos Servidores da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, o Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo e a Associação Brasiliense das Agências de Turismo Receptivo importem vacinas contra a Covid-19 e imunizem seus associados.

Ao permitir a vacinação, o juiz declarou a inconstitucionalidade de dois dispositivos da legislação. “Literalmente, com as devidas venias, o artigo 2º da lei 14.125/2021 não ajuda a resolver o gravíssimo quadro de pandemia que vivemos (inclusive, até o momento, não há notícias de qualquer adesão oficial de empresas privadas), como ainda tem o poder de retirar da iniciativa privada brasileira o direito de disputar com a iniciativa privada do resto do mundo as vacinas adicionais que a indústria farmacêutica colocará em breve no mercado”, alegou.

Suor, sangue e ar – A “bondade” do empresariado escancara por quem os sinos dobram na concepção do capital. Revela não apenas imunização às escondidas, na calada do dia ou da noite, fura-filas, infração da lei, uso da classe trabalhadora, crime contra a coletividade, total falta de solidariedade, sensibilidade e preocupação com a vida de milhões de pessoas, mas é um perfeito desenho da barbárie perpetuada desde a invasão do Brasil.

Eles compram vacina só porque o Estado brasileiro governado pelo negacionista, genocida, que elegeram, não garante, no momento que gostariam, a imunização da classe deles. Simples assim!  Os representantes do capital não têm e nunca tiveram limites para alcançar seus objetivos e se proteger. Não seria em meio a uma pandemia. Para eles, trabalhador e povo bom é trabalhador e povo sufocado, morrendo sem ar, fome, implorando por migalhas, pagamento de salário, enquanto desfrutam de benesses.

A história comprova que na luta de classes, não é possível conciliar. A história sempre se repete, assim como agora, no caso das vacinas, quando o dono da Broto Legal, da Havan, da Wizard e tantas outras empresas, te vende o feijão; o arroz; a roupa; o eletrodoméstico e o curso de línguas, a preço alto, pagam mal trabalhadores, os usa, para furar fila, passar por cima e se beneficiar. É a escravidão da maioria.

Quem detém o poder econômico, nunca renunciará a concentração de riqueza. Repartir e uma palavra inexistente no dicionário da classe dominante. Não há espaço para sobrevivência harmônica de grupo social antagônico, ainda, que muitos acreditem, finjam ser essa uma possibilidade, tentem justificar, fazer acreditar que a paz, moderação e a união são a saída, sempre faltará ar. Flertar, participar, acenar, para o lado oposto é burrice, traição! Na vida real, sempre foi casa grande, senzala! Com a vacina, não seria diferente.

*Rosa Castro é economista, tem 60 anos, comorbidades, trabalha presencialmente para manter o sustento e até o fechamento desta edição, não havia sido vacinada. Aguardava sua vez na fila.

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