Duque de Caxias, Rio de Janeiro e Brasil: ou corrigimos o rumo, ou naufragamos

Por Nathan Josef – Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=63983875

Se queremos realmente transformar o Brasil e fazer frente à contrarrevolução que avança, precisamos fazer a disputa pela base. Se enfrentar o bolsonarismo não é apenas discurso, é impreterível que mudemos nossas práticas e paremos de relativizar alianças com bolsonaristas.

Motivado por uma ação impetrada pelo deputado estadual Flavio Serafini, do PSOL, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro emitiu, em 27 de março, um mandado de segurança proibindo as aulas presenciais em Duque de Caxias. Tal decisão e contexto no qual ela está inserida não apenas ajudam a entender o tamanho da crise em que o PT Rio se encontra, mas também expõe os equívocos cometidos pelo grupo hegemônico, regional e nacional, no que toca à leitura da realidade e à formulação de estratégias para derrotar o neofascismo tupiniquim, mais conhecido como bolsonarismo.

Não obstante a Região Metropolitana do Rio oscilar entre as bandeiras vermelha e roxa, o que já obrigaria a suspensão das aulas presenciais; não obstante o governador do Estado ter decretado feriado para forçar o fechamento de atividades não essenciais, incluídas a educação básica, o prefeito Washington Reis insiste em manter as aulas presenciais.

A lista de serviços prestados por WR à reação e ao neofascismo dispensaria comentários. Dispensaria se estivéssemos em condições normais de temperatura e pressão. Mas, como se verá, sem dúvida não estamos em condições normais. Por isso, me sinto obrigado a apresentar o currículo do alcaide.

WR apresentou um atestado médico pra poder furar a fila e ser o primeiro a votar a favor do golpe no famigerado 17 de abril de 2016. Depois disso, fez parte da tropa de choque de Eduardo Cunha, sendo um dos poucos a votar contra sua cassação.

Assim que assumiu, decretou guerra aos servidores em geral e aos da educação em específico. Desmontou o plano de carreira da educação. Reduziu de dez para três as licenças sindicais e nunca concedeu essas três, o que na prática acabou com as licenças. Não haveria nada de estranho ao roteiro não fosse um vereador do PT ter votado a favor das duas medidas.

À época, eu e outros companheiros tentamos, sem sucesso, instalar uma comissão para avaliar a conduta do parlamentar. Não é difícil imaginar o desgaste que a atuação daquele vereador promovia junto à base da categoria em relação ao Partido dos Trabalhadores.

Tampouco é necessário muita imaginação para calcular o desgaste que seria se, quando fez sua caravana no final de 2017, o ex-presidente Lula tivesse se encontrado com o prefeito WR. Sim, o Diretório Municipal (DM) cogitou promover esse encontro, que só não ocorreu porque nós denunciamos e fizemos campanha contra.

Quem contemporizava com a postura de se manter uma aproximação com WR se escudava no fato de o PT há muito que tinha aliança com o PMDB. Parecia que essas pessoas não percebiam o quão diferente é a nova conjuntura.

E veio 2018. Ganha um pequi roído quem adivinhar para quem WR fez campanha. Antes mesmo de Bolsonaro assumir a Presidência, WR prestou-lhe uma homenagem. O prefeito pegou uma escola cuja construção estava no fim e a batizou de Percy Geraldo Bolsonaro, pai do genocida que ocupa o Alvorada.

Ainda assim, houve quem julgasse razoável que o PT apoiasse a reeleição de WR. Felizmente, alguns membros do DM perceberam o tamanho da encrenca. Aprovou-se a expulsão do vereador que votava com o governo. Logo depois, definiu-se que o partido teria candidatura própria no município.

Em março de 2020, ocorreu um fato inusitado. A executiva reafirmou a pré-candidatura de Aluizio Júnior, liderança sindical dos moedeiros. No entanto, o site “Agenda do Poder” informou que o “PT decide apoiar a reeleição de Washington Reis em Caxias”. Ao que parece, esse site tem apenas um anunciante: a Prefeitura de Maricá. A matéria traz uma foto com o ex-deputado federal Celso Pansera, ex-PMDB e agora PT. Curiosa e coincidentemente, desde janeiro de 2020, Celso Pansera, que possui domicílio em Duque de Caxias, é o presidente do Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação de Maricá (ICTIM).  Lembrando que Maricá é o município que projetou outro Washington, o Quaquá, ex-presidente estadual e vice-presidente nacional.

Como todos sabem, a partir de março de 2020, o quadro da pandemia da Covid-19 se agravou no Brasil inteiro. Porém, a prefeitura não tomou nenhuma iniciativa para conter a propagação do coronavírus. Mesmo a decisão de suspender as aulas presenciais foi imposta pelo decreto do governo do Estado.

Mostrando-se importante liderança negacionista e fundamentalista cristão, WR disse que “a cura virá das igrejas”. Nem o fato de ter contraído a doença, ter parado na UTI e ter sido intubado lhe trouxe qualquer lucidez, afinal o prefeito continuou nada fazendo para frear a propagação do vírus.

E veio a eleição. Quando as urnas se abriram, o resultado não foi nada bom para o PT. WR foi reeleito no primeiro turno e, não obstante a combatividade de alguns quadros, Aluizio Júnior obteve 10,9 mil votos, bem menos do que Ivanete Silva, do PSOL, que obteve 17,3 mil votos. Mas nada é tão ruim que não possa piorar. O PT elegeu um vereador, Eduardo Moreira, que assumiu a Secretaria de Ciência e Tecnologia. (Quem quiser que ligue os pontos.)

Sim companheiros, temos um quadro do PT ocupando uma secretaria no governo de WR. O mesmo WR que disse que, no que depender dele, o MDB continuará votando a favor do governo genocida. O mesmo WR que determinou o retorno das aulas presenciais não obstante os índices de transmissão da Covid-19 e da lotação das UTI na Região Metropolitana do Rio. O mesmo WR que cortou o ponto de nós servidores que decidimos fazer a greve pela vida, ou seja, não retornaremos às salas de aula e manteremos apenas as atividades remotas.

Enquanto o PT tem um quadro ocupando uma secretaria no governo desse genocida, um parlamentar do PSOL entra com uma ação na justiça para impedir as aulas presenciais. Não resta dúvida de que estamos do lado errado nesse processo. Também não pode restar dúvida de que a postura do partido acerca do que está ocorrendo em Caxias é apenas um capítulo da história de equívocos estratégicos levados a termo pelo grupo hegemônico.

Alguns poderiam argumentar que é uma questão de ótica e dizer que “é importante ocupar os espaços institucionais”. O que está por trás desse discurso é o falso debate entre as estratégias institucionais e as de mobilização popular. Ora, um partido que em seus documentos defende o socialismo não pode prescindir da luta popular. Por outro lado, há dois pontos sobre os quais não resta dúvida: associarmo-nos a governos como os de WR nos coloca em rota de colisão com as lutas populares e nos afastar das lutas populares nos levará à derrota.

Além disso, os fatos mostram que esse “debate” não se sustenta em pé, e o definhamento do PT-RJ é uma prova disso.

Como os números mostram, nosso partido não ganhou nada com essa aliança. Pelo contrário, perdemos; enquanto o PSOL cresceu. Claro que as eleições de 2018 foram atípicas. A respeito daquele pleito, temos que considerar alguns elementos. O bolsonarismo desorganizou fundamentalmente a direita neoliberal, como bem demonstram, por um lado, a desidratação do PSDB, do MDB e do DEM, por outro, a resiliência do PT e da esquerda em geral. Porém, não há como ignorar que a derrota que sofremos no Rio de Janeiro é desproporcional com o resultado nacional, afinal, enquanto nossa bancada na Câmara reduziu em 20% (de 70 para 56), a bancada de deputados federais do PT-RJ teve uma redução de 80%.

Como se não bastasse, a despeito do encolhimento da bancada do PSOL na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o partido se consolidou como uma referência de esquerda no Estado e possui uma bancada maior que a nossa tanto no legislativo estadual quanto no federal. Se queremos continuar sendo referência de esquerda no Rio de Janeiro, precisamos ter práticas de esquerda, porque a contradição entre o nosso discurso de esquerda e a prática reacionária de alguns de nossos quadros é uma avenida para o crescimento do PSOL. Não se trata de ter animosidade para com o PSOL. Trata-se da sobrevivência do PT no Rio de Janeiro e do fortalecimento da esquerda em geral, afinal, nosso partido dialoga com setores nos quais o PSOL não tem entrada.

Ou se muda de estratégia, ou podemos esperar um resultado ruim em 2022. Ainda que ganhemos a eleição para presidente, continuaremos frágeis no Parlamento, e todos nós sabemos o perigo disso.

Não se trata de defender uma visão romântica e idealista. Claro que alianças são necessárias, mas há que se analisar em que bases elas se dão. Não é razoável supor que ocupar secretarias em governos como os de Washington Reis – como está ocorrendo às dezenas pelo Brasil afora com a anuência dos diretórios nos três níveis – trará resultados eleitorais satisfatórios. Não só não trará votos como corrói nossas bases, coloca nossas lideranças no movimento sindical e popular em condições dificílimas.

Se queremos realmente transformar o Brasil e fazer frente à contrarrevolução que avança, precisamos fazer a disputa pela base. Se enfrentar o bolsonarismo não é apenas discurso, é impreterível que mudemos nossas práticas e paremos de relativizar alianças com bolsonaristas. Temos que fazer oposição ferrenha e intransigente ao bolsonarismo onde quer que ele se manifeste, e não assumir secretarias em governos alinhados ao bolsonarismo ou anuir que nossos quadros o façam.

Mateus Mendes é geógrafo, mestre em Ciência Política/Política Mundial e diretor do Sindicato Estadual de Profissionais da Educação núcleo Caxias (SEPE-Caxias).

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Este post tem um comentário

  1. Eldemar de Souza

    Eu não sou petista, embora só vote em candidatos de esquerda, desde os tempos em que a disputa se dava entre MDB e Arena. O único candidato do PT que recebeu meu voto em todas as vezes que concorreu chama-se Luiz Ignácio Lula da Silva. E é nele que pretendo votar, ano que vem. Logo, não me sinto embasado pra discutir as questões internas do partido, mesmo entendendo que a situação exposta claramente no texto acima está levando o PT a um desgaste político, que ainda pode ser revertido.

    Porém, na condição de caxiense, posso assegurar que Washington Reis à frente da administração municipal é um acidente com muitas vítimas. E não falo apenas das vítimas da Covid-19, contaminadas e/ou mortas em função do descaso com que ele encarou a pandemia. Falo do desrespeito com a saúde pública, a educação, o patrimônio cultural da cidade, o meio ambiente. Quanto a este, por sinal, o cara já foi condenado a vários anos de cadeia – que jamais cumpriu, diga-se.

    Resumindo, o desgoverno de WR está muito mais pra Boston que pra Washington.

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