Depois da variante Bolsonaro, teremos uma variante Israel?

O que ocorreu em Manaus comprova o que a Ciência já sabia: “imunidade de rebanho” não é uma solução para a Covid-19.

A combinação de uma baixa infraestrutura hospitalar com esforços governamentais de disseminação do vírus produziu um descalabro entre maio e junho de 2019.

Entre setembro e outubro de 2019, silenciosamente, após um relaxamento, uma variante se preparava para um novo descalabro, ainda mais devastador.

Com o descontrole, o sistema de saúde da cidade colapsou, causando a morte de pessoas que em outras circunstâncias poderiam ter sobrevivido.

Os sobreviventes, por sua vez, conviverão com sequelas e o sacrifício ao qual se submeteram não garantiu sequer que ficassem livres da doença.

Azul claro: novos casos / Azul escuro: média móvel de 7 dias / Fonte: INFOAMAZONIA

Mesmo após a “imunidade de rebanho” ter sido alcançada, a população de Manaus voltou a sofrer com uma segunda onda. Permitir a ampla circulação do vírus criou um ambiente muito propício para mutações e uma delas, a variante P-1, “driblou” a “imunidade de rebanho” que haviam alcançado.

Para nossa felicidade, as pesquisas mais recentes estão apontando que a variante P-1 não é capaz de tornar inefetiva a proteção alcançada através das vacinas disponíveis.

Mas o que ocorreu em Manaus amplifica um sinal de alerta: sem distanciamento, uso de máscaras e outras medidas preventivas, seremos um enorme criadouro de novas variantes. Consequentemente, ampliamos o risco de jogarmos no lixo todo o esforço de vacinação.

O que ocorre no Brasil atualmente e já se espalha por outros países com a variante P-1, consolidando a posição de pária internacional do Brasil, é um exemplo prático de que não haverá solução isolada para a COVID-19: é preciso buscar uma solução para todos.

Israel e Palestina

Voltemos nossa atenção para o Oriente Médio agora. Israel é hoje o país que mais vacinou em termos percentuais: 61,03% em 6 de abril de 2021. Com esta taxa, baixou sensivelmente o número de novos casos e mortes.

O gráfico abaixo mostra o percentual da população vacinada em Israel e na Palestina:

Mas Israel ocupa e oprime a Palestina dentro de seu próprio território. Em 4 de abril, a Palestina possuía apenas 1,8% de sua população vacinada. E ensaia o que parece ser uma nova onda, que não sabemos até onde pode chegar.

O gráfico abaixo mostra novos casos de COVID-19 (por milhão de pessoas) confirmados em Israel e na Palestina:

Israel vacina desde dezembro de 2020. A Palestina começou a registrar timidamente vacinação em abril de 2021 (Our World In Data). Como resultado, Israel vive seu melhor momento em 10 meses, enquanto a Palestina vive seu pior momento desde o início da pandemia.

Enquanto a população vulnerável da Palestina mal começa a ser vacinada, Israel já se dá ao luxo de vacinar grupos não vulneráveis.

Obviamente, apesar do título provocador, este texto não é um exercício de “futurologia”. Não farei aqui nenhuma previsão taxativa sobre o que pode vir a se passar em Israel. O intuito de mostrar a disparidade com a Palestina é expor o quanto a desigualdade social desequilibra o impacto do vírus em lugares tão próximos.

Entretanto, não há exagero em afirmar que se considerarmos as hipóteses que a Ciência desenha, há um flerte com o perigo nas estratégias chauvinistas/xenófobas que não colocam a humanidade como um todo no centro das preocupações.

A Palestina é aqui

São notórios os esforços do presidente do Brasil na disseminação do vírus e no boicote às vacinas, em prejuízo dos brasileiros. Aqui, palestinos somos nós, mas Israel senta na cadeira presidencial.

No ano passado, descobrimos que negros morrem mais de COVID-19. Este ano descobrimos que também são menos vacinados.

Diante da pandemia, nossa elite racista declara o trabalho doméstico como serviço essencial. E aprova no Congresso um projeto fura-fila que transforma o Ministério da Saúde em instrumento de garantia do “quem pode mais, chora menos”. Teremos uma área VIP de vacinação.

Pela primeira vez em 17 anos mais da metade da população brasileira não tem garantia de comida na mesa. Ao mesmo tempo o Brasil ganhou, durante a pandemia, 11 novos bilionários na lista da Forbes.

Genocídio por genocídio, o mundo vai entendendo forçosamente que não há salvação isolada: a variante P-1 está aí para comprovar. Deveria se chamar variante Bolsonaro.

Em texto anterior, eu afirmei que o capitalismo mata. Neste, afirmo que a falta de empatia e humanidade também matam. No capitalismo e no apartheid, no Brasil ou na Palestina ocupada, o vírus evidencia nossas contradições

Adriano Bueno – Militante do MNU, do CONEPPA e do PT. Mestrando em Políticas Educacionais na Unicamp.

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