MUNTAQIM IMPRESCINDÍVEL

Após 49 anos preso, no final do ano passado Jalil Muntaquim – nascido Anthony Bottom, em 18 de outubro de 1951, finalmente deixou o New York State’s Sullivan Correctional Facility, prisão em Nova Iorque onde cumpriu os últimos 25 anos de longo encarceramento. Foi preso aos 19 anos, em 1971, acusado pela execução de dois policiais numa operação do Exército Negro de Libertação (Black Liberation Army – BLA), organização revolucionária comunista e antirracista a qual pertencia. Desde setembro, quando passou à prisão domiciliar, concede entrevistas em liberdade condicional. Muntaquim, bom lembrar, não está anistiado e se identifica como preso político sob vigilância. Essa a razão pela qual o tema da anistia permanece relevante na atuação do ativista antirracista.

A liberação de Muntaqim repercutiu no Brasil pela entrevista recentemente realizada por Breno Altman, do portal Opera Mundi. Muntaqim despertou sua consciência política ainda na infância, influenciado pela mãe, então jovem professora de dança, que costumava designar a si e aos filhos como “africanos”. A referência fazia contraposição aos termos segregacionistas derrogatórios da cultura e dos valores atribuídos aos negros nos EUA. Sua mãe integrava a Associação Nacional para o Desenvolvimento das Pessoas de Cor (National Association for the Advancement of Colored People – NAACP, sigla em inglês), organização voltada para os direitos civis e políticos pela qual Muntaqim também passou.

Na adolescência integra a organização secundarista Black Student Union e em 1969, se une aos Panteras Negras (Black Panther Party – BPP), partido revolucionário fundado em 1966, de orientação maoísta, adepto da ação direta, crítico da estratégia de resistência pacífica adotada pelo movimento dos direitos civis e políticos cuja maior expressão, Martin Luther King Jr, fora assassinado um ano antes. Muntaqim seguiu Luther King e a execução do líder influenciou sua decisão de passar da resistência antirracista pacífica à resistência armada. Da infância à juventude, a trajetória do ativista segue a linha de acirramento da luta anticapitalista e antirracista nos EUA entre final dos anos 60 e início dos 70.

Dos Panteras Muntaqim passou ao Exército Negro de Libertação, organização clandestina, igualmente revolucionária, armada, anticapitalista, mobilizada contra a brutalidade policial racista estadounidense. Os Panteras, cujo líder Fred Hampton também viria a ser assassinado em dezembro de 1969 aos 21 anos de idade, estiveram na origem do Exército Negro de Libertação que, por uma década (1970/1981), lutou pela autodeterminação do povo negro e pelo estabelecimento da República da Nova África em solo estadunidense. A resistência às execuções de lideranças antirracistas, à brutalidade policial e às inúmeras formas de imposição violenta supremacista branca, era monitorada pelo programa secreto de contrainteligência conhecido pela sigla em inglês COINTELPRO (Counter Intelligence Program) voltado à desestabilização daqueles movimentos.

O COINTELPRO era tocado pelo FBI ainda sob o comando de J. Edgar Hoover, notório racista anticomunista, cuja tática consistia em “expor, desestabilizar, desacreditar e neutralizar as organizações nacionalistas negras”. A CIA (Central Intelligence Agency) também atuava no programa. Era uma operação envolvendo agências de inteligência e forças de repressão de Estado de forma coordenada, visando aniquilar o inimigo interno. Por essa razão o Exército Negro de Libertação, em meio à sua atuação, apelava pela liberdade de seus integrantes na qualidade de prisioneiros políticos e de guerra, status atribuído aos capturados nas operações de repressão.

Com a consigna de terra e independência para a República da Nova África, o Exército se considerava parte das guerras de libertação colonial em andamento no mundo, em especial na África. A perseguição política interna nunca foi admitida pelos EUA que denegam sistematicamente a luta dessa geração de militantes como sobreviventes presos cujo enfrentamento armado da violência racista se justificava por décadas de linchamentos, enforcamentos, segregação, humilhação e todo tipo de infâmia supremacista sob a forma de lei e ordem.

Na prisão, Muntaqim fundou o National Jericho Movement, coletivo internacionalista dedicado ao reconhecimento das prisões políticas e de prisioneiros de guerra em solo estadunidense, dando continuidade à luta para que o Estado assuma sua responsabilidade na formulação, promoção e execução das políticas de perseguição e assassinato dos ativistas antirracistas. Em 1998 o Jericho Movement reuniu mais de 50 organizações, comitês de defesa e 64 organizações estudantis aliadas ao Movimento, articulando nacionalmente comitês em torno da palavra de ordem de anistia aos presos políticos e aos prisioneiros de guerra. No site https://thejerichomovement.com consta a chamada do movimento empenhado na liberdade de todos os presos políticos com a breve explicação de que os Estados Unidos mantém dezenas deles.

Muntaqim é questionado sobre eventual arrependimento do caminho adotado. Responde com firmeza e serenidade reiterando a necessidade da luta por uma sociedade livre de racismo, o que demanda, em sua opinião, que também seja livre de classes sociais. Reitera a necessidade de seguir adiante e, como ser humano, ressente-se das vidas perdidas em combate. Para autodefinição, vale-se de um único termo: “revolucionário”. Denuncia a apropriação liberal da pauta antirracista, apontando a estruturação capitalista das diferentes formas de opressão, reiterando a consigna de Malcom X sobre não existir capitalismo sem racismo. Não descarta a possibilidade de o Império ruir por forças existentes dentro das próprias fronteiras. “Whay not?!”. Quanto ao pretenso consenso sugerido pelo movimento “Vidas Negras Importam”, não perde de perspectiva da épica jornada de resistência desde o sequestro do povo negro, passando pela guerra civil e chegando até as revoltas contemporâneas. Há um fio condutor ligando todos episódios. Pretos não conseguirão respirar com corporações organizando “releituras” de navios negreiros. Essa é a guerra permanente de que nos fala Jalil Muntaqim. Neste combate, ele é dos que lutam a vida inteira. Um imprescindível, como diria Bertold Brecht.

Douglas Martins – Jornalista e advogado. Colaborador do Manifesto Petista.

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