As Ruas

A conjuntura política no Brasil está, nas últimas semanas, sofrendo profundas transformações em muitos dos seus aspectos, inclusive nos que dão sustentação a uma correlação de forças extremamente favorável a extrema-direita.

Essas transformações estão enfraquecendo o ambiente que vinha possibilitando a execução, sem maiores reações, de uma destruição do país e submetendo o povo brasileiro a uma criminosa necropolítica.

Não me refiro apenas ao favorecimento da morte na relação de Bolsonaro e do governo com a pandemia. Várias outras políticas e ações tem a mesma natureza, tais como as ações econômicas do ministro Paulo Guedes, o favorecimento da destruição da Amazônia e muitos outros crimes que têm sua versão mais dramática no massacre na comunidade do Jacarezinho, no Rio.

Uma ação nitidamente de terrorismo de Estado, uma operação política para desafiar e desmoralizar o STF e para desestimular qualquer movimento social de oposição.

Bolsonaro, o governo, as FFAA, os setores das elites que dão sustentação a Bolsonaro e seu governo já começam a ter a sensação de que a casa pode cair…

A tendência é a velocidade das mudanças conjunturais ir se acelerando e com ela a emergência de novos desafios que ainda não estavam postos, ou que não eram desafios imediatos como se tornaram de alguns dias para cá para os que lutam pela retomada do caminho democrático.

Ninguém se iluda que essa tendência de enfraquecimento e isolamento do governo modificará a conjuntura como uma fatalidade e como um fluxo natural.

A superação da conjuntura atual será produto de muitos processos, conflitos e realinhamentos.

Fico com a impressão de que as nossas conversas sobre a conjuntura política necessitam refletir sobre o que fazer? E esses desafios que estão se tornando incontornáveis.

Um verdadeiro desafio político que essa conjuntura complexa está nos impondo: a questão da estratégia de enfrentamento do fascismo social e sua expressão política.

Já que estamos em tempos pandêmicos, vou usar uma vacina para não cairmos febrilmente em uma discussão inútil e sem saída.

Não se trata de subestimar nenhuma frente de luta, de secundarizar a luta política institucional, nem nenhuma outra frente que tem feito parte até agora da resistência ao neoliberalismo, ao autoritarismo e às manifestações da necropolítica da extrema direita. Seria um contrassenso, principalmente agora, quando o Senado tem uma CPI em funcionamento e que vem revelando o lado nefasto de Bolsonaro e seus generais. Seria uma infantilidade subestimar essas frentes e tentar trocá-las por outras que ainda não fazem parte da realidade.

Também não se trata de pregar um voluntarismo de tentar um confronto para o qual não estamos preparados.

E, além do mais, estamos submetidos às condições de restrição para aglomerações decorrentes da pandemia, que não recomenda irmos para as ruas para participar de aglomerações.

Contraditoriamente, e aí está o X da questão, temos uma situação gravíssima que exige que manifestemos nossa força.

Não é por acaso que estou demandando uma análise de conjuntura mais apurada, com maior capacidade e agilidade de acompanhar as turbulências e mudanças conjunturais e que reflita sobre essa difícil questão.

Na verdade, a questão já está posta e se não temos condições hoje, nem nos próximos dias de realizarmos de forma bem-sucedida, temos que reconhecer que essas condições não serão criadas por geração espontânea.

E, também seria um erro, transferir para o presidente Lula a responsabilidade de criar essas condições.

Se o povo brasileiro não for para as ruas dar um basta neste genocida, ele, seu governo e toda essa estrutura social, política, civil e militar, que lhe vem dando apoio, vão encontrar um jeito de se manter no comando da demolição do país por muito mais tempo.

A extrema direita não costuma recuar. Quando estão acuados e isolados, ficam mais violentos e irracionais.

A Colômbia está na rua, protestando contra o neoliberalismo da extrema-direita e contra praticamente a mesma reforma tributária que estão aprovando no Brasil. Lá também tem crise sanitária.

Ontem Jacarezinho saiu em manifestação protestando contra a chacina. Como se dissessem é melhor morrer lutando do que ficar em casa, com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar! A morte está no comando do Brasil! E tentando se manter na AL.

Tenho muitas dúvidas, chego a não acreditar, que se pode retomar o Brasil das mãos da morte sem antes darmos uma demonstração de força, sem mostrar os dentes e botarmos nossas forças na rua.

As infovias têm seus limites, apesar de estarem sendo um importante território de resistência no Brasil.

Na década de 60 um documentário da TimeLife fez muito sucesso no mundo inteiro.

Conseguiram filmar a perseguição de um guepardo a um pequeno babuíno e o babuíno corria tudo que podia para fugir da morte. Mas não podia o tanto que precisava para escapar do animal mais veloz do mundo.

Quando o guepardo já estava quase capturando o babuíno, esse, por puro instinto de sobrevivência, bruscamente se vira para enfrentar seu perseguidor e faz uma expressão de combate, mostrando todos os dentes e parte pra cima surpreendendo o seu algoz.

Eu não me lembro com segurança, mas tenho uma vaga lembrança que conseguiu botar seu perseguidor para correr.

Essa questão das estratégias e táticas para dobrar a morte e os seus representantes está na ordem do dia.

Juca Ferreira – Sociólogo e filiado ao PT, foi Ministro da Cultura no Governo Lula e Dilma

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