As ruas vida e morte

Nas últimas semanas, a conjuntura política brasileira vem passando por significativas transformações. O ambiente de caos e de crise generalizada está se agravando, intensificando a instabilidade e ampliando, na sociedade, o pessimismo diante do futuro.

Quase tudo parece estar sem funcionar, em crise ou em decomposição.

A pandemia de Covid 19 continua fora de controle e a tendência é que a sociedade brasileira se mantenha vulnerável diante do vírus, com um número crescente de mortes e contaminações.

Os cientistas e médicos especialistas vêm alertando que nas condições atuais de falta de planejamento e coordenação de políticas e ações de combate à pandemia, a crise sanitária tende a se estabilizar nesse patamar alto de mortes e contaminações ou, o que é mais provável, que venhamos a ter uma terceira onda da doença, mais agressiva e mais mortal.

Avaliam a possibilidade de a crise se estender até meados do próximo ano, o que obriga aos que fazem oposição política a esse processo de demolição do país a pensar, com mais profundidade, o que fazer diante de uma situação tão perturbadora.

Já somos um problema sanitário para o mundo. O negacionismo da extrema-direita vem impedindo que as medidas necessárias para conter a pandemia e estancar o número brutal de mortos sejam assumidas pelo governo federal.

A economia não dá sinais de melhora, pelo contrário, o neoliberalismo tosco e predatório das elites econômicas brasileiras a cada dia que passa demonstra sua incapacidade de dar as respostas que o país precisa e demonstra não ter futuro.

O ministro Paulo Guedes, apresentado ao país por toda a imprensa e meios de comunicação como super competente e capaz de gerar uma retomada do desenvolvimento, nitidamente não sabe para onde ir e parece não ter mais recursos nem truques na manga para aplicar na gestão da economia.

Insiste na quase total desregulamentação da economia como um meio, segundo ele, para destravar a iniciativa privada.

Esse ministro tem se concentrado em permitir que o setor privado se aproprie dos ativos públicos – Pré-Sal, Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa, Eletrobrás, SUS etc.. – e na extinção de direitos sociais.
É só o que tem a propor.

Tudo indica que continuarão atacando os direitos sociais, impondo pesadas perdas e sofrimentos ao povo brasileiro, aumentando ainda mais as falências, o desemprego e a fome com aumento da já escandalosa concentração da renda no país.

O desemprego e a fome já invadiram os lares das famílias mais pobres e muitos brasileiros e brasileiras com suas crianças já estão morando nas ruas.

Bolsonaro vem acenando para uma radicalização política, propondo abertamente o atropelo das instituições encarregadas da defesa da República e que ele não conseguir cooptar. O presidente fala abertamente em dar um golpe com apoio das polícias militares, milícias, das Forças Armadas e sob as bençãos de bispos neopentecostais.

Nitidamente, o massacre de Jacarezinho não é somente uma disputa de território entre o tráfico e as milícias com o apoio da polícia e do governador. Existem muitos indícios que se trata também de uma ação política de caráter nacional. Será preciso analisar esse crime contra a comunidade do Jacarezinho como uma ação da extrema-direita sinalizando a opção pela radicalização, com escolha da violência do Estado e da morte evidenciando a tentativa de total controle do Estado nacional por parte das milícias.

A possibilidade dessa situação de violência máxima contra o povo que mora nas periferias das grandes cidades se generalizar pelo Brasil não está descartada.

Bolsonaro, seus filhos e outros, vêm construindo essa caminho com o beneplácito dos generais do presidente e com uma enorme condescendência por parte das instituições encarregadas da defesa da República.

A corrupção já é praticada à luz do dia, em uma escala gigantesca. A descoberta recente de um “orçamento secreto” para compra de apoio político mostra que Bolsonaro e seus aliados estão dispostos a tudo para compensar a perda de apoio político na sociedade.

Nesse momento, a falta de alternativa política para enfrentar toda essa barbárie cria um clima de mormaço e apatia na sociedade e continuará provocando a decomposição e o comprometimento de instituições vitais para nossa democracia e nossa República, levando de roldão, como a enxurrada de lama nas enchentes, personagens políticos e biografias.

Ao mesmo tempo, temos visto muita gente se afastando do governo, manifestando que estão se sentindo enganados e revendo seu apoio inicial ao genocida e à sua política contra nosso povo, contra nossa democracia e nossa soberania.

Nas últimas semanas esse ambiente em decomposição vem instigando os diversos setores sociais e políticos a se reposicionarem, deflagrando conflitos, diálogos, radicalizações e deslocamentos importantes.

A correlação de forças extremamente favorável à extrema-direita que vinha predominando desde a eleição do atual presidente tende a se modificar. O agravamento da crise política, econômica e social está transformando o ambiente que vinha possibilitando a execução, sem maiores reações, de uma destruição ampla e sistemática do país, submetendo o povo brasileiro a toda sorte de sofrimento e aflição, por uma criminosa necropolítica.

Não me refiro apenas ao favorecimento da morte na relação de Bolsonaro e do governo com a pandemia. Várias outras políticas e ações do governo e do presidente têm a mesma natureza, tais como as ações econômicas do ministro Paulo Guedes expondo os mais pobres à fome e à miséria, o favorecimento da destruição da Amazônia e muitos outros crimes, que têm sua versão mais dramática no massacre na comunidade do Jacarezinho, no Rio, uma ação nitidamente de terrorismo de Estado, uma operação política para desafiar e desmoralizar o STF, intimidar a CPI e para desestimular qualquer movimento social de oposição.

Bolsonaro, o governo, as FFAA e os setores das elites que lhe dão sustentação já começam a ter a sensação que a casa está caindo… os mais oportunistas já estão pulando pelas janelas.

A tendência, daqui para frente, é que a velocidade das mudanças conjunturais vá se acelerando e com ela a emergência de novos desafios e a necessidade imediata de respostas efetivas por parte daqueles que lutam pela retomada do caminho democrático.

Ninguém se iluda que essa tendência de enfraquecimento e isolamento do governo terá um final sem intercorrências como um rio que corre para o mar. Haverá reações e a reconstrução do Brasil não será coisa fácil. Teremos um
longo e difícil caminho a percorrer em direção a uma conjuntura favorável ao povo brasileiro.

A superação da conjuntura atual será produto de muitos processos, conflitos e realinhamentos na sociedade e, principalmente, da condução e da ação política dos partidos e setores democráticos. Por isso, a definição do que e como fazer é urgente e incontornável.

O maior e verdadeiro desafio político que essa conjuntura complexa está nos impondo é a definição da estratégia de enfrentamento do fascismo social e sua de expressão política.

Os setores democráticos precisam de uma carta de navegação para atravessar os atuais mares revoltos da conjuntura política e para conduzir com segurança o barco da democracia.

Não se trata de subestimar nenhuma frente de luta, de secundarizar a luta política institucional, nem nenhuma outra frente que tenha feito parte até agora da resistência.

Seria um contrassenso, principalmente agora, quando o Senado tem uma CPI em funcionamento, revelando para toda a sociedade o lado nefasto de Bolsonaro e do seus apoiadores.

Não é por acaso que estou apontando a necessidade de uma análise de conjuntura mais apurada, uma maior capacidade e agilidade para acompanhar as turbulências e mudanças conjunturais com uma reflexão sobre essa difícil questão do que fazer. Estamos diante de um dilema cuja resposta não é imediata, nem fácil.

Os setores técnicos e científicos especializados no combate à pandemia apontam que a maior probalidade é de que até a metade do próximo ano, não teremos um nível satisfatório de vacinação que nos dê segurança sanitária para restabelecer a convivência e o contato físico sem restrições. Por isso, temos que pensar o que fazer nessas condições adversas.

Na verdade, a questão das manifestações nas ruas já está posta e se não temos condições hoje, nem nos próximos dias de realizarmos manifestações de forma bem sucedida e segura, temos que reconhecer que essas condições não serão criadas por geração expontânea.

O tempo da política não espera. Hoje, Bolsonaro está sofrendo reverses e tem perdido apoio. Esse processo não é irreversível. Não vou analizar aqui, mas ele não está morto politicamente, nem está parado. O orçamento secreto é uma demonstração clara que não medirão esforços para conter o desgaste e a perda do apoio no Parlamento e no âmbito da politica institucional. A extrema-direita não costuma recuar. Quando estão acuados e isolados, ficam mais violentos e irracionais.

Hoje, sob o ponto de vista político, é inevitável a discussão em torno das demonstrações populares na rua.

Todo grande movimento social é precedido de um intenso processo de fermentação, articulação e organização.

Cabe aos movimentos sociais e partidos discutir essa questão, preparar e ajudar a criar as condições necessárias para que essas manifestações sejam de fato multitudinárias e seguras.

Se o povo brasileiro não for para as ruas dar um basta neste genocida, ele, seu governo e toda essa estrutura econômica, social, política, civil e militar, que lhe vem dando apoio, vão encontrar um jeito de se manter no comando da demolição do país por muito mais tempo.

Me chama a atenção a Colômbia estar na rua, protestando contra o neoliberalismo da extrema-direita e contra praticamente a mesma reforma tributária que estão aprovando no Brasil. Lá também tem crise sanitária.

Jacarezinho saiu em manifestação protestando contra a chacina. Como se dissessem: é melhor morrer lutando, do que ficar em casa, com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar!

Tenho muitas dúvidas, chego a não acreditar, que se pode retomar o Brasil das mãos da morte sem que os setores democráticos acumulem força e sem antes uma demonstração de ganas e disposição, sem mostrar os dentes sem ocuparmos as ruas com volume e energia.

As infovias têm seus limites, apesar de estarem sendo um importante território de resistência no Brasil.

Essa questão das estratégias e táticas para dobrar a morte e os seus representantes da extrema-direita está na ordem do dia.

Juca Ferreira – Sociólogo, foi Ministro de Estado da Cultura nos governos Lula e Dilma.

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