Esther Solano e o papel dos indecisos na história

Recomendo fortemente a leitura do artigo de Esther Solano, intitulada “Lula e os indecisos” e publicado na Carta Capital.

Segundo este artigo, devemos tomar “cuidado com a tentação de cair em ufanismos”, até porque “46% dos eleitores ainda não sabem em quem votar. Na verdade, se a eleição fosse hoje, a dúvida ganharia, teríamos um segundo turno entre a indecisão e outro candidato. Metade dos brasileiros está confusa, perplexa, desconfiada. Busca ser seduzida, conquistada, mas só encontra abandono político”.

Não acho que seja exatamente assim que as coisas são, mas por economia vamos admitir que fosse assim.

Esther Solano lembra que “ainda falta muito tempo para a eleição e, no Brasil, mais do que em outros lugares, sabemos que em curtos espaços de tempo tempestades políticas podem arrasar tudo”. Apesar de afirmar isso, ela não explora este cenário, preferindo encaminhar o raciocínio para o seguinte lugar: “a tendência é que o cenário (….) melhore, oferecendo “outra oportunidade a Bolsonaro. O fato é que sua base tem, no entanto, se desintegrado”.

E – sempre com base nas pesquisas, ou seja, no retrato de agora – afirma que as pesquisas indicam que a “terceira via” não terá “vida fácil, está emperrada, não decola. Diante de um cenário ocupado por duas grandes forças subjetivas e políticas como o bolsonarismo e o lulismo, é difícil emergir com uma opção fora delas”.

Daí Solano conclui que “muitos de nós temos críticas a Lula” e “desejamos ar fresco no partido, mas os dados são claros: a eleição de 2022 passará forçosamente pelo ex-presidente”. E aí vem a conclusão, para a qual chamo a máxima atenção: “Se Lula for o escolhido para enfrentar o Bolsonarismo, na minha modesta consideração, não tem como usar outro figurino a não ser o Lula do centro, um revival do Lula da conciliação, um dejá vu do Lula da concórdia”.

Solano não fala nada sobre a pergunta que não quer calar – o revival se limitará a eleição ou todo o resto será como antes – e segue adiante com o seguinte raciocínio: “Sei que muitos gostariam de um Lula mais à esquerda, de um PT mais combativo na agenda ideológica, de uma proposta mais radical (….) mas dos 44% dos eleitores que estão à espera de serem conquistados, 60% avaliam o governo Bolsonaro como regular. O centro é que está indeciso, que vai definir, que precisa ser seduzido. O centro nos livrará de Bolsonaro. Há como ganhar de Bolsonaro sem ir para o centro? Humildemente acho que não”.

Chegando neste ponto, a conclusão de Solano não poderia ser outra senão a de afirmar que “a foto de Lula com Fernando Henrique define o Lula que teremos, o Lula que é, o Lula que as pesquisas colocam em primeiro lugar”.

Solano talvez não perceba que esta última frase é uma máxima pós-verdade. Mas sobre isso falarei adiante. Antes reproduzo as últimas frases de seu artigo: “Quem quiser outro Lula não terá. Fico satisfeita que assim seja. Eu quero um Lula que dialogue com os bolsonaristas arrependidos e com aqueles que duvidam. Se é para ter um Lula candidato, que seja este”.

Em se tratando de política, num país onde – palavras da própria Esther Solano – ocorrem “tempestades” que “podem arrasar tudo” – é surpreendente que Solano seja tão peremptória no fecho do seu artigo. E é por aí que quero começar a crítica: alguém acha que o retrato das pesquisas em maio de 2021 corresponde ao que vai acontecer em outubro de 2022? Alguém acha que Bolsonaro seguirá se esvaziando e Lula seguirá crescendo e esperaremos 17 meses por uma solução?

Me parece óbvio que algo vai acontecer, daqui até lá, que mudara a equação tal como está posta agora. Bolsonaro tentará um golpe de mão? Será destituído? Haverá um governo provisório? As eleições serão antecipadas? O que vai acontecer, não sei e não há como saber, mas que o cenário atual é insustentável, me parece meio óbvio. Portanto, cálculos peremptórios do tipo “quem quiser outro Lula não terá” podem ser ótimos como desejo, mas não ajudam na análise política. Até porque, vamos lembrar, Lula também liderava as pesquisas em certo momento de 1994 e em certo momento de 2018, mas…

Esther Solano sabe que o cenário pode mudar e não apenas por conta do que ela chama de “tempestades”. Palavras dela: “a tendência” é que o cenário “melhore”, oferecendo “outra oportunidade a Bolsonaro”. Mas ela não explora este cenário, assim como não explorou o cenário da tempestade. Todo o raciocínio peremptório dela é feito com base no cenário de maio de 2021. E eu pergunto: se o cenário “melhorar” para Bolsonaro, a tática de ir ao centro, de tirar foto com FHC, seria mesmo a melhor tática para a esquerda? 

Façamos as contas: o eleitorado que algum dia escolheu Bolsonaro, num ambiente de melhora da situação pandêmica, econômica e social, tenderá majoritariamente a fazer o quê? Escolher outra alternativa? Ou dobrar a aposta? Me parece que neste cenário, tende a ocorrer o oposto do que está acontecendo agora. E, neste cenário, qual seria o efeito de um discurso de centro, simbolizado – palavras de Esther – pela foto de Lula com FHC? Na minha opinião, corremos um grande risco de repetir 2018.

Na verdade, a tática eleitoral proposta por Esther só faria sentido estritamente eleitoral se a eleição fosse agora. Mas para a eleição ser agora, seria necessário afastar Bolsonaro; e isso produziria uma “tempestade” que mudaria tudo de lugar, podendo tornar sem sentido o que parece ter sentido.

Há outro aspecto no raciocínio de Esther que merece ser analisado. Ela diz que precisamos de “um revival do Lula da conciliação, um dejá vu do Lula da concórdia”. Pergunto: será possível fazer este “revival” num contexto tão diferente? Será possível posar de Mister Poppins num ambiente de Mad Max? Ademais, que implicações isto terá no dia seguinte? Ou seja: se esta tática eleitoral tiver êxito, que capacidade terá um futuro governo Lula de fazer as mudanças que precisam ser feitas no país? 

O retrato das pesquisas em maio de 2021 não basta para responder a estas questões. E sem responder estas questões, corremos o risco de viver outro tipo de dejá vu, bem menos agradável do que o Lulinha paz e amor.

Mas mesmo o retrato das pesquisas precisa ser visto em três dimensões. Por exemplo: será mesmo verdade que é o “centro” que está indeciso? Vejamos o dado citado por Solano: “dos 44% dos eleitores que estão à espera de serem conquistados, 60% avaliam o governo Bolsonaro como regular”. Pergunto: com base em que critérios se considera “centro” quem considera este governo como regular???

“Centro” é como certas roupas, combina com tudo, serve para designar qualquer coisa que está entre “nós” e “eles”. Mas quando escavamos um pouco mais fundo, vamos perceber que o buraco está muito mais embaixo: o fato de que parcela importante destes indecisos considerem o governo cavernícola como regular demonstra que muitos estão capturados por valores da direita e da extrema direita. Achar que indo ao centro vamos conquistar esta gente, é o tipo do raciocínio otimista, tão otimista quanto achar que foto com FHC é eleitoralmente útil. Meu raciocínio é exatamente o oposto: existem parcelas do bolsonarismo que só podem ser conquistados por Lula, mas não pelo Lula “centrista”, mas pelo Lula “radical”, radical no sentido de ter cheiro, cara e fala de povo. Pois embora isso desagrade certa esquerda de boutique, uma das razões de Bolsonaro ter vencido é exatamente sua face de “Bolsonaro-senso-comum”.

Haveria outras coisas a dizer, mas como está na hora da manifestação, concluo com o seguinte: o Brasil não é do jeito que é por acaso. Não dá para reclamar da herança da escravidão, do comportamento vira-lata, da falta de democracia, da desigualdade, da precariedade das políticas públicas e, ao mesmo tempo, adotar um jeito de fazer política baseado na lógica do devagar se vai ao longe, cuidado com o andor que o santo é de barro, apressado come cru e outras platitudes conformistas. Pois esta é a ideologia que o andar de cima propõe ao andar de baixo: esperar, esperar, esperar, como o Pedro Pedreiro da música de Chico.

Detalhe importante: não defendo isto porque “gostaria” de “de um Lula mais à esquerda, de um PT mais combativo na agenda ideológica, de uma proposta mais radical”. Não se trata de gostar ou não gostar. Se trata de perceber que tempestades existem. E estamos no meio de uma, gostemos ou não. Quem não perceber isto e optar por agir como em tempos normais, quem preferir não correr riscos e apostar no “centro”, vai acabar descobrindo que não são os indecisos que decidem a história.

Valter Pomar – Historiador, integra a Direção Nacional do PT e leciona Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC.

Artigo publicado originalmente no blog Valter Pomar

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