Sobre os atos de 29 de maio, alguns pitacos:

Foram atos históricos porque reuniram milhões de pessoas, em todas as capitais e em dezenas de cidades. A capilaridade foi tão importante quanto a magnitude.

Foram atos organizados e orgânicos ao mesmo tempo: os partidos não centralizaram a organização, mas tampouco foram coadjuvantes. Era cada um com o seu cartaz, mas a indignação não foi atomizada. Quem vive a política sabe o quanto é difícil reunir essas duas características: organização e organicidade.

Foi uma vitória dos setores mais populares da esquerda e isso talvez tenha sido o efeito político mais importante dos movimentos de hoje.

Me explico: a classe trabalhadora brasileira viveu, com a pandemia, o aprofundamento de uma cisão constitutiva: de um lado, os trabalhadores de serviços mais qualificados e mais organizados que puderam se isolar em “home office” (de professores a funcionários públicos); de outro, a grande maioria da classe que foi obrigada, desde o início, a seguir na rua trabalhando cotidianamente. Basta dizer que as ocupações que mais acumularam mortos nessa pandemia foram empregadas domésticas, pedreiros e entregadores em geral.

Essa cisão entre perfis distintos de trabalhadores se reflete na forma como esquerda debate atos de rua: um setor segue radicalmente contra porque considerava, com razão, um risco diante da necessidade de isolamento ; enquanto o outro tentava argumentar que as pessoas já estavam na rua para trabalhar e não fazia sentido negar o direito dela irem, também, para protestar pela sua vida e dos seus. Esse setor, mais sintonizado com a realidade popular da maioria dos brasileiros, sai fortalecido do sucesso dos atos de hoje e isso é muito bom para esquerda como um todo. Mesmo que tivesse muita gente de “classe média” nos protestos de hoje, não foi deles a primazia da organização. Ao contrário.

Não é à toa que a Coalizão Negra por Direitos era um dos principais organizadores dos atos, ao lado da frente Brasil popular e Povo sem Medo. O movimento negro tem sido um ator fundamental da renovação popular da esquerda brasileira e também sai fortalecido de hoje, ainda bem.

Nessa linha, merece destaque a presença do movimento feminista, expressa nas inconfundíveis e disseminadas referências ao #EleNao

Outro ponto digno de nota foi a presença das torcidas organizadas antifascistas que, desde os atos contra o golpe, vêm se fortalecendo como espaços de sociabilidade alternativa e organização. Mostra a importância de politizar todos os espaços: da igreja à escola, da associação de bairro ao sindicato. Todos os espaços são políticos.

A mídia empresarial tradicional sai muito deslegitinada do processo de hoje, seja porque subestimou erroneamente a sua dimensão; seja porque ficou buscando pretexto inútil para desmoralizalá-lo. Parte desse erro tem a ver com o perfil de classe dos jornalistas, que é o mesmo de parte das lideranças de organização políticas, incluindo os diferentes partidos. Mas cumpre um papel central a linha editorial a favor da saída por cima, com terceira via, mas sem povo. A hipótese da terceira via, nesses termos, também sai enfraquecida de hoje.

Mas o grande derrotado mesmo foi, sem dúvida, Bolsonaro. A seguir nesse ritmo, hoje foi o princípio do fim.

Maria Caramez Carlotto é professora, pesquisadora e militante do PT

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