FLAVIO DINO e sua saída do PCdoB

Flavio Dino está se desfiliando do PCdoB e indo para o PSB.

Está no direito dele. O direito de ir e vir em termos políticos é uma das bandeiras pelas quais lutamos sempre. Viva a liberdade partidária.

Após esta introdução, deixando claro o legítimo direito de Flávio Dino trocar de partido, farei alguns comentários.

O PCdoB completará 100 anos em 2.022. É o único partido no Brasil que tem esse tempo histórico. Nenhum outro partido tem.

Um breve resumo, muito breve mesmo, da história do PCdoB, mostra que ele participou na década de 20 da organização da classe operária, na década de 30 convidou Luiz Carlos Prestes, um dos líderes da Coluna Miguel Costa/Prestes para entrar no Partido.

Luiz Carlos Prestes entrou no PCdoB, ficou como um dos seus principais líderes. Participou da tentativa de revolução a partir dos quartéis em 1.935. Foi preso e ficou durante 10 anos preso, só sendo libertado no final da segunda guerra mundial.

Mesmo na clandestinidade o PCdoB apoiou a ida da FEB e seus pracinhas ao teatro de guerra na Itália, combatendo os fascistas italianos.

Em seguida o PCdoB, talvez devido a sua atuação política de enfrentamento aos fascistas, conseguiu a sua legalidade e participou das eleições tendo conseguido alguns resultados expressivos. Uma grande representação na Câmara de Vereadores de São Paulo, eleição de alguns deputados muito combativos e eleição de Luiz Carlos Prestes como senador. O famoso comício no Pacaembu em que 100 mil operários saíram da praça da República em colunas andando até o estádio do Pacaembu é histórico, até hoje com algumas imagens impressionantes.

Durou pouco a legalidade.

Em 1948 foi colocado na ilegalidade e assim ficou durante o final do governo Dutra, novo governo de Vargas, governo Juscelino, governo Jânio, governo Jango e evidentemente durante toda o período ditatorial. Na ilegalidade houve momentos de maior ou menor repressão política, mas o PCdoB sempre se manteve minimamente estruturado e exercendo alguma influência na política brasileira.

Em 1.961, houve uma pressão para que o PCdoB mudasse de nome, deixasse de se chamar “do Brasil” para se chamar “Brasileiro”. Assim a legalidade seria reconquistada. Era essa a motivação para a mudança do nome.

A maior parte do Comitê Central na ocasião aprovou a mudança de nome, mas uma parte não concordou e continuou a ser o PCdoB. Os dirigentes que não concordaram com a mudança do nome foram, entre outros, Maurício Grabois, João Amazonas e Pedro Pomar. O Brasil passou a ter dois partidos comunistas, o PCB e o PCdoB. Não é o objeto deste texto falar sobre o PCB, que mudou de nome novamente até desaparecer.

O PCdoB, continuou existindo. Com uma linha política talvez mais combativa, mas não o suficiente para evitar novos rachas, como a Ala Vermelha e o PCR.

No movimento estudantil de 1.968, o PCdoB, aliado com a Ação Popular, era uma das grandes forças com lideranças como Luiz Travassos e José Genoíno. As outras forças estavam aglutinadas com a Dissidência do PCB, o próprio PCB e outros grupos.

Uma curiosidade pessoal. Em meados de 1.968 eu participava do Movimento Estudantil na Escola de Engenharia Mauá. Tínhamos um grupo que debatíamos muito e éramos influenciados por alguns militantes do PCdoB, da AP e dos grupos socialistas como a POLOP.

Pois bem, lá um dia fomos convidados a ter uma conversa com um dirigente do PCdoB. Fomos todos nós, cerca de 6 estudantes conversar com esse dirigente do PCdoB num apartamento no centro de São Paulo, onde morava um dos estudantes. Lá estava o dirigente do PCdoB, muito mais velho e experiente do que todos nós. No meio da reunião a campainha tocou. Não era nada demais, algum vizinho ou colega, não me lembro, mas todos ficamos apavorados de ser a repressão política, que já começava a ficar mais violenta. Lembro-me que o dirigente do PCdoB ficou absolutamente calmo e tranquilo.

Passados alguns dias descobrimos que o dirigente do PCdoB era nada mais nada menos que o Pedro Pomar. Ou seja, um membro do Comitê Central do PCdoB, gastava seu tempo com estudantes da classe média. Foi como que uma lição de desprendimento para nós. Lição de que todas as tarefas de organização e conscientização são importantes.

Nenhum daquele grupo ingressou no PCdoB, mas outros estudantes entraram. Parte desses militantes foram para a região do Araguaia, tentar implantar um movimento de resistência a ditadura naquela região. Esse movimento ficou conhecido como a Guerrilha do Araguaia. Cerca de 70 militantes foram mortos na guerrilha do Araguaia, além de pessoas da própria região.

É fácil hoje criticar o erro político daquela decisão do PCdoB. Mas fico quieto. Eles tentaram lutar e foram derrotados. Mas merecem o respeito pela ousadia e determinação.

Pedro Pomar não foi morto na guerrilha. Foi morto já em 1.976, na chacina da Lapa em São Paulo, quando a guerrilha já estava liquidada e o PCdoB estava fazendo uma avaliação política daquele movimento.

Quando da redemocratização no começo da década de 80, o PCdoB conseguiu a sua legalização e registro. A partir daí passou em várias ocasiões a se aliar com o PT nas eleições, conseguindo sempre eleger uma pequena bancada de deputados federais, estaduais e vereadores.

Algumas poucas prefeituras o PCdoB conquistou naquela ocasião, como na cidade de Olinda.

Novamente um depoimento pessoal. Eu me filiei ao PT já na época da fundação em 1.981 e nunca mais saí. Sempre tive um relacionamento amistoso com alguns companheiros do PCdoB. Mas nunca pertenci a esse partido.

Voltando agora ao Flávio Dino. Foi o único governador que o PCdoB elegeu desde a redemocratização.

Não tenho muitos detalhes sobre sua administração no governo do Maranhão, mas as que tenho são extremamente positivas.

Em primeiro lugar conseguiu ser eleito derrotando o grupo político de José Sarney que sempre mandou e desmandou naquele estado.

Foi reeleito em 2.018, mesmo naquela conjuntura de perseguição aos petistas e comunistas.

Tenho a informação, não fui checar em detalhes, mas que os professores do Maranhão são os mais bem pagos do país. Ou seja, Flavio Dino valorizou a principal profissão, a de professor. Sem professores motivados não conseguiremos ter outros profissionais bem preparados.

Um outro indicador que me impressiona é do da pandemia. O Brasil está com uma média de 2.314 mortes por COVID por milhão de habitantes. É a 8ª maior média do mundo. Mas, separando-se por estado temos algumas curiosidades. Rondônia tem 3.293. Rio de Janeiro tem 3.062. São Paulo tem 2.570. Minas Gerais tem 2.034. Qual o estado com a menor taxa no país? Sim, minhas senhoras e meus senhores, é o Maranhão com 1.196 mortes por milhão.

Pode até haver outras explicações, mas tenho a convicção que é graças ao Flavio Dino e ao PCdoB que o Maranhão tem a menor taxa de mortes no Brasil.

E afirmo sem medo de errar que a taxa poderia ser menor ainda não fosse o fato de termos um presidente incompetente, irresponsável, insensível e inconsequente.

Gostaria muito que o PCdoB não tivesse perdido um governador com a competência do Flavio Dino. Ele provavelmente terá uma atuação digna também no PSB.

Mas por tudo e apesar de tudo, gostaria que o PCdoB não se dissolvesse às vésperas de completar o seu centenário, caso único no Brasil. E talvez a saída do Flavio Dino não ajude na comemoração dos 100 anos do PCdoB.

 Michel Labaki, militante do PT e  participante do Filh@s & Net@s SP – DH, Memória, Verdade  e Justiça

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