Porque chegamos até aqui?

“Minha filhinha de poucos meses faleceu. Pedi para o patrão um dinheiro para comprar um caixão para poder enterrar. Fui até a cidade a pé, comprei e voltei, mas quando fui colocar minha filha no caixão, vi que não cabia e um pouco das perninhas ficavam de fora. Voltei ao patrão e pedi para antecipar meu salário para comprar um caixão maior. Ele disse que o melhor era quebrar as pernas da minha filha e dobrar para caber no caixão e fechar, estava morta mesmo. Foi o que tive que fazer.”

Relato de trabalhador de engenho na Paraíba, município de Areia, 1977

No início dos anos 70, o mundo político conhecido estava sendo dizimado. Sindicatos sob intervenção, censura nos meios de comunicação, repressão nas escolas e universidades, uma proibição latente sobre as falas e conversas cotidianas, a polícia e as Forças Armadas onipresentes, a perseguição a políticos e militantes corria subterrânea, a tortura, o assassinato e o desaparecimento de pessoas haviam sido erigidos em política de Estado, o centro mesmo do poder de Estado.

Aqui e ali, nos jornais, manchetes davam notícias de uma guerra distante, aqui mesmo, com títulos como “terrorista morre atropelado”, onde jovens combatentes de causas desconhecidas da população encontravam a morte, de maneira sistemática, seriada, infindável. Em quartéis e em delegacias da polícia política uma barbárie inimaginável corria desimpedida, assassinos cheios de poder exerciam seu sadismo sobre pessoas aprisionadas e esse poder encontrava seu limite apenas diante de corpos sem vida, mutilados, desfigurados, cujos destinos seriam covas clandestinas, sem nome, ou o fundo do mar.

Durante esses anos o país foi governado por presidentes mandantes de assassinatos, que colocavam os limites na vida política através da ameaça, da perseguição, da prisão e da censura, por onde sinalizavam os riscos para o exercício da liberdade individual e coletiva. As elites conviviam bem com essa modalidade de crime organizado no poder, pois seus ganhos estavam garantidos, e as classes médias tinham olhos postos nas novas promessas da sociedade de consumo.

Pelo interior, a violência se abatia acelerada e multiforme, no nordeste as empresas se associavam ao latifúndio para expulsar pequenos arrendatários; no sul, pequenos proprietários sem perspectivas eram levados para a Amazônia para amansar a terra para as grandes empresas; no centro-oeste o trabalho escravo era comum nas grandes fazendas; o território amazônico era rasgado por estradas que no caminho dizimavam povos indígenas, comunidades quilombolas e povos tradicionais.

A migração para os grandes centros era o destino encontrado por milhões de famílias de trabalhadores do campo, que nessas cidades encontravam um trabalho mal pago ou por conta própria e um barraco para morar nas favelas em constante expansão.

A ditadura pós-AI-5 sabia que estava governando sobre um campo instável, tal a violência com a qual se impunha sobre a sociedade. Governar com base na tortura, no assassinato, na perseguição, na censura da imprensa, da academia e das artes, da espoliação e do saque, militares experimentados sabiam que seria necessário uma retirada lenta, gradual e segura deste lugar de poder para um outro, onde a tutela sobre o Estado fosse mantida e seus crimes não fossem investigados.

Na sociedade, uma nova rede de articulações começava a ser lentamente construída. A ausência de referência e de atuação política das instituições então existentes fez com que da própria sociedade fossem surgindo iniciativas no sentido da afirmação de direitos, tanto nas periferias urbanas como nas áreas rurais; nas favelas, nas fábricas e nos bairros operários; nos latifúndios ou nas matas amazônicas; entre comunidades indígenas, quilombolas e povos tradicionais, assim como em núcleos de estudantes nas escolas e universidades e no meio cultural.

A Igreja Católica, além de algumas igrejas históricas, como a Igreja Luterana, tiveram aqui um papel relevante, no sentido de abrigar iniciativas que caminhavam na direção da afirmação de direitos, assim como na construção de espaços de reflexão acerca da situação política então existente, apontando para possibilidades de futuro. Lutas por terra e território, lutas por moradia e transporte, lutas por creches e escolas, lutas por salário e condições de trabalho, lutas por postos de saúde e hospitais, todas essas lutas foram tomando forma e proporção, inicialmente abrigadas em salas das igrejas, em seguida projetando-se no espaço público.

Os novos articuladores dessas iniciativas e seus aliados foram aos poucos se conectando, em nível local como nacional, conformando redes subterrâneas que, cada vez mais, refletiam politicamente sobre o país, sobre a história, sobre a ditadura, sobre política e sobre os caminhos possíveis para a reconstrução da democracia.

Tais redes deram origem a uma diversidade enorme de movimentos populares e sindicais, rurais e urbanos, assim como experiências de comunicação popular autônomas, sempre com muita capilaridade social e com influência na constituição de novas visões de mundo.

Nada disso se desenvolveu, no entanto, sem conseqüências para os grupos que encaminhavam essas iniciativas, envolvendo assassinatos de jovens lideranças, ameaças e perseguição feroz, por parte de fazendeiros, políticos vinculados à ditadura ou por parte do poder de Estado, por policiais civis e militares ou por juízes.

Importante notar que a brutalidade exercida pela ditadura nas salas de tortura dos quartéis era complementada com a brutalidade exercida por particulares ou por outros agentes do poder público. A intolerância com relação aos movimentos populares e sindicais era absoluta, sendo que a sua criminalização era legitimada pelos meios de comunicação.

O protagonismo dos movimentos populares e sindicais

A partir do final dos anos 70 até a primeira metade dos anos 80 essa rede de coletivos espalhada pelo país se manifesta de forma organizada, realizando ocupações de terra, greves, manifestações nas cidades, passeatas, protestos frente a prédios públicos, publicando manifestos e pressionando câmaras municipais e estaduais, governadores e autoridades federais. Os movimentos populares e sindicais, o movimento estudantil, os movimentos do campo nas suas múltiplas formas, se organizam e passam a exercer um grande protagonismo político.

Neste momento os militares passam a realizar um movimento organizado de retirada do centro da cena pública, buscando dar espaço para sua continuidade em mãos civis, o que culmina com a realização das eleições para presidente da República pelo Colégio Eleitoral, em janeiro de 1985.

Essa transição, conduzida por uma composição sob a hegemonia de setores civis da ditadura, não coloca na agenda política o debate e julgamento dos crimes perpetrados pelos militares e pelos policiais civis e militares: a tortura, os assassinatos, os desaparecimentos, as perseguições, as vidas destruídas. Os criminosos mantiveram suas carreiras e foram inclusive promovidos; a Lei de Anistia de 1979 funcionou como um acobertamento, até legitimação, da barbárie instalada por décadas, com seus autores inimputáveis e, inclusive, justificados em seus crimes de lesa-humanidade.

Entre 1986 e 1988 tivemos o Congresso Constituinte, para onde confluiu uma imensa e diversa onda popular, que incidiu nos debates parlamentares, nas comissões específicas como no plenário, e conseguiu avanços significativos na nova carta constitucional, com o reconhecimento de inúmeros direitos políticos e sociais, marcadamente o direito à participação da sociedade em todos os temas do Estado e da gestão pública que fossem de seu interesse.

Em 1989 tivemos a primeira eleição presidencial após a ditadura, marcada pela força da mobilização social em torno da candidatura Lula, que dava continuidade aos movimentos populares que surgiram durante os anos de repressão e que incidiram na elaboração da Constituição de 1988, mas também marcada pela manipulação midiática do debate eleitoral. O presidente eleito, Fernando Collor, com origem na oligarquia nordestina, renova a legitimação da ditadura, assim como de suas práticas criminosas, mantendo intacta a impunidade e elevando a novo patamar a anistia unilateral e a barbárie por ela acobertada.

O presidente eleito pela grossa manipulação e pela derrota do que havia de mais vital na sociedade brasileira foi, por sua vez, derrotado num processo de impeachment no qual esta mesma vitalidade mobilizada teve um papel fundamental. O governo do vice-presidente Itamar Franco,          que se seguiu, não esboçou autocrítica do seu passado, apenas continuou, legitimado por novas articulações políticas que lhe deram fôlego.

Os governos Fernando Henrique Cardoso aprofundaram as desigualdades sociais e regionais do país, fizeram o elogio do Estado mínimo, o menosprezo dos movimentos pela transformação social, buscaram desqualificar as lutas populares, a partir da sua articulação com o imperialismo e com suas teses ideológicas do “fim da história”.

Neste período, no entanto, partidos de esquerda ocuparam parcelas significativas da institucionalidade, aqui compreendida por governos municipais e estaduais, câmaras municipais e assembléias legislativas, espaços em ministérios e no Congresso Nacional.

Apesar disso, a agenda da esquerda institucionalizada não contemplava a crítica frontal ao neoliberalismo, assim como ia deixando cada vez mais distante a memória dos crimes da ditadura, da barbárie vivida ao longo de 21 anos pela sociedade brasileira, evitava sequer pensar na identificação e responsabilização dos criminosos, cujas carreiras já seguiam para a aposentadoria paga com recursos públicos. As teses nefastas do neoliberalismo, assim como as práticas criminosas da ditadura seguiram intocadas para a sociedade.

Assim chegamos aos anos de governo do Partido dos Trabalhadores.

Os governos Lula e Dilma

Por mais que tenha apostado na institucionalidade e na governabilidade, como estratégia para chegar e para se manter no poder, os governos do Partido dos Trabalhadores carregavam na sua história, nos seus nomes de referência, nas suas políticas públicas, tudo aquilo que décadas de conservadorismo mais odiavam, um ódio de classe que antecedia a própria ditadura e deitava raízes em todos os golpes da história brasileira do século XX.

Os dois governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foram marcados pela busca da governabilidade, pelo equilíbrio das contas públicas, pelo atendimento de diversas demandas populares, pelo combate à fome e à miséria, mas também por evitar o acirramento de conflitos com as elites, contemplando suas demandas, particularmente das elites financeiras e de setores monopolizados, como dos meios de comunicação, com a rede Globo.

Ao mesmo tempo, os governos Lula estimularam a participação social, através de inúmeras conferências que debatiam e formulavam propostas de políticas públicas, e o presidente se dedicava permanentemente ao diálogo com os mais variados segmentos sociais, inclusive com os mais invisibilizados e vulneráveis, como povos indígenas, comunidades quilombolas, catadores de materiais recicláveis e população de rua.

Os processos de participação social e os diálogos com a sociedade fizeram com que, naquele período, ocorressem avanços significativos nas políticas públicas, tanto nos territórios rurais como urbanos, ao mesmo tempo em que se buscava evitar tensionamento com as elites do país.

Os dois governos, com o segundo interrompido pelo golpe, da presidenta Dilma Vana Rousseff, foram marcados pela continuidade das políticas públicas do governo Lula; pela participação social ampliada, com a criação da Política Nacional de Participação Social e, inclusive, com avanços na construção participativa do orçamento público federal; pela ênfase no processo desenvolvimentista e na eficiência da gestão pública; pelo tensionamento com as elites financeiras, mas também com uma redução do diálogo direto, fosse com os segmentos sociais mais invisibilizados e vulneráveis, fosse também com os setores das elites mais reacionárias.

O conjunto dos quatro governos, de Lula e Dilma, significou uma melhoria significativa nas condições de vida do povo brasileiro, em muitos de seus aspectos: no emprego, saúde, educação, acesso à universidade, moradia, transporte, acesso à terra e ao território, ao consumo, ao lazer e à cultura e a um número muito grande de políticas públicas específicas, muitas resultantes dos processos conferenciais e dos diálogos que foram realizados junto aos ministérios ou à própria presidência da República.

Em 18 de novembro de 2011, através da Lei 12528/2011, durante o governo da presidenta Dilma Rousseff, foi criada a Comissão Nacional da Verdade (CNV), composta por um grupo de personalidades reconhecidas pela sociedade civil brasileira, com o objetivo de “apurar graves violações de Direitos Humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988”. O fato desta Comissão ter como missão investigar, entre outros, os crimes cometidos pela ditadura de 1964 a 1985, fez com que setores militares de alta patente, da reserva e da ativa, se indignassem e se dedicassem a participar, de maneira mais explícita, das articulações para a derrubada da presidenta Dilma através de um impeachment fraudulento. Torturadores e assassinos, como Carlos      Brilhante Ustra, são, para um grupo de militares brasileiros, heróis que não podem ser investigados; por outro lado centenas de militantes que sofreram torturas e que tiveram seus corpos desaparecidos não merecem ter suas histórias resgatadas e esclarecidas.

Aqui reside o limite das transições políticas no Brasil: a verdade histórica não pode ser reconstituída e a sociedade não pode conhecer nem refletir sobre o processo que vivenciou e sofreu, pois sua busca pela verdade se encontra interditada pela vontade daqueles que se consideram tutores do Estado brasileiro, os militares e as elites a quem servem.

Sem essa recuperação da verdade histórica e sem nenhuma conseqüência para aqueles que cometeram crimes, em cada transição a sociedade brasileira ciclicamente mantém intacto todo o potencial de violências ocorridas no período anterior, com sua carga ideológica; com a sua intolerância; com seus crimes e autores impunes, sempre prestes a retornar com um ímpeto destrutivo ainda maior.

Perspectivas inaceitáveis para as elites

Claro que existia uma distância grande entre o que os movimentos sociais organizados reivindicavam e o que era realizado pelos governos Lula e Dilma, por exemplo, com relação à reforma agrária; com relação à construção de moradias populares; com relação às políticas urbanas; com relação à demarcação de terras indígenas; com relação aos atingidos por barragens; com relação ao apoio às rádios comunitárias; com relação ao  encaminhamento das questões financeiras do Estado etc

No entanto, a perspectiva era do processo de participação social e das demandas populares continuarem exercendo pressão sobre os governos do Partido dos Trabalhadores, e a tendência era destes continuarem sendo eleitos, pelo menos pelas próximas eleições presidenciais, de 2018 em diante. Neste contexto armou-se o golpe de Estado de 2016, com a finalidade de impedir a continuidade dos governos petistas e, inclusive, com a intenção de cassar o registro do Partido dos Trabalhadores.

Realmente, a perspectiva de uma sucessão de governos progressistas tornou-se intolerável para as elites políticas e econômicas do Brasil. Como aceitar que cada vez mais terras continuassem sendo colocadas fora do mercado e reconhecidas como territórios de povos tradicionais ou áreas de preservação ambiental? Como aceitar que recursos públicos fossem direcionados para áreas como saúde, educação, políticas públicas urbanas ou para a agricultura familiar e não para contemplar os juros? Como aceitar que continuasse uma articulação entre países latinoamericanos e africanos, com o Brasil como protagonista, e não a antiga subserviência aos EUA? Como aceitar a presença cada vez maior de jovens negros e indígenas nas universidades? Como aceitar um conjunto cada vez maior de políticas públicas que beneficiavam trabalhadores, mulheres, população negra, LGBTs, população de rua, pessoas com deficiência?

As elites financeiras e políticas criaram um mote, repetido com insistência obsessiva pelos editoriais e articulistas, porta-vozes desses setores nas mídias comerciais e nas redes sociais: “a Constituição Federal não cabe no Orçamento da União.” Segundo estes setores, na Constituição cabe apenas o pagamento de juros para o capital financeiro, para a sociedade cabe o teto de gastos, o que foi viabilizado com o golpe.

Um país diferente daquele das elites emergia, muito lentamente, mas, principalmente era possível projetá-lo no tempo, fosse este dez ou vinte anos, mas estava em curso. Era necessário bloqueá-lo, interditá-lo, abortá-lo, então um imenso consenso firmou-se entre todas as elites do país, as elites financeiras, as oligarquias da comunicação, as elites jurídicas, as elites políticas, setores militares, que facilmente trouxeram as classes médias assustadas com a emergência, tímida porém constante, das classes populares: era necessário um golpe travestido explicitamente de “impeachment”, para recolocar o país na sua trajetória secular. E um processo eivado de mentiras, um jogo bruto de cartas marcadas foi feito, para retirar a presidenta Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores do governo federal.

Como tudo era válido no processo de afastamento da presidenta, foram validadas as manifestações pela volta da ditadura; as atitudes racistas; machistas, anti-povo, anti-pobre, anti-indígena, anti-cultura, anti qualquer coisa que lembrasse os anos de construção civilizatória que realizou o poder em mãos progressistas. Essa avalanche de ódio e reacionarismo trouxe para o centro da cena política a defesa de tudo o que a sociedade brasileira havia deixado de refletir, debater, elaborar e superar ao longo de um século de República: a escravidão, o latifúndio, as ditaduras, a tortura, a violência policial, a violência contra a mulher, a exploração e as diferenças de classe, as diferenças regionais, as diferenças culturais, as diferenças religiosas. Os propagadores do ódio se tornaram os protagonistas políticos a construir uma perspectiva de intolerância e de regressão para a sociedade brasileira.

Este processo perpassou o impeachment da presidenta Dilma e continuou, levando até o processo eleitoral de 2018 e a eleição de um personagem absolutamente sórdido, como o atual presidente, ao poder central.

Para tanto, o poder político, o poder judiciário, o poder militar e o poder dos meios de comunicação se fundiram num único bloco com decisão de agir, tirando o presidente Lula do processo eleitoral para facilitar e garantir a vitória do protagonista principal do ódio cego a tudo o que lembrasse a valores da democracia.

Uma estratégia foi intensivamente utilizada durante todo este processo: as fakenews. Como a realidade pura e simples torna difícil manter as narrativas ou afirmações da extrema direita, tanto no processo eleitoral como fora dele, então se lança mão de uma estratégia deliberada de uso da mentira para fazer valer seus pontos de vista. Criou-se um mundo paralelo e falsificado, tanto para legitimar os processos judiciais perante a opinião pública, como para se respaldar o ódio, a violência e, principalmente, para direcionar de maneira fraudulenta o debate eleitoral. Os grandes meios de comunicação se associaram aos laboratórios de fabricação de mentiras da extrema direita e com eles levaram a cabo a vitória eleitoral do fascismo e a estigmatização dos setores progressistas. Importante ressaltar que a prática de utilização das fakenews nos embates políticos e eleitorais é algo estabelecido no modo de atuar da extrema direita em todo o mundo.

O governo Bolsonaro

O governo Bolsonaro tem dado continuidade ao uso das fakenews ao longo deste seu turbulento período, manipulando dados falsos e versões falsas de acontecimentos para se blindar de processos políticos e para manter sua base política e ideológica coesa e alimentada com versões convenientes da realidade social e política. Utilizando-se dos instrumentos de comunicação e das redes sociais, o governo Bolsonaro propaga o ódio e a destruição sistemática dos valores humanos e das construções civilizatórias para impor sua visão de mundo.

Aqui, Bolsonaro reflete uma visão de mundo que corresponde a uma classe social predatória, desumana, perversa, herdeira ideológica das velhas oligarquias escravagistas, acostumadas a açoitar trabalhadores, a dar ordem para matá-los, a explorá-los ao extremo, a mantê-los na miséria, a não respeitar seus direitos, a não reconhecê-los como seres humanos. Essa visão de mundo, que sinaliza para a falência de valores, encontra sinergia com um segmento da sociedade brasileira que se orgulha da sua brutalidade e ignorância tanto quanto um torturador se orgulha de sua covardia, diante de sua vítima.

Ao longo deste período de pandemia, Bolsonaro deu mostras de sobra da sua frieza diante do sofrimento e da morte, revelou sua mente assassina quando apostou repetidamente na proliferação do vírus, na multiplicação de infectados e de mortos como estratégia para ultrapassar “normalmente” a doença. Recusou todas as possibilidades de enfrentamento da pandemia que evitassem sofrimento, perda de vidas, por exemplo com as vacinas, para optar pelo seu oposto, associando-se ao vírus para potencializar seu efeito devastador, disseminando dor e morte.

O governo Bolsonaro constrói a radicalidade destrutiva, exalta a perversão e a morte do outro, do diferente, cultua o crime, estimula a violência, promove a desumanidade e a ausência de limites éticos em todos os âmbitos, como sendo esta a “liberdade” desejada.

A extrema direita conseguiu algo inimaginável no Brasil: levou à presidência da República um representante assumido dos torturadores, dos assassinos de presos políticos, criminosos do Estado brasileiro; ao mesmo tempo um representante assumido dos criminosos presentes na sociedade brasileira, garimpeiros, madeireiros, latifundiários, grileiros, invasores de terras indígenas, milicianos das periferias.

Algo para se destacar, mas não tanto para se surpreender, é a imensa benevolência com que as elites brasileiras trataram sempre, e ainda tratam, esse defensor e representante de criminosos de todo tipo. A paciência e o respeito que nunca tiveram com setores de esquerda, com progressistas, ou com os movimentos sociais do campo e da cidade, as elites políticas, financeiras, judiciais, dos meios de comunicação e religiosas, têm de sobra com essa figura letal, cujo objetivo, também declarado publicamente, é destruir o que puder e não construir nada.

Da resistência popular à retomada da ofensiva política

Importante ressaltar que desde o golpe contra a democracia, com o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, passando pelo governo de Michel Temer, até o atual governo de extrema direita, os movimentos populares do campo e da cidade; os estudantes; as entidades da sociedade civil; os partidos de esquerda, nunca deixaram de construir a resistência nos territórios; nos locais de trabalho; nas mídias alternativas; nas instituições públicas; nas redes sociais, defendendo a Constituição de 1988 e os direitos sociais e individuais e buscando proteger as políticas públicas conquistadas.

Dentro do campo progressista havia um posicionamento contrário à realização de mobilizações sociais, devido à pandemia da Covid-19, com a necessidade de não se fazer aglomerações e de se promover o distanciamento social, fragilizando a ocupação massiva das ruas. No entanto, a necessidade de enfrentamento do fascismo e da destruição do país cresceu tanto que tornou-se um imperativo a unidade cada vez maior das forças populares e de esquerda e a manifestação cada vez maior nas ruas pelos setores organizados da sociedade, com o grito coletivo pelo #ForaBolsonaro, Vacina Já e Auxílio Emergencial de 600 reais.

Essa manifestação cresceu cada vez mais, mostrando sua força nas amplas mobilizações sociais de 29 de maio e de 19 de junho, com milhares de pessoas ocupando as ruas e exigindo a saída do presidente da República. A dimensão destes protestos repercutiu nas mídias comerciais e na política institucional e promete ter um impacto sempre maior, com a indignação que se amplia a partir das denúncias de corrupção que surgem nos depoimentos feitos no âmbito da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federal sobre as medidas tomadas a respeito da Covid-19.

Conclusão

Fica um desafio para a sociedade brasileira, particularmente para os setores comprometidos com a transformação social a partir de valores de justiça, igualdade e soberania: como desconstruir esse processo perverso e regressivo atual, estabelecido no centro do poder político e que reflete uma parcela da própria sociedade?

Torna-se, hoje, fundamental que a sociedade brasileira busque encarar a nossa história, as nossas verdades não ditas, escondidas, negadas, esquecidas, deturpadas; encarar os falsos heróis, muitas vezes apenas assassinos; as falsas guerras, muitas vezes pilhagens covardes; os falsos estadistas, muitas vezes personagens torpes.

Fundamental voltar a pesquisar a história e debater eventos estruturantes da nossa sociedade e do nosso Estado: o genocídio dos povos indígenas; os quase quatrocentos anos de escravidão; a exploração impiedosa dos imigrantes, nos campos e nas fábricas; os ciclos de ditadura feitos de injustiça, crimes e brutalidade; a insensibilidade de elites sem nenhum compromisso com a nação e com o nosso futuro.

Fundamental, finalmente, debater com mais profundidade o passado recente, a última ditadura, desde suas origens até seu final, lançando luz sobre seus protagonistas militares e civis; sobre a sucessão de crimes cometidos; sobre a destruição de projetos e sonhos coletivos, longamente amadurecidos e possíveis, retomando a busca pela localização de todos os desaparecidos políticos e a responsabilização dos assassinos e mandantes.

Apenas o reencontro do país consigo próprio, com suas duras verdades, tão negadas e excluídas do debate público, pode permitir que reconheçamos nossos mecanismos de repetição do passado e também os caminhos possíveis para sua superação.

Luta social organizada; ocupação massiva dos espaços públicos; mobilização da juventude; debate aberto acerca de todas as feridas históricas, antigas e recentes; mobilização intensa das artes, da cultura, das escolas e universidades com o objetivo de debater e compreender a nossa história e a nossa sociedade; utilização plena dos meios digitais para aprofundar e multiplicar esses processos, tudo é válido e necessário para que a sociedade brasileira encare a si mesma e reoriente nosso futuro, superando este tempo dilacerante em que hoje estamos imersos.

Paulo Maldos é psicólogo, conselheiro do Conselho Federal de Psicologia (CFP), trabalhou com povos e organizações indígenas de todo o país; foi secretário Nacional de Articulação Social da Secretaria Geral da Presidência da República (2010-2014) e secretário Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (2015-2016).

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on telegram
Telegram
Share on whatsapp
WhatsApp

Deixe um comentário