Nota infame dos militares afronta poder civil e encobre gangues corruptas

A nota assinada pelo general-ministro da Defesa e comandantes da Marinha, Exército e Aeronáutica é despropositada e intolerável:

1. é totalmente absurdo e impróprio, à luz da Constituição e da Lei Complementar 97/1999, que comandantes das Forças Armadas se manifestem politicamente e assinem libelo político de ataque a outro Poder da República;

2. reforça que as Forças Armadas atuam como facção político-partidária do governo militar, não como instituição permanente de Estado;

3. aprofunda a participação ilegal e inconstitucional das Forças Armadas, em especial do Exército, no jogo político;

4. é uma ameaça de escalada de confronto armado com o poder político no momento em que o governo militar sangra e se afoga no oceano de corrupção e morticínio; e

5. tem o objetivo de intimidar o poder civil e as instituições civis, em especial o Congresso Nacional.

Esta infame manifestação dos militares também pode ser lida como sinal de fraqueza. Com a evocação da presença das Forças Armadas na política, o governo militar apela para ostentar força e poder ante a evolução da crise de legitimidade e a crescente desmoralização do regime.

A corrupção em escala bilionária no ministério da Saúde deu-se sob o comando de ninguém menos que um general da ativa do Exército brasileiro. Eduardo Pazuello infestou o ministério com dezenas de militares em postos de natureza civil e firmou um consórcio criminoso com uma gangue civil para roubar dinheiro público e dividir o butim sob o pretexto de adquirir vacinas.

A omissão dos signatários da nota sobre esta corrupção bilionária e o esquema mafioso de civis e militares no ministério da Saúde comandado pelo general da ativa do Exército mostra, no mínimo, conivência com a corrupção e preocupação em proteger gangues corruptas.

Não causa estranheza, por isso, que o comandante do Exército que assina a nota de ameaça e intimidação do Senado Federal tenha livrado a cara do transgressor general Pazuello que participou de ato político-partidário e eleitoral do Bolsonaro.

A bola, agora, está com o poder político, com as instituições civis, com os partidos políticos e organizações democráticas da sociedade brasileira.

Se não tiver uma reação contundente dos civis, os militares interpretarão isso ou [1] como consentimento/indiferença passiva; ou como [2] medo do poder fardado. Em quaisquer dessas hipóteses, o governo militar não hesitará em escalar novos degraus rumo a um regime fascista-militar.

Jeferson Miola     

Publicado originalmente no blog Jeferson Miola

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on telegram
Telegram
Share on whatsapp
WhatsApp

Deixe um comentário