Partido militar vestiu a carapuça

O presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz, criticou os “membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do governo”. 

Aziz também falou também que os “bons” das Forças Armadas devem estar “muito envergonhados”.

Tinha uma carapuça voando.

Adivinhem quem vestiu a carapuça?

Os quatro comandantes militares!

Em nota oficial, o Ministro de Estado da Defesa e os Comandantes da Marinha do Brasil, do Exército Brasileiro e da Força Aérea Brasileira repudiaram “veementemente” as declarações do Senador Omar Aziz, “desrespeitando as Forças Armadas e generalizando esquemas de corrupção”.

Cá entre nós, Omar Aziz não generalizou nada.

Limitou-se a atacar o “lado podre”.

E ainda preservou a cara dos “bons”.

Se os quatro comandantes acham que essa “narrativa, afastada dos fatos, atinge as Forças Armadas de forma vil e leviana, tratando-se de uma acusação grave, infundada e, sobretudo, irresponsável”, só há duas possibilidades lógicas:

1/ou bem eles acham que todos os militares são bons e nenhum é podre;

2/ou bem eles acham que todos os militares são podres e nenhum é bom.

Deste ângulo, a “nota oficial” faz lembrar a (tardia) afirmação de Ulysses Guimarães sobre os “três patetas” que compunham a Junta Militar.

Mas obviamente a coisa é muito mais grave do que um ato falho.

O que os militares estão reiterando é que não aceitarão nenhuma investigação civil sobre os crimes cometidos pelos militares.

Não aceitaram a investigação dos crimes cometidos na época da Ditadura.

E não aceitam a investigação dos crimes cometidos durante o governo Bolsonaro, especialmente no combate à pandemia.

Para eles, os crimes cometidos pelos militares só podem ser julgados pela justiça militar. 

E a justiça militar, como sabemos, é particularmente cega.

Mas nisso também não há novidade: as forças armadas se consideram “instituições permanentes” especiais, a quem caberia tutelar as demais e manter o povo sob vigilância e controle.

Claro que há pessoas na esquerda que têm memória curta e esquecem que as forças armadas são como aqueles serial killer de filme policial: enquanto não forem detidos, seguirão cometendo seus crimes. 

A “novidade” está no tom quase histérico da nota.

O que indica que o “partido militar” está sentindo a água bater na bunda.

Motivos existem, entre os quais não ser possível miminizar meio milhão de mortos.

E a política defendida e sustentada pelo partido militar – incluindo aí Bolsonaro, Mourão, Pazuello e todos  os militares que estão no governo, inclusive no ministério da Saúde, alguns participando de negociatas – é diretamente responsável por grande parte destas mortes.

Estes são os fatos, que confirmam que as forças armadas não estão de joelhos perante Bolsonaro, cumprindo contrafeitas as determinações do cavernícola

A verdade é outra: as forças armadas e Bolsonaro estão com o joelho posto no pescoço do povo brasileiro. 

Para tirar Bolsonaro, teremos que derrotar também o Partido Militar.

E se não quisermos novos golpes e novos crimes sem punição, precisaremos reestruturar completamente as forças armadas.

Pois estas que estão aí são uma ameaça permanente contra a democracia e a liberdade do povo brasileiro.

Valter Pomar é professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC, membro do Diretório Nacional do PT e diretor da Fundação Perseu Abramo. Historiador, foi secretário de Cultura em Campinas (2001-2004), secretário de Relações Internacionais do PT (2005-2010) e secretário-executivo do Foro de São Paulo (2005-2013).

https://www.gov.br/defesa/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/nota-oficial-1

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