“A estratégia petista e a luta pelo socialismo no Brasil”

Segue abaixo o roteiro de fala não revisado de Maria Carlotto, feito no “Encontro nacional livre” no debate sobre “a estratégia petista e a luta pelo socialismo no Brasil”.

  • Eu queria começar agradecendo à organização do Encontro Livre pelo convite para falar nessa mesa com Valter Pomar e Tiago Soares. Mais do que isso, queria saudar a iniciativa de promover um debate sobre um tema tão importante e, ao mesmo tempo, tão difícil: a necessidade de debater e estabelecer uma estratégia com o objetivo de construir uma nova sociedade, uma sociedade socialista.
  • Eu digo que esse tema é importante e difícil porque parto do diagnóstico de que, para conseguir níveis mínimos de igualdade – igualdade política, social e material, de raça, classe e gênero – é imprescindível romper com os marcos da sociedade atual para construir uma nova sociedade, ou seja, é necessário transformar profundamente a sociedade capitalista em que vivemos na direção de uma sociedade socialista. Porém, construir uma nova sociedade não é uma tarefa simples. Muito pelo contrário.
  • Se partimos de um ponto de vista materialista, sabemos que a sociedade antecede, lógica e historicamente, os indivíduos. Significa dizer que uma determinada sociedade “socializa” os indivíduos à sua imagem e semelhança. Ou seja, os indivíduos tendem a pensar essa sociedade com as categorias que essa mesma sociedade produz, gerando um efeito de “naturalização” das injustiças, contradições e limitações sociais.
  • No caso da sociedade capitalista, por exemplo, seguindo-se o curso normal das coisas, tendemos a naturalizar a propriedade privada, o trabalho assalariado, a exploração. Cada um segundo suas possibilidades é aparece como lei sagrada.
  • Esse é um tem muito central para a teoria social crítica. Marx dedicou muito tempo para explicar o processo de alienação e o fetichismo da mercadoria que nada mais é do que o processo ideológico pelo qual a gente tende a naturalizar a sociedade capitalista burguesa e suas formas de exploração, imaginando, assim, que essa é a única sociedade possível.
  • O sociólogo francês Pierre Bourdieu também se dedicou muito a esse problema, o que ele denominou de violência simbólica: o processo pelo qual os dominados enxergam o mundo com as categorias dos dominantes, achando que cada um está no lugar que merece.
  • Mais recentemente, Mark Fisher dedicou-se à análise do realismo capitalista: “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, por maior que seja a sua crise.
  • É por isso que o tema da estratégia socialista é tão importante quanto difícil: importante porque dela depende a possibilidade de atingirmos nosso objetivo – produzir uma sociedade mais justa e mais igual; e difícil porque a engrenagem da dominação é muito pesada e opera sobre a nossa visão de mundo a ponto de nos fazer crer que essa luta é vã.  Em suma: tudo conspira para a preservação do status quo.
  • Por isso, meu ponto aqui nesta fala de hoje é que a própria discussão sobre a construção de uma estratégia socialista deve ser objeto de uma disputa estratégica.
  • Mais do que um jogo de palavras o que quero propor é que a construção de uma estratégia pressupõe assumir uma perspectiva de luta de longo prazo, assumir a aposta de que é possível, através da ação política, transformar radicalmente a sociedade em que vivemos numa determinada direção, Mas, para isso, é importante acreditar que tal transformação seja possível e que, portanto, vale a pena projetar a ação política com base não só em disputas táticas conjunturais, de curto prazo, por mais importante que elas sejam.
  • Em outras palavras: o compromisso com a transformação profunda da sociedade exige de nós, enquanto atores políticos organizados em um partido, o compromisso constante não só com uma transformação social radical em si mesma, como também com a percepção de que essa transformação é possível.
  • A percepção de que uma transformação social radical é possível ou, se quisermos, a crença na possibilidade de uma revolução, depende do horizonte de possibilidade com que operamos. O que, como militantes, imaginamos ser possível.
  • Esse é um tema muito importante na luta política. Não é por acaso que o neoliberalismo dos anos 1990 se afirmou, nos escombros do socialismo soviético com o mantra: “não existe alternativa “(There is no alternative). Também não é por acaso que o fórum social mundial de porto alegre abriu caminho para os governos progressistas da América Latina com o lema oposto: “um outro mundo é possível”.
  • É justamente por ser essa uma questão tão importante que o neoliberalismo autoritário vai atacar a esquerda socialista justamente por sua aposta na possibilidade de construir, através da ação política organizada, uma outra sociedade.
  • Vamos lembrar que F. Hayek, um dos ideólogos do neoliberalismo, chamava essa aposta de “a arrogância fatal”, título de um dos seus livros cujo subtítulo é “os erros do socialismo”. Ou seja, para ele, o grande problema do socialismo e dos socialistas é a sua arrogância: os socialistas são arrogantes por pensar que é possível projetar e construir, através da política, uma sociedade diferente. O resultado desses “experimentos”, segundo Hayek, é necessariamente catastrófico, de modo que devemos deixar a sociedade seguir o seu curso natural: de um lado, o livre mercado; de outro, as tradições históricas remotas, do patriarcalismo ao racismo, passando pelo conservadorismo e pela religião. É tudo “natural”, não pode ser diferente.
  • É interessante que a cientista política norte-americana Wendy Brown procura mostrar, no seu último livro, que neoliberalismo autoritário, que une o livre mercado com o conservadorismo no estilo Trump e Bolsonaro, se voltam de modo radical contra qualquer possibilidade de usar a política para projetar novas formas de viver. Ou seja, a sua grande operação política é, no meio de uma profunda crise sistêmica, fechar o horizonte de possibilidades de modo que o que resta é apenas uma luta brutal pela sobrevivência, uma vez que perdemos a nossa capacidade, humana, de imaginar outras sociedades, de definir como queremos viver, naturalizados, abrutalhados: entendemos o apelo de figuras como os vikings armados que invadiram o capitólio: não sobra nada, só a tradição. Deus, família, armas e, claro, o capital.
  • Em resumo: existe uma importante luta política que se trava simplesmente em torno da possibilidade de operar com um horizonte aberto de possibilidades para a construção de novas sociedades, em oposição à ideia de que somos fadados a viver eternamente no capitalismo.
  • Vemos esse desafio constantemente, inclusive dentro da esquerda. Os realistas e estão constantemente nos lembrando dos limites da luta política e, em nome de um pragmatismo que dispensa a reflexão estratégica, nos aprisionam constantemente
  • O PT nasceu contra os pragmáticos realistas. Foi capaz de operar uma transformação importante no cenário político brasileiro porque se negou a trabalhar no horizonte de possibilidade da política institucional imposta pela transição pactuada e foi capaz de inovar, de inventar, de criar novos caminhos que ninguém enxergava: a criação de um novo partido, genuinamente popular, liderado pelo movimento operário e social, socialista e democrático. Isso levou o partido a discutir estratégia, porque tinha um horizonte de possibilidades aberto e se projetou uma luta de longo prazo.
  • Para isso, é fundamental um diagnóstico da sociedade que opere uma análise das suas contradições; uma ação no sentido de formar militantes capazes de agir nas brechas abertas por essas mesmas contradições; submeter a tática de curto prazo à ação estratégica de longo prazo. É agir como um partido que não se limita aos marcos estabelecidos mas cria espaços novos de ação; inova, ousa, tensiona; mobiliza para ir além.

E assim que o texto de Tiago Soares seja recebido, o mesmo será publicado.

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