O necessário aumento da produtividade da mão de obra rural

Quando se fala de aumento da produtividade da mão de obra rural, alguns estudos com viés econômico tendem a abordar, apenas ou principalmente, tecnologias poupadoras de mão de obra, que na realidade diminuem o uso de mão de obra por área ou por quantidade de produto obtido da atividade, pelo uso de máquinas, implementos e insumos. Em geral, estes estudos concluem que a eficiência da mão de obra aumenta com o tamanho da propriedade, pois os maiores produtores adotam mais rapidamente e intensamente o uso de máquinas e equipamentos, cada vez maiores e mais caros, que dependem para sua adoção da economia de escala. Ou seja, um pequeno sitiante nunca poderá comprar uma colheitadeira de cana, que substitui o trabalho de 80 a 100 colhedores humanos, para fazer a colheita de seus poucos metros quadrados usados para alimentar seu alambique, ou fazer a rapadura, ou mesmo servir no cocho para seus animais. Ela foi desenvolvida só para os grandes.

Vemos aí um círculo vicioso, a tecnologia, as máquinas, os insumos e os métodos de manejo são pensados para grandes proprietários, donos de terra e capital, e para eles são encontradas soluções que se consubstanciam em inovações, que são adotadas por aqueles que podem. Isso aumenta sua eficiência relativa e comprova, nesse sistema, que só os grandes são eficientes. Cada vez mais aprofunda-se a desigualdade entre grandes e pequenos produtores e distancia-se a tecnologia do alcance dos mais necessitados.

O exemplo da vez, menina dos olhos dos gestores mais interessados em moda, manchete e indicadores de que com pessoas, é a agricultura 5.0, que envolve, satélites, drones, celulares, aplicativos, internet de banda larga, computadores, inteligência artificial e enormes bancos de dados (big data). Enquanto isso, milhões de proprietários rurais com até 100 hectares são praticamente excluídos de qualquer forma de assistência técnica, segundo o Censo Agropecuário de 2017.

É preciso, no interesse público, tanto da maioria dos produtores e trabalhadores rurais, que dependem de pequenas propriedades e não são donos de terra e capital, quanto dos consumidores, que também, na maioria, ainda dependem da oferta de alimentos a preços compatíveis com sua baixa renda, inverter a lógica desse modelo perverso.

O foco de uma empresa pública de pesquisa agropecuária do governo federal, inclusiva e democrática, deve, portanto, ser no aumento da produtividade da mão de obra rural no interesse do pequeno proprietário, do trabalhador rural e do consumidor de alimentos. Não é para reduzir a mão de obra por área. É para que cada trabalhador no meio rural possa alcançar maior produtividade individual com sua mão de obra. Dessa forma, aumentará sua renda e a produtividade de seu tempo e de sua atividade.

Podemos projetar máquinas, não existe preconceito contra nada mecânico ou eletrônico, mas os equipamentos, insumos, manejos devem ser fruto de uma pesquisa que busque o aumento da eficiência da pequena propriedade e do trabalhador rural. Os grandes, que possuem terra e capital, assim como se beneficiam da economia de escala, devem ter suas demandas atendidas pelo meio privado, que irá lucrar com o fornecimento dessa tecnologia cara e sofisticada.

Enquanto colocamos centenas de pesquisadores trabalhando com agricultura de precisão, milhões de agricultores sofrem precisão de tudo. Precisam de assistência, crédito, estradas, regularização fundiária, pesquisa e desenvolvimento voltados para as suas necessidades.

*Alfredo José Barreto Luiz, 57, engenheiro agrônomo, ex-presidente do Diretório Municipal do PT em Caçapava, SP.

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Este post tem um comentário

  1. Lucimar Santiago de Abreu

    Excelente artigo!
    Poucos abordam o aumento da produtividade do trabalho rural, a partir da lógica de funcionamento da agricultura familiar, cujo papel social é reconhecido pela sociedade, apesar de encontrar-se marginalizada das políticas e subsídios públicos, ainda assim têm garantido a segurança alimentar dos brasileiros.

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