Quem pode com El Salvador?

O momento exige luta, e não se pode esperar menos dessa gente que vive sobre uma terra que treme e cospe fogo. 

Enquanto me dedicava a ler biografias de importantes personagens da guerra civil de El Salvador (1980-92), desejava, obviamente, que tudo aquilo tivesse ficado no passado, morto e enterrado. Mas, infelizmente, o cruel e nefasto passado ajuda a entender o presente ainda tão belicoso na política, o dia-a-dia de uma sociedade tão armada e ameaçada pela violência. E também o mais recente show político-policial-judicial-midiático contra os revolucionários. Um provável novo lawfare na América Latina.

Foram 12 anos de terror patrocinado pelos Estados Unidos, que incluiu, por exemplo, a execução de quase mil pessoas num único vilarejo, a maioria crianças e mulheres. Você já ouviu falar do massacre de El Mozote? Se for pesquisar, esteja preparado: a ação das Forças Armadas incluiu tiro ao alvo em corpos de bebês.

Tanta atrocidade, arbítrio e pobreza fizeram dos salvadorenhos uma das maiores diásporas do mundo. Enquanto o país tem 6 milhões de habitantes, dois milhões de compatriotas vivem nos Estados Unidos, meio milhão no Canadá, outro meio milhão na Europa e Austrália. Ou seja, tem mais ou menos o equivalente a “meio-El Salvador” tentando a vida fora de casa.

Nos idos de 2013 e 2014, período em que vivi por primeira vez naquele país, acabei por ser uma espécie de guia turística de uma salvadorenha criada em Maryland desde os 7 anos. E ouvi algumas de suas tristes memórias: “Eu ficava na janela esperando minha mãe voltar do trabalho, temerosa de que ela fosse morta ou desaparecida, como vários de seus colegas”. E de que sons se recorda? Da voz da  locutora da rádio Venceremos, que levava a mensagem revolucionária à população.

É duro imaginar o El Salvador que conheci, tão ensolarado, com imponentes vulcões, com suas praias mornas, cheirando a cadáver. “Víamos corpos aos montes.”, contou-me um jovem sobre as cenas macabras e o aroma fétido de sua infância.

Desaparecimentos, execuções, até mesmo de um bispo em pleno altar, marcaram aquele pequeno país centro-americano nos anos 80. Não conheci nenhuma família em El Salvador que não tivesse ao menos um parente desaparecido, um morto ou ferido na guerra e/ou um familiar no exterior. São muitos vazios.

Esses relatos me tiravam o sono, mas, por outro lado, me impulsionavam a tentar contribuir com um grãozinho que fosse para que nada disso voltasse a ocorrer (quanta ingenuidade…).

Quando começaram a chegar as notícias sobre as circunstâncias das prisões políticas contra a esquerda salvadorenha, na noite desta quinta-feira, imediatamente me recordei dos tempos prévios ao início do conflito armado que os livros documentaram. Repressão, perseguição, prisões ilegais, protestos de estudantes e trabalhadores debaixo de bala.

Não por acaso, um velho ex-guerrilheiro me disse: “isso não acabou; tudo isso ainda está por aí”. Hoje, olhando para trás, recordo-me que aquele pesado aparato de segurança da campanha presidencial de 2014 já demonstrava, ainda que simbolicamente, a fragilidade da democracia salvadorenha. Homens fortemente armados, vigilância e tensão constantes nos acompanhavam pelas estradas e em cada atividade.

Ainda assim, um ex-comandante do exército do povo chegava pela primeira vez à Presidência do país, após 22 anos dos acordos de paz. Sucedeu o jornalista Mauricio Funes, do mesmo partido, Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN), que colocou fim a uma série de mandatos da direita em 2009.

O ex-guerrilheiro ganhou por “um pelito”, como dizem por lá. Celebrou a vitória na mesma praça em que o partido adversário, na campanha e na guerra, também montou palanque, ameaçando não reconhecer os resultados. Isso lhes lembra alguém?

Salvador Sánchez Cerén (Leonel González na clandestinidade) governou cinco anos sob pressão e ataques da direita, da imprensa e de tantas outras forças conservadoras e retrógradas. Manter e intensificar programas sociais que foram transformadores, principalmente na educação, na saúde e na recuperação da agricultura, não foi suficiente para se contrapor ao bombardeio contra seu governo.

Em meio a fakenews e a uma campanha difamatória sem precedentes, a FMLN  viu a votação em sua legenda despencar nas eleições seguintes. Em 2019, Nayib Bukele elegeu-se para a Presidência. A “terceira via”, que amaldiçoava partidos, chegava ao poder.

Bukele, que cresceu protegido do conflito armado, rapidamente mostrou seu perfil autoritário. Demitiu pelo Twitter adversários políticos; debochou dos acordos de paz; tomou de assalto a Assembleia Nacional e a Corte Suprema. Um golpista clássico.

Do alto de sua arrogância e narcisismo, Bukele talvez se esqueça de que essa geração de guerrilheiros/as, cujas prisões ele comemora nas redes socais, não perdeu a guerra. A FMLN negociou condições para suspender o conflito, mostrando sua força e determinação. Sobretudo, jurou “Revolução ou morte, venceremos!”.

O próximo terremoto em El Salvador precisa ser de inconformismo. Já dizia o bispo mártir que pregou contra a opressão: “Se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho.” É melhor que nem ateus duvidem do agora São Romero da América.  O momento exige luta, e não se pode esperar menos dessa gente que vive sobre uma terra que treme e cospe fogo.  

(Este artigo foi originalmente publicado no site Opera Mundi.)

*Rita Camacho é jornalista.

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