“A não ser que o mundo aceite apartheid, limpeza étnica e roubo de território, Israel é inviável, imoral e ilegal”

O Ramadã e as procissões islâmicas à Esplanada das Mesquitas em Jerusalém foram o último gatilho para o Estado israelense iniciar nova onda de ataques com fins de justificar sua agressão e ocupação da Palestina. Quando veio o cessar fogo, em 21 de maio, eram 243 palestinos e 12 israelenses mortos, e episódios marcantes como a destruição do prédio do centro de imprensa de Gaza, derrubado pela artilharia do exército israelense. A narrativa que sugere um conflito simétrico parece morta e é sobre isso que o Correio publica longa entrevista com Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal).

Com um detalhado resgate histórico do projeto de construção da “Grande Israel”, Ualid Rabah é categórico: “o que Israel e sionistas, apoiadores e amigos precisam discutir é: há ou não há apartheid em Israel? Há ou não há experimentos genocidas? Há ou não há limpeza étnica? Há ou não há seis milhões de refugiados palestinos? São seis milhões de terroristas expulsos a partir de 1948? O Hamas existia em 1897, quando o sionismo resolveu iniciar seu projeto colonial na Palestina e que deveria haver limpeza étnica para seu ‘sucesso’?”

Além de explicar como Israel usou da pandemia para promover o que, inequivocamente, chama de limpeza étnica, o presidente da Fepal elenca diversos episódios de sabotagem da vida política, social e religiosa palestina, que teve de cancelar suas eleições legislativas de 22 de maio, o que talvez se repita nas presidenciais de 31 de julho. E ataca não só as alegações como a própria noção de “antissemitismo” atribuída aos críticos do Estado israelense.

“(o termo) Foi criado por europeus, em solo europeu, por europeus não judeus para criminalizar europeus de fé judaica. Que, aliás, não são nem jamais serão semitas. É um termo equivocado cunhado na Europa para designar pessoas de fé judaica (o termo, em sua compreensão ainda vigente, foi cunhado pelo jornalista alemão Wilhelm Marr, em 1879/1880, e dirigido para designar e criminalizar os professantes do judaísmo na Europa, acusados de culturalmente ‘inferiores’ aos germânicos, e até mesmo de, com seu alegado atraso, prejudicarem o desenvolvimento da civilização ariana ‘superior’). Portanto, falamos de antijudaísmo chamado, a esta altura instrumentalmente, de antissemitismo. Quanto a ser ou não ser semitas, nós é quem somos 100% semitas. Os árabes em geral são 100% semitas. Os judeus em esmagadora maioria não são semitas, a não ser os árabes e palestinos de fé judaica”.

Ualid Rabah ainda lembra que, no plano interno, o chamado “campo da paz” se encontre em seu momento de maior refluxo na sociedade israelenses e faz reflexões sobre se, no fim das contas, tudo o que o mundo vê não era inexorável, considerando-se os objetivos reais do projeto histórico sionista, que jamais aceitou a possibilidade dos dois Estados naquilo que se compreende por Palestina Histórica.

“Se tudo é imaginado como ‘Estado judeu’, como tudo poderia ser diferente do que estamos vendo? O Estado concebido por David Ben Gurion só podia ser um Estado Nação judeu com pureza étnica. Por isso realiza-se a limpeza étnica, para que na pior das hipóteses (ao projeto sionista) fique uma maioria esmagadora judaica. É isso que entra em vigor em 2018 com a aprovação da Lei do Estado-nação Judeu, a partir da qual apenas o judeu é cidadão pleno e o hebraico é a língua nacional única”, resumiu.

Depois das longas explanações sobre a história da disputa no território histórico, Rabah sintetiza os pontos essenciais de uma paz justa. “Cessar a ocupação da Palestina; o direito de retorno dos refugiados deve ser respeitado; deve-se permitir a realização do Estado Nacional palestino; deve haver proteção internacional à população palestina; deve haver soberania palestina sobre Jerusalém; os palestinos devem ter direito de guarda de suas fronteiras; os palestinos devem ter direito de ir e vir; e deve acabar o regime de apartheid”.

A entrevista completa com Ualid Rabah pode ser lida a seguir.

A unidade palestina é fundamental contra a ocupação”. Entrevista com Ualid  Rabah, presidente da Fepal | Jornal Água Verde

Cor­reio da Ci­da­dania: No início do mês do Ra­madã, uma série de ata­ques is­ra­e­lenses a pro­cis­sões de pa­les­tinos marcou o início de novo ca­pí­tulo da agressão a Pa­les­tina, num con­texto as­si­mé­trico tra­tado como “con­flito” pela co­mu­ni­dade in­ter­na­ci­onal. Mas o nú­mero de mortes de lado a lado evi­dencia que tem a força co­er­ci­tiva e re­a­liza seu pro­jeto de ocu­pação ter­ri­to­rial. Por que isso tudo acon­teceu agora?

Ualid Rabah: É sempre im­por­tante des­tacar que a si­tu­ação na Pa­les­tina é de ocu­pação de todo o ter­ri­tório pa­les­tino, no qual em parte dele se re­a­liza por au­to­pro­cla­mação o Es­tado de Is­rael desde 14 de maio de 1948. Tudo o que se deu desde então foi pla­ne­jado, no caso, a lim­peza ét­nica da Pa­les­tina. Tudo que acon­teceu na his­tória desde então fez parte do plano, é se­gui­mento na­tural. Nos úl­timos dois, três meses (na ver­dade desde o início da pan­demia) po­demos narrar que o pro­cesso cu­mu­la­tivo levou a mais ou menos o que vamos falar aqui.

Em abril do ano pas­sado, quando a pan­demia co­meçou a se apre­sentar como re­al­mente pe­ri­gosa no mundo todo, a si­tu­ação fi­cando avas­sa­la­dora em al­guns países, havia poucos casos na Pa­les­tina, que numa ten­ta­tiva de pre­venção fez de­cretos de iso­la­mento so­cial. E havia só uma morte até 11 de abril, de uma mu­lher de 60 anos numa pe­quena ci­dade cha­mada Tubas; os casos graves ainda eram muito poucos. Essa mu­lher que morreu tinha pa­ren­tesco com um dos 60 mil pa­les­tinos que tra­ba­lham em Is­rael onde, ao mesmo tempo, a pan­demia já co­brara de­zenas ou cen­tenas de vidas e o vírus se alas­trava muito mais po­de­ro­sa­mente. Neste ce­nário, Is­rael co­meçou a impor di­fi­cul­dades às uni­dades de saúde pa­les­tinas, es­pe­ci­al­mente em Je­ru­salém Ori­ental, con­si­de­rada a Je­ru­salém ocu­pada de acordo com o Di­reito In­ter­na­ci­onal.

Nesta lo­ca­li­dade, temos uma con­cen­tração muito grande de ju­deus ul­tra­or­to­doxos, que es­tavam in­clu­sive cri­ando muitas di­fi­cul­dades para o Es­tado is­ra­e­lense, ao se ne­garem a re­co­nhecer a pan­demia e, em de­cor­rência au­to­má­tica, também a cum­prirem todas as me­didas pro­te­tivas contra o vírus, como iso­la­mento, uso de más­caras, hi­gi­e­ni­zação etc. Ao mesmo tempo, in­fe­liz­mente, crescia uma con­duta agres­siva frente aos pa­les­tinos. Por­tanto, ao passo que as au­to­ri­dades de ocu­pação im­pe­diam o aten­di­mento a pa­les­tinos, es­pe­ci­al­mente em Je­ru­salém Ori­ental e He­bron, na Cis­jor­dânia, onde, cu­ri­o­sa­mente, se viam ju­deus or­to­doxos cus­pirem em pa­les­tinos com fins de con­ta­miná-los, in­clu­sive pen­sando que eles, por algum mo­tivo, não o se­riam. É neste con­texto que se alastra o vírus, ainda que não sig­ni­fique que não fosse se alas­trar, tal como se deu no mundo todo. En­tre­tanto, as me­didas pa­les­tinas de con­tenção do vírus foram sa­bo­tadas por Is­rael.

Neste pe­ríodo, co­meça a surgir a hi­pó­tese da va­cina e sua pers­pec­tiva. O que faz Is­rael? Eles re­solvem dizer que vão im­portar va­cina pra sua po­pu­lação. A OMS e a co­mu­ni­dade in­ter­na­ci­onal dizem que o país deve va­cinar a po­pu­lação pa­les­tina, que está sob sua res­pon­sa­bi­li­dade. Isso porque se­gundo a le­gis­lação in­ter­na­ci­onal e a 4ª Con­venção de Ge­nebra, a po­tência ocu­pante se res­pon­sa­bi­liza pela po­pu­lação ocu­pada, o que in­clui cui­dados sa­ni­tá­rios. Até porque, como po­tência ocu­pante, ges­tiona o ter­ri­tório, diz quem entra e sai, es­colhe quais is­ra­e­lenses, mesmo con­ta­mi­nados, podem en­trar em ter­ri­tório pa­les­tino etc. Is­rael diz que não, diz que é en­cargo da Au­to­ri­dade Pa­les­tina, ao passo que nega seu di­reito à so­be­rania, a go­verno pró­prio etc. Claro que não há res­paldo algum na le­gis­lação in­ter­na­ci­onal para esta ati­tude de Is­rael.

A certa al­tura, também diz que não tinha va­cina para os pa­les­tinos. Quando co­meçam a chegar va­cinas do­adas di­re­ta­mente aos pa­les­tinos, Is­rael co­meça a di­fi­cultar o de­sem­ba­raço adu­a­neiro. Ao per­mitir a en­trada das poucas doses do­adas (neste caso, pela Rússia), des­ti­nadas aos pro­fis­si­o­nais de saúde pa­les­tinos da linha de frente de com­bate à pan­demia, di­fi­culta sua li­be­ração. De­pois, di­fi­culta-se o trans­porte, como exem­pli­fica o blo­queio de 2 mil doses para pro­fis­si­o­nais de saúde em Gaza (do­adas pela Rússia, que doou também para a Cis­jor­dânia), que durou 48 horas e só foi re­sol­vido quando a co­mu­ni­dade in­ter­na­ci­onal se mexeu. No en­tanto, agên­cias de no­tí­cias in­ter­na­ci­o­nais in­formam que este Es­tado (de Is­rael) des­cartou doses de va­cina que ven­ceram, en­quanto doou va­cinas para quatro países: Hon­duras, Re­pú­blica Tcheca, Gua­te­mala e Hon­duras, com a con­tra­par­tida de esses países re­co­nhe­cerem Je­ru­salém como ca­pital ex­clu­siva de Is­rael e mu­darem para lá suas em­bai­xadas. Em suma, poucas vezes na his­tória vimos qual­quer tipo de go­verno ser tão baixo. Isso tudo já foi um foco grande de des­con­ten­ta­mento.

Em se­tembro do ano pas­sado, num grande en­contro entre todas as forças po­lí­ticas pa­les­tinas, chegou-se a um acordo de re­con­ci­li­ação na­ci­onal e de con­vo­cação de elei­ções, para pos­si­vel­mente se cons­truir um go­verno de uni­dade na­ci­onal. De­li­berou-se que se co­or­de­na­riam todas as forças para uma re­sis­tência po­pular contra a ocu­pação is­ra­e­lense. Isso tudo ca­mi­nhou re­la­ti­va­mente bem, até o ponto de se con­vo­carem as elei­ções. Elei­ções le­gis­la­tivas para re­novar os 132 as­sentos em 22 de maio; elei­ções para a pre­si­dência em 31 de julho; e elei­ções para o Con­selho Na­ci­onal Pa­les­tino, que tem mais de 765 as­sentos, mas agora será re­du­zido para, se­gundo in­for­ma­ções, 350. O Con­selho é a prin­cipal ins­tância da OLP (Or­ga­ni­zação para a Li­ber­tação da Pa­les­tina), para a qual se elegem até re­pre­sen­tantes da diás­pora (se­riam 200 ca­deiras aos pa­les­tinos que vivem no ex­te­rior, perto de 7 mi­lhões, dos quais 6,2 mi­lhões nos países árabes, quase todos re­fu­gi­ados), in­clu­sive no Brasil.

Tal como nos acordos de Oslo, os re­si­dentes em Je­ru­salém também votam. Nas úl­timas elei­ções, 6000 vo­taram em Je­ru­salém pelo cor­reio e a maior parte em urnas de dis­tritos da ci­dade, or­ga­ni­zadas pela Au­to­ri­dade Na­ci­onal Pa­les­tina (ANP). Em 2006, es­tavam em con­di­ções de votar ao redor de 145.000 pa­les­tinos re­si­dentes em Je­ru­salém, dos quais perto de 119.000 se ca­das­traram. Nas elei­ções deste ano, Is­rael im­pediu os tra­ba­lhos da co­missão cen­tral elei­toral pa­les­tina em Je­ru­salém, im­pediu cam­panha dos can­di­datos das 37 listas e, au­to­ma­ti­ca­mente, im­pediu que hou­vesse vo­tação. E não é pos­sível re­a­lizar elei­ções na Pa­les­tina sem Je­ru­salém, pois isso sig­ni­fica que os pa­les­tinos es­ta­riam ce­dendo Je­ru­salém, abrindo mão da so­be­rania sobre a ci­dade, tal como pre­tende, pla­neja e age para tal o Es­tado is­ra­e­lense. Além disso, em Je­ru­salém Ori­ental e seus dis­tritos (ou su­búr­bios), vivem quase 470.000 mil pa­les­tinos, que se­riam des­car­tados en­quanto po­pu­lação pa­les­tina caso se acei­tasse re­a­lizar elei­ções abrindo mão de suas re­pre­sen­ta­ções, de re­a­li­zação de suas von­tades no seio da cons­trução do fu­turo da Pa­les­tina. Em vir­tude disso, as elei­ções le­gis­la­tivas de 22 de maio foram can­ce­ladas.

Cor­reio da Ci­da­dania: A pan­demia se tornou fer­ra­menta de inau­gu­ração de uma nova etapa de agressão e sa­bo­tagem à vida dos pa­les­tinos, por­tanto.

Ualid Rabah: De­pois, ainda te­ríamos mais três epi­só­dios. Em abril, co­meçou o mês sa­grado do Ra­madã, quando mais de 1,5 bi­lhão de mu­çul­manos je­juam todos os dias, do nascer ao por do sol. Is­rael blo­queou o portão de Da­masco, que dá acesso à Es­pla­nada das Mes­quitas, do que de­cor­reram grandes ma­ni­fes­ta­ções po­pu­lares re­pri­midas com muita vi­o­lência. De­pois de vá­rios dias de re­pressão, Is­rael re­abre este portão. Tudo ab­so­lu­ta­mente des­ne­ces­sário, a não ser que ima­gi­nemos aquilo que direi adi­ante.

No dia 2, os pa­les­tinos cris­tãos fa­ziam pro­cissão à Igreja do Santo Se­pulcro, a mais sa­grada do cris­ti­a­nismo, onde está o tú­mulo de Jesus Cristo, para uma ce­rimônia pascal, a ce­rimônia do fogo sa­grado. Foram vi­o­len­ta­mente ata­cados tanto por forças ofi­ciais (de ocu­pação) como co­lonos (es­tran­geiros de fé ju­daica, não raro recém-che­gados). A pro­cissão foi im­pe­dida, o acesso ao Santo Se­pulcro foi ve­tado e a ce­rimônia não ocorreu. Na úl­tima sexta-feira sa­grada do Ra­madã, em 7 de maio, co­lonos e ex­tre­mistas in­vadem a Es­pla­nada das Mes­quitas, além de ou­tras mes­quitas e igrejas, e co­meça uma série de de­pre­da­ções, tanto em Je­ru­salém como ad­ja­cên­cias. Há um con­fronto e as forças de ocu­pação en­tram em cena pra agredir os fieis pa­les­tinos. De­sata-se o caos e co­meçam grandes ma­ni­fes­ta­ções em Je­ru­salém, que acabam com outro in­gre­di­ente ex­plo­sivo.

Num bairro cha­mado Sheikh Jarrah (fica no Monte Scopus e leva esse nome porque ali está en­ter­rado Sheikh Jarrah, mé­dico de Sa­la­dino, li­ber­tador de Je­ru­salém do do­mínio cru­zado em 1187), lo­ca­li­zado no li­mite entre Je­ru­salém Ori­ental e Je­ru­salém Oci­dental, onde re­sidem muitas fa­mí­lias pa­les­tinas, mas em es­pe­cial 28 fa­mí­lias, que foram de­sa­lo­jadas por Is­rael no pro­cesso de lim­peza ét­nica ini­ciado em 1948, por­tanto, fa­mí­lias re­fu­gi­adas, que ali se ins­talam a partir de 1956. Sete dessas fa­mí­lias re­ce­beram ordem ju­di­cial is­ra­e­lense de des­pejo (três já des­pe­jadas) – o que por si só é ilegal, pois é proi­bido aplicar ju­ris­dição de po­tência ocu­pante sobre ter­ri­tório de po­pu­lação ocu­pada –, a pre­texto de que co­lonos – in­clu­sive vindo dos EUA – com­praram tais pro­pri­e­dades, apre­sen­tando seus tí­tulos sabe-se lá de onde e ob­tendo tí­tulo de pro­pri­e­dade por parte do Es­tado de Is­rael. Com isso, co­locam-se es­tran­geiros ju­deus nos lu­gares das fa­mí­lias pa­les­tinas. É um pro­cesso con­ti­nuado de lim­peza ét­nica. Pro­cesso pre­me­di­tado, cal­cu­lado, me­tó­dico de lim­peza ét­nica da Pa­les­tina, que se agu­diza em Je­ru­salém, no sen­tido de in­te­gra­li­zação da sua ju­dai­zação, que sig­ni­fica des­pa­les­ti­ni­zação, des­cris­ti­a­ni­zação e de­sis­la­mi­zação.

Este pro­cesso todo que levou ao con­junto de ati­vi­dades e ma­ni­fes­ta­ções de pro­testos, todos, res­salte-se, po­pu­lares e de­sar­mados, re­pri­midos bru­tal­mente por forças de ocu­pação au­xi­li­adas por grupos de ju­deus ex­tre­mistas. Esta é a mol­dura geral dos úl­timos acon­te­ci­mentos que, claro, estão numa mol­dura maior, que é a da lim­peza ét­nica da Pa­les­tina para sua in­te­gral to­mada.

Cor­reio da Ci­da­dania: Já que você falou do pro­cesso con­ti­nuado de lim­peza ét­nica, ou de “de­sa­ra­bi­zação”, como en­fa­tiza o his­to­ri­ador is­ra­e­lense Ilan Pappe em seu livro A Lim­peza Ét­nica da Pa­les­tina, in­clu­sive tendo como fonte para o termo os pró­prios diá­rios de David Ben Gu­rion, o que pensa das ale­ga­ções contra o Hamas? Afinal, não é uma des­culpa frouxa de­mais para evitar que se cumpra aquilo que foi de­li­neado em 1948 e re­for­çado em 1967, isto é, a Par­tilha da Pa­les­tina?

Ualid Rabah: É a des­culpa de sempre do co­lo­ni­a­lismo. Porque é di­ante disso que es­tamos: um pro­jeto co­lo­nial tardio pro­mo­vido por es­tran­geiros eu­ro­ju­deus na Pa­les­tina. Sempre foi ca­rac­te­rís­tica dos co­lo­ni­za­dores culpar as po­pu­la­ções co­lo­ni­zadas. O Nelson Man­dela era ter­ro­rista: 26 anos preso. Arafat era, idem, ter­ro­rista. A OLP era ter­ro­rista: mesmo tra­ta­mento.

O que Is­rael e si­o­nistas, apoi­a­dores e amigos pre­cisam dis­cutir é: há ou não há apartheid em Is­rael? Há ou não há ex­pe­ri­mentos ge­no­cidas? Há ou não há lim­peza ét­nica? Há ou não há seis mi­lhões de re­fu­gi­ados pa­les­tinos? São seis mi­lhões de ter­ro­ristas ex­pulsos a partir de 1948? O Hamas existia em 1897, quando o si­o­nismo re­solveu ini­ciar seu pro­jeto co­lo­nial na Pa­les­tina e que de­veria haver lim­peza ét­nica para seu “su­cesso”? E quando The­odor Herzl (fun­dador do si­o­nismo) disse na­quele mo­mento, no final do sé­culo 19, que a Pa­les­tina era “uma terra sem povo”, mesmo tendo 28,7 ha­bi­tantes por km², de acordo com senso bri­tâ­nico de 1922, época em que no Brasil a den­si­dade era in­fe­rior a 4 e a China, já o país mais po­pu­loso do mundo, tinha no má­ximo 40 ha­bi­tantes por km²? Existia Hamas ou OLP ou Arafat na época? Em 1948, quando re­a­lizam a lim­peza ét­nica da Pa­les­tina, exis­tiam Hamas, OLP, Arafat, Al Fatah? Em 1967, essas forças es­tavam no ter­reno? Em 1982, quando in­vadem o Lí­bano e pro­movem o ge­no­cídio de Sabra e Cha­tila, qual era o grupo “ter­ro­rista” que se com­batia?

O que Is­rael pre­cisa dis­cutir é outra coisa: não é Te­la­vive que está si­tiada e ata­cada. É a Faixa de Gaza. E, diga-se, quase 70% de sua po­pu­lação é re­fu­giada de 1948 e, em menor me­dida de 1967. É Gaza que está si­tiada, desde 2007, fre­quen­te­mente ata­cada por aviões e todo tipo de ar­ti­lharia. Os seis mi­lhões de re­fu­gi­ados pa­les­tinos são pa­les­tinos; não são is­ra­e­lenses, não são ju­deus. O que eles querem es­conder? Is­rael quer se eximir dos crimes de guerra e lesa-hu­ma­ni­dade que co­mete na Pa­les­tina e são in­ves­ti­gados pelo Tri­bunal Penal In­ter­na­ci­onal. Os re­la­tó­rios da B’Tselem, maior ONG de Di­reitos Hu­manos de Is­rael, e também da Human Rights Watch, dizem que há apartheid em todo o ter­reno da Pa­les­tina his­tó­rica. É ou não é ter­ro­rismo, in­clu­sive de Es­tado? É sobre isso que Is­rael pre­cisa falar.

Cor­reio da Ci­da­dania: E que pensa da re­tó­rica si­o­nista, que acusa de an­tis­se­mita, apa­ren­te­mente com cada vez mais frequência, qual­quer crí­tica aos atos do Es­tado de Is­rael? Di­ante dos ali­ados in­ter­na­ci­o­nais cada vez mais à di­reita, esse não é um ar­gu­mento um tanto frágil?

Ualid Rabah: Pri­mei­ra­mente, este ale­gado an­tis­se­mi­tismo trata de um fenô­meno criado por eu­ro­peus. Foi criado por eu­ro­peus, em solo eu­ropeu, por eu­ro­peus não ju­deus para cri­mi­na­lizar eu­ro­peus de fé ju­daica. Que, aliás, não são nem ja­mais serão se­mitas. É um termo equi­vo­cado cu­nhado na Eu­ropa para de­signar pes­soas de fé ju­daica (o termo, em sua com­pre­ensão ainda vi­gente, foi cu­nhado pelo jor­na­lista alemão Wi­lhelm Marr, em 1879/1880, e di­ri­gido para de­signar e cri­mi­na­lizar os pro­fes­santes do ju­daísmo na Eu­ropa, acu­sados de cul­tu­ral­mente “in­fe­ri­ores” aos ger­mâ­nicos e, até mesmo, de, com seu ale­gado atraso, pre­ju­di­carem o de­sen­vol­vi­mento da ci­vi­li­zação ariana “su­pe­rior”). Por­tanto, fa­lamos de an­ti­ju­daísmo cha­mado, a esta al­tura ins­tru­men­tal­mente, de an­tis­se­mi­tismo. Quanto a ser ou não ser se­mitas, nós é quem somos 100% se­mitas. Os árabes em geral são 100% se­mitas. Os ju­deus em es­ma­ga­dora mai­oria não são se­mitas, a não ser os árabes e pa­les­tinos de fé ju­daica.

O se­gundo ponto é que a luta por li­ber­tação, au­to­de­ter­mi­nação, por um Es­tado Na­ci­onal so­be­rano dos pa­les­tinos é a luta contra a ocu­pação, o apartheid, o pro­jeto co­lo­nial. Não é uma luta contra a fé ju­daica, o que seria an­ti­ju­daísmo, e, evi­den­te­mente, não é uma causa ra­cial, é uma causa de li­ber­tação na­ci­onal.

No en­tanto, é evi­dente que Is­rael se acos­tumou, pois os si­o­nistas per­deram toda a ca­pa­ci­dade de dig­ni­dade hu­mana, o ca­ráter e a de­cência, a usar esta moeda po­lí­tica, que é um achaque moral. Tudo que diz res­peito à con­de­nação do apartheid e aos crimes de guerra de Is­rael virou an­tis­se­mi­tismo. Porque eles não têm como se de­fender, não têm como negar os crimes. Assim, usam da chan­tagem re­tó­rica do an­tis­se­mi­tismo. Seria o mesmo que acusar de an­ti­branco quem de­nun­ciava o apartheid da África do Sul, de an­ti­ger­mâ­nico quem ata­casse a Ale­manha na­zista… É uma chan­tagem an­ti­ci­en­tí­fica e imoral.

Eles podem pro­curar an­tis­se­mi­tismo na­queles que os apoiam: na Hun­gria go­ver­nada pela ex­trema-di­reita; aqui no Brasil na ex­trema-di­reita quase na­zista, que são também en­rus­tidos an­ti­ju­deus, nos eu­ro­peus de ex­trema-di­reita, como a Ma­rine Le Pen, que pra­tica an­ti­ju­daísmo de­cla­rado, mas apoia Is­rael…

Por fim, eles que nos tragam in­for­ma­ções sobre o an­ti­ju­daísmo no amplo mundo árabe e is­lâ­mico até a fun­dação do Es­tado de Is­rael. Isso é um fenô­meno ex­clu­si­va­mente eu­ropeu (prin­ci­pal­mente oci­dental), “cristão” e branco, ocor­rido em lu­gares onde havia eu­ro­peus de fé ju­daica.

Pra com­pletar, é bom dizer que nada disso, isto é, o an­ti­ju­daísmo, es­taria ocor­rendo se não fossem os crimes de Is­rael. É Is­rael e sua con­duta que levam à res­sur­reição deste sen­ti­mento. Is­rael fez do ju­daísmo sua jus­ti­fi­ca­tiva de exis­tência e jus­ti­fi­ca­tiva para seus crimes, para sua ideia de su­pre­macia, para um re­gime de apartheid etc. É culpa de Is­rael o ale­gado – apesar da in­cor­reta de­fi­nição – “an­tis­se­mi­tismo”.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como vê a for­mação do novo go­verno após fra­casso da co­a­lizão de Bibi Ne­tanyahu com o ge­neral Benny Gantz? O que es­perar dessa tênue mai­oria e como deve in­fluir na re­lação com a causa da in­de­pen­dência pa­les­tina?

Ualid Rabah: Existe uma es­pe­rança quase mi­to­ló­gica de que, a partir do que as elites is­ra­e­lenses re­sol­verem, al­guma coisa boa pode acon­tecer no mundo, es­pe­ci­al­mente na Pa­les­tina. Assim, me pa­rece, grosso modo, que quase es­que­cemos de fazer uma aná­lise his­tó­rica. Hoje, o dis­curso si­o­nista e de parte dos apoi­a­dores de Is­rael, en­ver­go­nhados ou não, é de que Is­rael não é o pro­blema, mas sim Ne­tanyahu. O pro­blema seria de uma ex­trema-di­reita que go­verna o país e atra­palha tudo. Fora que ha­veria ex­tre­mistas pa­les­tinos, que igua­la­riam tudo e fim de papo.

Pri­mei­ra­mente, foi a es­querda is­ra­e­lense que pro­moveu a lim­peza ét­nica da Pa­les­tina. Ben Gu­rion era de es­querda e se au­to­pro­cla­mava so­ci­a­lista. Todos os ki­butzim na Pa­les­tina, inau­gu­rados a pre­texto de um ro­man­tismo so­ci­a­lista, se ser­viram da lim­peza ét­nica. Não há um ki­butz que não tenha sido feito em cima do pro­cesso co­lo­nial. A di­reita is­ra­e­lense só chegou ao poder em 1977, com Me­na­chem Be­guin, jus­ta­mente com o Likud, na época uma co­li­gação, hoje um par­tido, pelo qual se ele­geria Ne­tanyahu. Daí em di­ante, es­querda e di­reita se re­ve­zaram, sem que ne­nhuma delas tenha avan­çado para além dos Acordos de Oslo, en­quanto as­si­na­tura dos prin­cí­pios, de 1993, fir­mado, pelo lado is­ra­e­lense, por Yitzhak Rabin, por sinal as­sas­si­nado logo de­pois (4 de no­vembro de 1995, em Te­la­vive) pelos pró­prios is­ra­e­lenses.

Nesse mo­mento, fa­lamos da nova ten­ta­tiva, ar­ti­cu­lação, de uma nova ali­ança. O par­tido do Yair Lapid (Yesh Atid) tem 17 ca­deiras, é tido como de centro, mas é a favor da co­lo­ni­zação da Pa­les­tina e nunca disse um ‘a’ em favor dos acordos. Outro líder do mo­mento, Naf­tali Bennet, do Nova Di­reita, com 7 mem­bros, se opõe aber­ta­mente à im­ple­men­tação do Es­tado da Pa­les­tina, de­fende a co­lo­ni­zação; mi­li­ta­rista e apoiado pela ex­trema-di­reita, in­clu­sive se van­glo­ri­ando de estar à di­reita de Ne­tanyahu. E foi ele quem con­se­guiu agora a ca­deira de pri­meiro mi­nistro, na qual es­tará pelos pró­ximos dois anos. É cu­rioso neste caso que ele também é imi­grante, seus pais vi­eram dos EUA e é es­tran­geiro, como todos eles pra­ti­ca­mente. Foi pre­si­dente da as­so­ci­ação de co­lonos ju­deus na Cis­jor­dânia (Con­selho de Yesha, que in­clu­sive de­fende a ex­pulsão de todos os pa­les­tinos da Cis­jor­dânia e sua ane­xação) e sempre disse que, em sua po­lí­tica, não ce­deria “um só cen­tí­metro de terra aos pa­les­tinos”. Esses são os dois grandes ho­mens da co­li­gação. Enfim, são os ar­ranjos in­ternos is­ra­e­lenses.

O que pode acon­tecer, e que talvez a pressão in­ter­na­ci­onal sig­ni­fique em re­lação a Ne­tanyahu, é in­cóg­nita ainda. O quanto, prin­ci­pal­mente em re­lação aos EUA, isso aju­dará nas ne­go­ci­a­ções é uma in­cóg­nita. A saída de Ne­tanyahu não sig­ni­fica que da noite para o dia a si­tu­ação me­lhore. É a re­sis­tência pa­les­tina, sua busca por uni­dade in­terna e a pressão in­ter­na­ci­onal sobre Is­rael que podem re­sultar em al­guma saída para a Pa­les­tina.

Cor­reio da Ci­da­dania: Ainda é pos­sível sus­tentar que Is­rael no fundo não vise à des­truição de­fi­ni­tiva da pos­si­bi­li­dade dos dois Es­tados através da cri­ação do fato con­su­mado? Não é a única aná­lise séria a ser feita sobre sua po­sição?

Ualid Rabah: Há in­di­ca­ções bem claras disso. Do início dos anos 90, até dos anos 80, pra cá, senão de 1967 ou 1973 (cha­madas, res­pec­ti­va­mente, Guerra dos Seis Dias e Guerra do Yom Kippur) temos a menor pro­porção do cha­mado “campo da paz” em Is­rael. Hoje ele é muito pe­queno. Isso não quer dizer que não possa mudar e voltar a crescer, não quer dizer que o ci­dadão médio não canse de estar a ser­viço de um re­gime opres­sivo, co­lo­nial, de lim­peza ét­nica. Não quer dizer que daqui a pouco não venha a dizer ‘não’ para este pro­cesso ge­no­cida. Mas agora, in­fe­liz­mente, o campo da paz em Is­rael é mí­nimo. Pode crescer, as pres­sões in­ter­na­ci­o­nais podem mudar. Até os ex­tre­mistas ju­deus, que hoje pre­do­minam na ma­ni­fes­tação pú­blica da von­tade is­ra­e­lense, podem vir a ser obri­gados a uma re­flexão.

Foi a pressão in­ter­na­ci­onal que levou o apartheid a acabar na África do Sul. Não foi a von­tade tran­quila dos bôeres, do Fre­de­rick de Klerk ou Pi­eter Botha. É pos­sível que isso acon­teça na Pa­les­tina. Não será de pre­sente das elites que atu­al­mente formam o go­verno de co­a­lizão de Is­rael.

Cor­reio da Ci­da­dania: Grosso modo, Is­rael é um Es­tado se­cular fun­dado sobre bases re­li­gi­osas. Dessa forma, o ho­ri­zonte his­tó­rico do au­to­de­cla­rado “Es­tado judeu” pode es­capar do ra­cismo, do sec­ta­rismo, fun­da­men­ta­lismo etc.?

Ualid Rabah: O grande pro­blema é que no nas­ci­mento do si­o­nismo, quando co­meça a tomar ca­rac­te­rís­ticas de mo­vi­mento na­ci­onal entre eu­ro­peus de fé ju­daica, ima­gina-se a hi­pó­tese de cons­truir um Es­tado Na­ci­onal judeu. Mas não havia como con­se­guir isso na Eu­ropa. O jeito era buscar “fora”. Entre aspas porque tinha de estar aco­plado a um pro­jeto co­lo­nial eu­ropeu da­quele mo­mento, de al­guma po­tência co­lo­nial eu­ro­peia de então. Por volta de 1907 a In­gla­terra já ima­gina um Es­tado tampão na Pa­les­tina para con­trolar o Ori­ente Médio e o pe­tróleo. É uma área re­la­ti­va­mente plana, que per­mi­tiria à in­fan­taria bri­tâ­nica já es­ta­ci­o­nada ou tra­zida por seus na­vios ir di­reto ao Golfo Pér­sico para pre­servar seu pe­tróleo, sem pre­cisar passar por Suez, en­trar no Mar Ará­bico etc.

Ter­mi­nada a Pri­meira Guerra Mun­dial, há o acordo se­creto entre fran­ceses e in­gleses (acordo Sykes-Picot) e há a par­tilha dos des­pojos do Im­pério Oto­mano, um dos der­ro­tados da Pri­meira Guerra. O es­torvo Oto­mano já não es­tava ali. Em 1917, os bri­tâ­nicos pro­metem esta terra, que não era sua, aos ju­deus eu­ro­peus. Faz-se a De­cla­ração Bal­four, en­de­re­çada ao ban­queiro in­glês judeu Walter Roths­child, li­de­rança da co­mu­ni­dade ju­daica no Reino Unido e si­o­nista. Era uma de­cla­ração, fun­da­mental, de 67 pa­la­vras, que dizia: “O Go­verno de Sua Ma­jes­tade vê com fa­vo­re­ci­mento o es­ta­be­le­ci­mento na Pa­les­tina de um lar na­ci­onal para o povo judeu e usará seu me­lhor es­forço para fa­ci­litar a re­a­li­zação deste ob­je­tivo, fi­cando cla­ra­mente en­ten­dido que nada será feito o qual possa pre­ju­dicar os di­reitos civil e re­li­gioso das co­mu­ni­dades não-ju­dias exis­tentes na Pa­les­tina”). Fica claro que di­reitos na­ci­o­nais se­riam apenas ju­deus. Isto é, um pro­jeto ra­cista, de su­pre­macia de al­guma ordem, neste caso de­fi­nida pela fé re­li­giosa. É assim que se re­a­liza o pro­jeto.

En­tre­tanto, a mesma de­cla­ração deixa claro que não seria per­mi­tida lim­peza ét­nica. Diz que se­riam “pre­ser­vados os di­reitos re­li­gi­osos e civis da­quelas po­pu­la­ções” (que nada será feito o qual possa pre­ju­dicar os di­reitos civil e re­li­gioso das co­mu­ni­dades não-ju­dias exis­tentes na Pa­les­tina”). Pode ser apenas tex­tual, mas se a de­cla­ração, a partir de 1922-23, foi trans­for­mada pela an­tiga Liga das Na­ções em um dos do­cu­mentos ofi­ciais do man­dato do pro­te­to­rado bri­tâ­nico sobre a Pa­les­tina, quer dizer se tratar de um do­cu­mento de di­reito in­ter­na­ci­onal, por mais que trate de di­reitos do opressor, co­lo­nial. Por­tanto, pode ser nulo de pleno di­reito, pois anula ou­tros di­reitos ao criar pre­ten­sa­mente um novo por cima do an­te­rior. Mas fun­da­men­tal­mente era isso: re­cu­sava a des­po­vo­ação da Pa­les­tina.

Is­rael re­a­liza este pro­cesso todo a partir da le­gi­ti­mação da Re­so­lução 181. Diz que a Pa­les­tina será par­ti­lhada para um fu­turo Es­tado judeu (já co­meça er­rado) e um fu­turo Es­tado que eles chamam de árabe, que é a Pa­les­tina, re­par­tindo o ter­ri­tório. A re­so­lução apenas re­co­menda a par­tilha, não cria status; 42,9% da Pa­les­tina His­tó­rica para os pa­les­tinos, que na­quela al­tura eram “até 75%” de não ju­deus no ter­ri­tório. Por que “até 75%”? Porque os bri­tâ­nicos não con­tavam os be­duínos. Além do mais, in­clu­sive com estes (be­duínos), ti­nham os pa­les­tinos até 95% do ter­ri­tório. Ao fu­turo Es­tado judeu, 56,5%, mesmo re­pre­sen­tando no má­ximo 30% da po­pu­lação, com cerca de 5% das terras. Os res­tantes 0,6% se­riam ter­ri­tório in­ter­na­ci­onal, Je­ru­salém ba­si­ca­mente, ad­mi­nis­trado pela ONU, com seus lo­cais sa­grados etc.

A re­so­lução 181 nunca seria im­ple­men­tada, in­clu­sive é sus­pensa de de­zembro de 1947 em di­ante, porque a co­mu­ni­dade in­ter­na­ci­onal e os países que fa­ziam a recém-for­mada ONU re­cebem re­la­tó­rios se­cretos sobre grupos ter­ro­ristas ju­daicos, com­postos de eu­ro­peus que ti­nham che­gado a partir de 1945, que co­me­çavam a atacar grupos de pa­les­tinos e po­pu­la­ções cam­po­nesas, com o fim de de­sa­lojá-las. Por este mo­tivo, a re­so­lução não é im­ple­men­tada.

Em 9 de abril de 1948, essas forças si­o­nistas fazem, no que era uma pe­quena lo­ca­li­dade a 5km de Je­ru­salém hoje oci­dental, um ataque de grupos no qual até 300 ha­bi­tantes de 700 ali re­si­dentes são as­sas­si­nados. Ali co­meça o Plano Dalet (um dos vá­rios planos de ocu­pação da Pa­les­tina His­tó­rica, do­cu­men­tados pelo pró­prio Es­tado is­ra­e­lense), que con­sistia na má­xima to­mada de ter­ri­tório com o mí­nimo de per­ma­nência de pa­les­tinos.

Este pro­cesso é mas­si­va­mente ini­ciado às 16 horas de 14 de maio de 1948, quando Is­rael se au­to­pro­clama Es­tado. À meia noite do mesmo dia ter­mi­nava o man­dato de pro­te­to­rado ou­tor­gado aos bri­tâ­nicos pela an­tiga Liga das Na­ções. No dia se­guinte co­meça a lim­peza ét­nica em grande es­cala. De 15 de maio em di­ante, são in­va­didas 771 lo­ca­li­dades pa­les­tinas, das quais 531 são eli­mi­nadas e to­tal­mente to­madas. Da noite para o dia mais de 60% da po­pu­lação pa­les­tina é ex­pulsa, 15 mil são mortos ao longo de 70 mas­sa­cres. O au­to­pro­cla­mado Is­rael toma 76% da Pa­les­tina his­tó­rica, área dentro da qual mais de 80% da po­pu­lação é ex­pulsa, algo em torno de 750 mil pa­les­tinos, daí re­sul­tando os atuais 6 mi­lhões de re­fu­gi­ados.

Is­rael alega que tudo que se deu na Pa­les­tina de­correu do ataque que so­freu a partir do mo­mento em que se au­to­de­clarou Es­tado, em 14 e 15 de maio de 1948. Men­tira! Os con­frontos, de fato, só se dão a partir de 26 de maio de 1948, isto é, de­pois de ini­ciada a lim­peza ét­nica, cujos pri­meiros ele­mentos se deram em de­zembro de 1947. De­pois há o teste em 9 de abril de 1948 (Deir Yassin) e, fi­nal­mente, a lim­peza ét­nica em grande es­cala, a partir de 15 de maio de 1948. Logo, quando muito, o que teria ha­vido foi uma ten­ta­tiva e re­ação aos crimes de Is­rael contra a po­pu­lação pa­les­tina ori­gi­nária. Ainda neste sen­tido, cabe der­rubar a lenda de que o “pe­queno” Is­rael en­frentou todos os “exér­citos” árabes. O que houve foram apenas forças ir­re­gu­lares e vo­lun­tá­rias de seis países, sem avi­ação (Is­rael já tinha), que ini­ci­aram com 29.100 ho­mens e che­garam a ter o má­ximo de 50.500 ho­mens. Mais um de­talhe: seu má­ximo co­man­dante foi o in­glês John Bagot Glubb. Já do lado is­ra­e­lense foram forças uni­fi­cadas e já or­ga­ni­zadas como exér­cito, que co­meçou com 29.677 ho­mens e chegou ao teto de 117.500 ho­mens. Ou seja: mais um gros­seiro mito.

As ques­tões são: a re­so­lução 181 mandou al­terar a de­mo­grafia da Pa­les­tina? Mandou eli­minar 531 lo­ca­li­dades? Mandou ex­pulsar até 85% da po­pu­lação pa­les­tina do au­to­pro­cla­mado Es­tado de Is­rael? Tudo isso faz de Is­rael um Es­tado ilegal. O en­viado da ONU, o conde sueco Folke Ber­na­dotte, ve­ri­fica que Is­rael mentia sobre o aban­dono do povo pa­les­tino a pe­dido de li­de­ranças árabes. São re­fu­gi­ados exi­lados, ex­pulsos de di­versas ci­dades. Ele pega os tes­te­mu­nhos e faz um re­lato. Logo, ele é as­sas­si­nado por bandos ter­ro­ristas ju­daicos (17 de se­tembro de 1948, na parte oci­dental de Je­ru­salém), co­man­dados por Yitzhak Shamir (com Natan Yellin-Mor, Yis­rael Eldad), que viria a ser pri­meiro mi­nistro de Is­rael (1986/1992). Esses re­la­tó­rios se­cretos e o de Ber­nar­dotte re­sultam na re­so­lução 194, de de­zembro de 1948, que de­ter­mina o re­torno dos re­fu­gi­ados pa­les­tinos e a re­pa­ração de suas perdas.

Em 1949 (11 de maio), apenas, Is­rael é ad­mi­tido como Es­tado-membro da ONU, sob cláu­sula con­di­ci­o­nante (único caso até hoje), que trata do aca­ta­mento da re­so­lução 194. Mas não é só isso. Is­rael se au­to­pro­clama Es­tado à base da lim­peza ét­nica e da apro­pri­ação de tudo que era pa­les­tino: es­colas, es­tradas, bancos, terras pro­du­tivas, oli­vais, cri­a­ções de ca­bras, ove­lhas, ovinos, in­dús­trias, in­fra­es­tru­turas. Tudo. O PIB pa­les­tino foi apro­priado da noite para o dia. À luz da re­so­lução 181 tudo isso é ilegal.

Con­se­quen­te­mente, Is­rael não é ilegal apenas pela sua imo­ra­li­dade, pela lim­peza ét­nica, pelo crime de ge­no­cídio, pelo apartheid. É pária sob qual­quer viés ima­gi­nado, in­clu­sive pela de­cla­ração Bal­four, que é ado­tada como tí­tulo legal pela an­tiga Liga das Na­ções e é clara sobre a pre­ser­vação da po­pu­lação já es­ta­be­le­cida.

Por fim, se tudo é ima­gi­nado como “Es­tado judeu”, como tudo po­deria ser di­fe­rente do que es­tamos vendo? O Es­tado con­ce­bido por David Ben Gu­rion só podia ser um Es­tado Nação judeu com pu­reza ét­nica. Por isso re­a­liza-se a lim­peza ét­nica, para que na pior das hi­pó­teses (ao pro­jeto si­o­nista) fique uma mai­oria es­ma­ga­dora ju­daica.

É isso que entra em vigor em 2018 com a apro­vação da Lei do Es­tado-nação Judeu, a partir da qual apenas o judeu é ci­dadão pleno e o he­braico é a língua na­ci­onal única. So­mente a even­tual con­versão dos pa­les­tinos ao ju­daísmo po­derá levá-los à con­dição de me­re­ce­dores de per­ma­necer na terra.

Nada po­deria ser di­fe­rente, por­tanto.

Cor­reio da Ci­da­dania: Dessa forma, acre­dita que o Es­tado de Is­rael es­teja des­cre­vendo uma tra­je­tória au­to­fá­gica?

Ualid Rabah: Ironia do des­tino, po­demos atri­buir duas grandes obras a Is­rael: 1) a Pa­les­tina é o maior campo de con­cen­tração ja­mais ima­gi­nado, ad­mi­nis­trado por ju­deus; 2) Is­rael é o maior gueto do mundo, criado pelo si­o­nismo para os ju­deus. Ironia ou não, é isso.

É viável? Acho que não. O que mais posso dizer? Posso dizer que, a não ser que acre­di­temos que um Es­tado de apartheid seja viável, Is­rael não é viável. A não ser que um Es­tado de su­pre­ma­cismo seja viável, Is­rael não o é.

Is­rael só fez a guerra de agressão de 1967, tal como em 1948, porque não con­se­guira tomar toda a Pa­les­tina. Mas neste caso (1967) não con­se­guiu ex­pulsar pra­ti­ca­mente nin­guém. O plano era tomar tudo, in­clu­sive Gaza e Cis­jor­dânia, e já na­quele mo­mento des­po­voar a es­ma­ga­dora mai­oria. Como só con­se­guiram des­po­voar 76%, e grande parte deste per­cen­tual é de po­pu­lação re­fu­giada dentro da Pa­les­tina his­tó­rica (em Gaza cerca de 70% são re­fu­gi­ados, en­quanto de 23% a 25% na Cis­jor­dânia, e o resto ba­si­ca­mente está nas fron­teiras, como Lí­bano, Síria e Jor­dânia), há hoje um nú­mero igual de ju­deus e não ju­deus em toda a Pa­les­tina (censo re­cente di­vul­gado pelo Es­cri­tório Cen­tral de Es­ta­tís­ticas da Pa­les­tina já in­forma que a po­pu­lação não ju­daica é 200.000 mil maior do que a ju­daica). Isso quer dizer que, para se tornar uma mai­oria ju­daica (“do rio Jordão ao mar, do Sinai à Ga­li­leia”) seria ne­ces­sária uma nova lim­peza ét­nica. Ou a ad­missão da co­mu­ni­dade in­ter­na­ci­onal e da cons­ci­ência hu­mana de que um re­gime ge­nui­na­mente de apartheid é le­gí­timo, con­forme o país (Is­rael) de­finiu em 2018.

Se tudo isso for ad­mi­tido, sig­ni­fica que o Di­reito In­ter­na­ci­onal tor­nará legal o apartheid, o ge­no­cídio, a lim­peza ét­nica e a to­mada de ter­ri­tório pela força, com a cons­trução de Es­tados Na­ci­o­nais que ex­pulsem po­pu­lação mi­lenar em favor de es­tran­geiros que ja­mais pi­saram ali. Te­remos, por­tanto, uma nova fór­mula de cons­trução de Es­tados Nação.

É isso que a co­mu­ni­dade in­ter­na­ci­onal de­seja? Se a tudo isso a res­posta for não, é evi­dente que Is­rael é in­viável, imoral e ilegal.

Cor­reio da Ci­da­dania: Quais os pontos fun­da­men­tais para uma so­lução justa?

Ualid Rabah: É um con­flito muito re­cente, faz parte da his­tória co­lo­nial eu­ro­peia tardia. Não tem nada a ver com bí­blia, Roma, egíp­cios e ca­na­neus. É de poucas dé­cadas e re­sulta de tudo que fa­lamos aqui.

Por­tanto, os pontos cen­trais são: cessar a ocu­pação da Pa­les­tina; o di­reito de re­torno dos re­fu­gi­ados deve ser res­pei­tado; deve-se per­mitir a re­a­li­zação do Es­tado Na­ci­onal pa­les­tino; deve haver pro­teção in­ter­na­ci­onal à po­pu­lação pa­les­tina; deve haver so­be­rania pa­les­tina sobre Je­ru­salém; os pa­les­tinos devem ter di­reito de guarda de suas fron­teiras; os pa­les­tinos devem ter di­reito de ir e vir; e deve acabar o re­gime de apartheid.

Feito isso, re­solve-se a questão pa­les­tina. E, mais que isso, os is­ra­e­lenses passam a ter a pos­si­bi­li­dade de viver um es­tado que não seja de guerra e ocu­pação per­ma­nente, que exige pro­ta­go­nismo de toda uma po­pu­lação num pro­cesso de ge­no­cídio. Só com uma paz justa ha­verá paz du­ra­doura. Aliás, al­guma paz.

Eu diria que a pressão in­ter­na­ci­onal é muito im­por­tante, de países, go­vernos, ins­ti­tui­ções, Es­tados, or­ga­ni­za­ções in­ter­na­ci­o­nais. Se pos­sível, pressão da so­ci­e­dade civil como em re­lação ao apartheid da África do Sul. E se pos­sível, a pro­moção do mo­vi­mento global BDS (Boi­cote, De­sin­ves­ti­mento e San­ções). Deu certo na África do Sul, pode dar certo na Pa­les­tina. Que as pes­soas não deixem de ex­pressar a so­li­da­ri­e­dade com a Pa­les­tina, nas redes so­ciais e onde quer que seja.

E vi­sitem a Pa­les­tina. Lá, po­derão ver o que é apartheid e ocu­pação in loco. Não são pa­la­vras. São si­tu­a­ções reais. Co­nhe­cerão um país muito belo, que tem uma das me­lhores cu­li­ná­rias (por sinal, ba­rata) e re­cep­ti­vi­dade do mundo. O país é um grande sítio ar­que­o­ló­gico, um museu a céu aberto em quase todo o ter­ri­tório, onde se en­contra tudo que diz res­peito ao nas­ci­mento da his­tória hu­mana e do mo­no­teísmo.


Ga­briel Brito é jor­na­lista e editor do Cor­reio da Ci­da­dania.

Publicado originalmente em Correio da Cidadania

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