BREVE AVALIAÇÃO DAS MAIS RECENTES MANIFESTAÇÕES #FORABOLSONARO

MANIFESTAÇÕES #FORABOLSONARO

As quatro manifestações #FORABOLSONARO realizadas no prazo restrito de um mês (29/5, 19/6, 3/7 e 29/7) foram muito bem-sucedidas politicamente, mas podem avançar ainda mais, uma vez que não alcançaram o “teto” em relação ao número de pessoas mobilizadas e têm potencial para impactar mais decididamente a conjuntura nacional.

Sob o ponto de vista da quantidade, o que se viu nos atos até agora realizados foram milhares de pessoas nas ruas Brasil afora, espalhadas em todos os Estados e no Distrito Federal, com interessantes repercussões também no exterior: contabilizou-se, em 24 de julho, mobilizações em aproximadamente 500 cidades e 17 países. Destaque-se no Brasil a massiva presença de jovens e mulheres, bem como de muitas torcidas organizadas, as mesmas que deram início à expulsão das ruas de minúsculos e barulhentos grupos neofascistas bolsonaristas.

No mais recente ato, o de 24 de julho, ocorreu aumento do número de participantes em alguns locais, particularmente, em no sul e em capitais nordestinas, pequena redução em outros e manutenção de bem alto número geral de mobilizados(as), o que não é nada fácil, considerando o período pandêmico vivido e a vacinação ainda patinando. Interessa observar a importante ampliação do movimento para cidades menores, como destacaram os(as) organizadores(as), demonstrando a capilaridade das manifestações, que atingiram alguns rincões, muitos dos quais concentrando base bolsonarista.

Considerando o aspecto qualitativo, tem sido muito auspicioso ver o povo na rua mobilizado pela bastante plural esquerda brasileira, demonstrando algo inovador na recente história política nacional: unidade na luta.

Vários fatores têm colaborado com essa novidade. Mas, sobremaneira, a referida unidade tem sido garantida graças à pauta das manifestações, consensuada pelos partidos e movimentos sociais que se localizam à esquerda no espectro político-ideológico nacional. Ela não é restrita apenas e tão somente ao “#FORABOLSONARO, auxílio emergencial, saúde e educação de qualidade, vacina no braço e comida no prato”, pois avança para a “recusa às reformas neoliberais e ao neofascismo”; esses dois últimos pontos fortemente contradizem o que há de mais central no projeto bolsonarista. É essa pauta que tem espantado das manifestações partidos e organizações de “centro” e de direita, que aceitam o #FORABOLSONARO porque precisam dele, até para se apresentarem em condições razoáveis para 2022, mas não têm acordo com a negação das reformas neoliberais e flertam, aqui e acolá, com propostas conservadoras no âmbito dos “costumes”. Assim, a referida unidade na pauta tem colaborado para fechar algumas portas à presença e cooptação das manifestações pelo “centro”, direita e neofascistas, como ocorreu com as Jornadas de Junho de 2013.

A cobertura da TV aberta, particularmente, da Globo, não tem sido desfavorável ao movimento. Pelo contrário, foca na pauta #FORABOLSONARO com clareza e até chega a mostrar cartazes e faixas contra o neoliberalismo e o neofascismo, bem como as organizações que os empunham. Parece, entretanto, que a Globo se incomoda com a prevalência do vermelho, cor que historicamente identifica a esquerda, porquanto mesmo sendo incipiente o “verde-amarelo” e as bandeiras do Brasil (estética próxima ao “centro”, defendido pela Globo), ela insiste em destacar essas imagens no meio do mar rubro. 

As manifestações estão reunindo uma multidão que, política e ideologicamente, está posicionada da esquerda para a “extrema” esquerda. A presença de partidos de “centro esquerda” ou “centro”, como o PSB e o PDT (avaliação que depende muito do-a analista), são mais recentes. 

Assim configuradas as manifestações, ao observar quem delas estão participando, percebe-se que é ainda é uma “vanguarda” de integrantes de partidos e movimentos sociais, pessoas não articuladas com eles organicamente, mas próximas de suas concepções de mundo e da ação política que desenvolvem, bem como suas “franjas”, isto é, indivíduos não tão politizados(as) e revoltados(as) com a situação atual. Cabe ressaltar que, desde a queda do Muro de Berlim, não se via tão claramente sendo defendido nas redes e nas ruas posições político-ideológicas como os diversos marxismos, em geral, o marxismo-leninismo e o trotskismo, em particular, entre outros, o que é de se comemorar.   

Partidos e movimentos sociais com pouca expressão nas urnas e, consequentemente, na institucionalidade burguesa, têm aparecido bastante nas manifestações, com enorme identidade visual e articulada organização. Isso precisa continuar, dentro da unidade que tem caracterizado as manifestações, sobretudo, respeitando as deliberações coletivas, que são feitas pelos(as) organizadores(as) em plenárias. Não é recomendado que nenhuma organização, por si mesma, tome atitude que possa prejudicar as manifestações coletivas, seja desviando-as dos propósitos que são definidos coletivamente, seja “roubando-lhes” a repercussão positiva que possam ter nos meios de comunicação novos e velhos.

Unificada na ação, reunindo muita gente na rua e boa repercussão na mídia tradicional e nas redes sociais, as manifestações pelo #FORABOLSONARO estão colaborando para que a esquerda retome o protagonismo político, depois do desastre que foi a eleição de Bolsonaro, decorrente de uma onda conservadora mundial com forte repercussão no Brasil, onde mais evidentemente foi sentida desde as Jornadas de Junho de 2013. 

O status alcançado pela esquerda nacional, com as manifestações de rua, tem causado tensões no governo bolsonarista e sua base, que ameaça golpe, com poucas condições de ser efetivado no momento, cabe enfatizar. Eleitoralmente, elas pavimentam um bom caminho para 2022 com Lula, tensiona para que o programa dele represente a pauta do movimento e, ao mesmo tempo, inabilita alternativas da chamada “3ª via”. A propósito, as mais recentes pesquisas têm demonstrado isso, com a ascensão de Lula a cada nova rodada divulgada e inexpressão de qualquer outra alternativa a Bolsonaro em 2022.

Nas próximas manifestações, todo o belo avanço conquistado até o momento pode ser não só mantido, mas otimizado, ampliado, expandido, tanto quantitativa, quanto qualitativamente.

Seria muito producente, aos propósitos da esquerda, que as organizações envolvidas nas manifestações, particularmente, os movimentos sindicais, conseguissem trazer a base para as ruas e ainda articular ações específicas, como greves setoriais e mesmo greves gerais. Além disso, é preciso atrair para as manifestações o “povo” não tão politizado, diretamente atingido pela falta de vacinas, pelas políticas neoliberais e pelo neofascistas, enfim, a população revoltada com as ações e/ou as omissões do governo do inominável. Esse “povo”, provavelmente, não empunhará a bandeira vermelha nas mãos, seja deste ou daquele partido ou movimento, mas provavelmente se sentirá confortável em se paramentar de “verde-amarelo”. De modo que é preciso ter compreensão em relação a isso, se se quer ampliar o movimento para além dos círculos restritos que hoje estão nas ruas.

Cabe mencionar que os ataques contra a democracia, que Bolsonaro intensificou nas últimas semanas, incluindo o atentado contra o processo eleitoral, se bem trabalhado pelos(as) organizadores(as) das manifestações, poderão ampliar a mobilização de participantes, atingindo setores sociais que até o momento não se integraram a elas. Além disso, é sabido que, em agosto próximo, poderão ser incorporados às manifestações muitos alunos e alunas de escolas de diferentes níveis de ensino, pois se planeja a volta às atividades presenciais em várias regiões do Brasil, aumentando ainda mais a já forte presença da juventude. Todavia, para que isso aconteça, é indispensável inovar as formas das manifestações, fazendo-as dialogar com as identidades e a linguagem da juventude atual, que não são as mesmas das de décadas passadas. 

As manifestações precisam estar mais próximas, necessitam tensionar instituições e pessoas responsáveis por encaminhar o impedimento de Bolsonaro ainda em 2021, sob pena, entre outras, de aprofundar a miséria e a fome, ampliar o desemprego, aumentar o entreguismo do patrimônio nacional e acrescentar ainda mais cadáveres às inaceitáveis e inacreditáveis mais de 550 mil mortes por COVID-19 em nosso país. Aproveitando-se das mazelas que são reveladas e denunciadas pela CPI da pandemia de COVID-19 em curso e do que já havia sido incorporado às centenas de pedidos de impeachment protocolizados, os próximos atos e/ou “interatos” (pequenos eventos entre as grandes manifestações de massa) devem pressionar diretamente Augusto Aras e Arthur Lira (responsáveis por encaminhar impedimentos de Bolsonaro), e “assustar” a base parlamentar do governo. 

A quem deseja o #FORABOLSONARO, auxílio emergencial, saúde e educação de qualidade, vacina no braço e comida no prato, bem como derrotar as reformas neoliberais e o neofascismo, é preciso investir nas manifestações, pois elas colocam o povo em movimento e, assim, o faz sentir as correntes que o aprisiona à alienação social e à exploração econômica.

Marcos Francisco Martins

Docente da UFSCar campus Sorocaba e 

pesquisador do CNPq

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