A estátua de Borba Gato e a memória reacionária paulista

Os bandeirantes ainda são tratados como heróis e fundadores da nação, pelo menos no estado de São Paulo. A mitologia Bandeirante celebra o caráter desbravador e, sobretudo, violento de homens aventureiros que impulsionaram um processo civilizatório hediondo que escravizou povos indígenas e sustentou a ordem escravocrata que explorou o trabalho dos africanos. As campanhas sanguinárias dos Bandeirantes viabilizaram a colonização portuguesa e foram fundamentais para a organização de hierarquias sociais e raciais que atravessariam a trajetória do Brasil.

A memória construída em torno dessas figuras procurou se legitimar através de narrativas que atribuíam às bandeiras o caráter expansionista que garantiu o espaço continental do território brasileiro. A constituição dos relatos históricos sobre os bandeirantes foi a maneira que a província paulista procurou afirmar a sua relevância regional diante de outros estados brasileiros. Os paulistas optaram pela invenção de uma tradição que combinava progresso e violência, uma locomotiva da modernidade se deslocando sobre ossos indígenas.

O espírito bandeirante do paulista seria celebrado em diferentes espaços da capital, um dos mais importantes o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual. Entretanto, a imponência do furor bandeirante se revelaria no Monumento às Bandeiras, inaugurada em 1953, no contexto de comemoração IV centenário da cidade de São Paulo. Ao longo do tempo, a paisagem bandeirante foi se naturalizando com logradouros públicos como a Avenida dos Bandeirantes, Rodovia Raposo Tavares, Rodovia Fernão Dias e a Rodovia Anhanguera. Em um movimento paralelo, os massacres liderados pelos bandeirantes e as experiências indígenas e negras ficaram circunscritos a uma memória subterrânea.

Um dos últimos monumentos de enaltecimento dos Bandeirantes foi a estátua do Borba Gato, inaugurada em 1963. Já naquele momento o monumento foi questionado e ganhou o apelido de “monstro gato”, devido ao tamanho e a pobreza estética, mas principalmente pelas “aventuras” genocidas que dizimaram indígenas e quilombolas. O trambolho de Santo Amaro foi o último suspiro da memória bandeirante que já perdia fôlego, mas que continuou a ser glorificada pela elite reacionária paulista. Ainda que houvesse o esforço de retratá-lo como “caçador de esmeraldas”, o que prevaleceria seria uma outra memória que enfatizava o extermínio de indígenas e escravizados, o estupro de mulheres indígenas e apropriação de riquezas.

Os Bandeirantes se foram, mas a memória que homenageia os desbravadores da América portuguesa ainda tem a sua funcionalidade. Borba Gato e outros bandeirantes foram elevados ao status de fundadores da nação porque representaram uma modernidade autoritária e repressora das demandas populares. O espírito paulista, inspirado nos Bandeirantes, preza pela ordem e pela hierarquia e se desestabiliza quando confrontado por impulsos civilizatórios que incorporam à cidadania as populações subalternizadas. O Borba Gato não é uma peça isolada da memória de bandeirante que resiste ao tempo, mas uma entre as várias que alimentam as narrativas retrógadas que retomaram espaço na esfera pública com a reação conservadora aos avanços sociais sob o governo do Partido dos Trabalhadores.

Flavio Thales Ribeiro Francisco – Professor dos bacharelados de Ciências Humanas e Relações Internacionais da UFABC

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