Sobre a entrevista de Aldo Rebelo

Li com atenção a entrevista de Aldo Rebelo.
Aldo é um homem correto e merece nosso respeito pela vida dedicada à luta social, à democracia e por sua militância em um dos principais partidos da esquerda.
Em sua entrevista se apresenta como candidato à presidência da república e levanta questões programáticas que o inquietam.
Encarei a entrevista mais como a manifestação de uma preocupação com a necessidade e a urgência de discutir um programa comum que possa nos levar a uma retomada da democracia e para retomarmos o desenvolvimento do país. O entrevistado procura definir as prioridades para que sejamos bem sucedidos em 2022.
A entrevista é mais uma performance para ser ouvido do que propriamente o lançamento de uma candidatura.
As questões que levanta eu agruparia em dois conjuntos: o programa eleitoral a ser adotado pelas forças democráticas e a definição do que é prioritário e o outro conjunto são as visões que ele acaba expondo sobre as lutas chamadas identitárias e as questões ambientais e culturais.
Trata, à partir de uma postura antiga, de questões atuais. Tenta responder à questões do mundo atual com uma visão de antigamente . Aldo ignora, e não é de agora, as muitas voltas que o mundo já deu desde a década de 60 do século passado e que a visão política da esquerda já teve que se renovar desde as traquinagens de Nikita Khrushchov e Mikhail Gorbatchov.
Muitos comunistas, principalmente depois da queda do muro de Berlim, procuraram se manter fiéis e comprometidos com seus ideais da época ao ponto de rejeitarem e ignorarem o mundo e tudo que foi aparecendo e surgindo nesta viajem louca e surpreendente da humanidade.
Ninguém imaginava a resiliência e capacidade de se manter do capitalismo e os caminhos que o mundo tomou virou um desafio muito complexo transformar o mundo em busca da igualdade.
Cá estamos nós, resistindo e buscando entender e transformar esse mundo que nos deram para viver. A visão doutrinária, o dogmatismo e a ortodoxia não nos ajudam nem servem para entendermos o mundo atual, nem para transformá-lo.
Aldo faz algumas criticas que merecem ser consideradas e respondidas, misturadas com uma postura antiga, conservadora, que são posições que eram características de boa parte da esquerda até os anos finais da ditadura e os primeiros anos da década de 80.
Eu me lembro, quando cheguei do exílio, no ano de 1980, depois de quase 9 anos entre o Chile e a Suécia, de duas posturas do PCdoB que me chamaram a atenção. Uma era o culto à Stalin. Via pelas ruas jovens militantes com a foto de Stalin na camisa e o slogan Viva Stalin! E assinado pelo PCdoB. Me pareceram uma tentativa de preservar o passado, através de uma posição ideologicamente conservadora.
E a outra era a rejeição à uma tomada de consciência da crise ecológica que o planeta vive e às lutas em defesa da natureza. Essa posição de negação -não é só a direita que é dada a negacionismos- da contemporaneidade com seus desafios, tinha sua expressão principal no slogan A Amazônia é nossa! também muito presente nas camisas dos jovens militantes do partido.
Como se não existisse a destruição da floresta e essa destruição não fosse uma tragédia contemporânea de proporções planetárias, ou que pudéssemos fazer o que quiséssemos com ela. A questão da Amazônia não passava de uma questão de soberania. E, por isso, a questão relevante era a defesa dessa parte do território. Colocavam assim a luta por justiça social em contradição com a luta em defesa da natureza e pela sustentabilidade. Curioso e significativo, que essa posição era também defendida na época por Roberto Freire, dirigente do Partidão, que dizia que era reacionário colocar entraves para o desenvolvimento das forças produtivas. Não demonstrava ter a menor consciência dos impactos ambientais, alguns irreversíveis.
O PCdoB evoluiu nestes anos, impulsionado pela sua relação com a juventude e através do seu engajamento com dois movimentos sociais, o movimento estudantil e o movimento negro.
Eu não sei como anda o programa político oficial do partido mas, na prática, o PCdoB já não é mais o mesmo.
Até em relação às drogas tem hoje uma posição muito mais arejada. Também, para ser justo, nunca foram racialistas, conduzem a luta contra o racismo sem abrir mão do sentimento de pertencimento ao conjunto da humanidade, sem abrir mão das tradições comunistas oriundas da terceira internacional. Não caem no erro muito comum no movimento negro e que tem tido passagem livre nos partidos de esquerda, de ver na desigualdade racial a principal questão da nossa sociedade e os brancos em geral seriam os grandes algozes.
O capitalismo e a burguesia com sua estrutura de exploração da mais valia dos trabalhadores são substituídas pela branquitude_e a luta pelo socialismo cede lugar à luta pela aceitação individual nesta sociedade cujo principal defeito seria a desigualdade entre brancos e negros. Uma posição muito mais coerente no meio liberal. As questões apresentadas por Aldo Rebelo e seu posicionamento não são totalmente desprovido de razão. O problema é que seu ponto de vista, sua posição ideológia, não resisto, _seu lugar de fala , ficou cravado em um lugar distante do passado que não volta mais.
As chamadas lutas identitárias que podem ser vistas como parte das lutas emancipatórias do povo brasileiro, compõem as lutas sociais do nosso tempo de agora, como as lutas das mulheres, dos negros, as lutas dos povos indígenas e da comunidade LGBTQIA.
Eles expressam o desejo de igualdade de direitos e oportunidades, significam o direito à singularidade e a aceitação da diversidade humana. Essas lutas objetivamente colaboram para aprofundar e alargar a luta democrática e o próprio conceito e interpretação do que vem a ser democracia.
Os liberais ( sem incluir aqui os neoliberais) quando querem contribuir, não ultrapassam o compromisso com o processo eleitoral, a liberdade de expressão e os direitos individuais, sem sombra de dúvida questões importantes para quem defende a democracia. Nós temos um conceito de democracia muito mais amplo, que faz dessas lutas de setores da sociedade em luta de todos.
Precisamos incorporar profundamente essas lutas de homens e mulheres como lutas de todos como parte do nosso programa. Sem esquecer as lutas dos povos indígenas, parte dessas lutas contemporâneas e que também é nossa.

Por Juca Ferreira

Foto de Felipe Rau/Estadão

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