PARTIDO INTEIRADO DE SI

“Já faz três noites que pro norte relampeia
E a asa branca ouvindo o ronco do trovão
Já bateu asas e voltou pro meu sertão
Ai, ai, eu vou-me embora, vou cuidar da prantação” Luiz Gonzaga

Toda vez que vejo o Lula no Nordeste eu me lembro da letra da música “A Volta da  Asa Branca”. A música é a continuação epopeica do hino do Nordeste composto por Gonzagão e Humberto Teixeira: “Asa Branca”. São dois forrós que retratam com perfeição a vida do povo do Sertão, tanto em tempos de seca como em tempos de chuva, ou inverno, como falamos por aqui. No sofrer ou na bonança, nossa música é alegre para festejar a vida e a lida difícil. E o que vi virtualmente na recepção festiva e emocionante a Lula foi o espírito destas duas músicas. O encontro com o Lula foi como ver o “mandacaru fulorar”, ou seja, sinal de fim de seca,  ao mesmo tempo que todos tinham histórias de dores, os contares foram ditos com alegria por ainda estarmos juntos na luta para reconstruir a vida e plantar o novo. Mas, nem tudo são flores ou xote, pois há quem pise na fulor, e maltrate o tempo histórico.

Primavera interrompida?

Ainda neste mês de agosto, no dia 06, saiu uma foto do Governador Camilo Santana em reunião com os irmãos da Oligarquia Ferreira Gomes, no caso o eternamente presidenciável Ciro Gomes e o senador Cid Gomes, com a seguinte rubrica: “ Recebi esta tarde, no Palácio da Abolição, os ex-governadores, meus amigos, Ciro Gomes e Cid Gomes, hoje senador da república. Conversamos sobre a conjuntura nacional, defesa da democracia, e sobre ideias e ações para melhorar a vida do nosso povo”… (cont.). Sabemos na política que as disputas se dão também por imagens. Muito se comunica através de fotos, vídeos ou outros símbolos. A imagem dos três conversando na sede do governo estadual e a rubrica explicita a aliança entre o governador que leva a sigla petista e os políticos citados. Esta imagem é lamentável e também revoltante. Lamentável por entender que o senhor Camilo Santana poderia ter uma postura mais corajosa para a sua história e fazer um enfrentamento de políticos que também foram responsáveis pela eleição de Bolsonaro. E revoltante pelo completo descompromisso de Camilo com a história do Partido dos Trabalhadores e com a militância que trabalhou inclusive para elegê-lo. Os dois políticos em questão têm como prática recorrente fazer xingamentos ao PT, a várias lideranças e a militância petista. O ódio das palavras de Ciro Gomes endereçadas há anos para Lula é o mesmo ódio de classe que a cultura bolsonarista e burguesa têm. E lembremos, que uma foto feita as vésperas da vinda de Lula ao Ceará, tem um comunicado político para o nosso estado e para o Brasil.

Mas, o grande problema não está só nos desacertos políticos ou na filiação de Camilo ao projeto Ferreira Gomes, o problema está na apatia e na covardia com que se comportam o PT Ceará e PT Fortaleza diante de tantos absurdos. Estamos vendo um tipo de subserviência vergonhosa até no campo pessoal, pois nenhuma aliança é possível sem que seus interlocutores tenham o mínimo de tratamento respeitoso entre si. Importante lembrar que a forma vulgar e desqualificada dos Gomes é expressão de poder tradicional das antigas oligarquias do Nordeste. Mesmo vendendo-se como homem franco, autêntico e corajoso, Ciro não passa de um sujeito abrutalhado, que gosta de arroubos senhoriais e só faz isso com quem ele acha que tem menos força do que ele, ou para agradar a burguesia.

De alguns anos para cá, a subserviência às necessidades políticas do projeto pessoal da família Ferreira Gomes tem se sobressaído frente a mais importante tarefa do Partido dos Trabalhadores no Ceará que é a de construir um partido realmente representativo da classe trabalhadora. Um partido que tenha dentro de si práticas democráticas, viabilizadas por um fazer político dialógico, fora dos padrões de opressão do sistema capitalista e sem hierarquias impostas pela cultura excludente das elites. A construção de um Partido que tenha coragem de lutar pelas demandas históricas da classe trabalhadora é também a construção de um espaço de exercício utópico onde a forma de se fazer política não pode ser a mesma forma autocrática, oportunista e carreirista da burguesia, ao contrário, precisamos fazer de nosso cotidiano militante um eterno, profundo, minucioso e persistente trabalho de refundação das relações interpessoais da relação com o poder e a política. A forma instrumental de se relacionar com as pessoas e consequentemente com o PT, produz um aprisionamento de nossa coragem política e um envelhecimento de nosso partido. Talvez seja por isso que hoje temos dificuldade de nos comunicarmos com a juventude, envelhecemos sem valorizar a nossa sabedoria.

As consequências desta inapetência petista de nossos dirigentes fez  da visita de Lula uma espécie de revival dos tempos das viagens institucionais do Lula presidente. Cumprindo um protocolo dirigido pelo Governo Camilo, não percebi a presença do PT, mas sim dos cargos ocupados pela sigla e seus caciques. Se repararmos nas fotos das atividades não encontraremos Lula ao lado do presidente do PT Ceará, mas sim do governador Camilo. Senti a falta da presença do Partido enquanto partido e sua organização, mas vi deputados, vereadores e o governador. Esclareço no entanto, a presença destas pessoas que ocupam cargos é necessária, mas não é o poder do cargo que deve dar a pauta política de uma reunião importante como esta. Se temos consciência de que a nossa tarefa passa pelo fortalecimento do Partido dos Trabalhadores, então temos que fazer isso com urgência. Mas, talvez isso não seja do interesse de todos, ou talvez nem todos tenham esta coragem histórica. Construir e fortalecer o PT é um ato de desapego. É da tarefa de construção de um partido representante da classe trabalhadora que surgirá uma nova sociedade e um novo ser humano. Refundando a nossa relação com o poder e com a política.

Então, para que PT?

Para não eleger políticos e pautas oligárquicas, burocráticas e senhoriais. Para construir uma política de base junto com a classe trabalhadora, estando atento ao calendário eleitoral, mas sem fazer dele o definidor da vida partidária. É para praticar uma política dentro dos ensinamentos freireanos, onde compreendemos que todos temos sabedoria e que podemos aprender e criar conhecimento em qualquer lugar onde estejamos, nas escolas, nas universidades, nas ruas, nas casas da gente e de quem visitamos, nos museus, nos teatros, ou seja, onde tiver um olhar desvelador da realidade e problematizador do mundo. Se pensamos em Nova Primavera, temos que cuidar do cultivo das flores. Por isso, “para não dizer que não falei das flores”, da arte e de gente, eu me declaro: Gosto de Rosa. E quem sabe? Podemos fazer acontecer uma primavera… Mas, tem que ser de revoada, pois se “uma andorinha só não faz verão”, quanto mais uma primavera, e mesmo “eles passarão” e sem saber voar, e nós “passarim”, não podemos passar em branco, pois a nossa bandeira é vermelha.

Ecila Meneses, militante petista, coordenadora do Núcleo de Base Américo Barreira, professora e atriz.

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Este post tem um comentário

  1. Elza Franco Braga

    Excelente artigo que expressa a realidade atua, sobretudo do PT do Ceará descolado de uma realidade que concentra renda e poder nas mãos de poucos. Enquanto isso, a grande maioria empobrece, a fome aumenta, o emprego é escasso e o trabalho se precariza. As saídas existem e o artigo aponta várias. Falta coragem, determinação e um trabalho de base consiste a fim de apontar uma luz no fundo do túnel.

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