O funambulismo da direita neoliberal

Há uma grita na direita, entre editoriais e articulistas conhecidos, mas nada de fundamental é proposto pelos porta-vozes do neoliberalismo quando urram alardeando a subida da fervura golpista. Como funâmbulos cruzando a corda-bamba já no trecho final, o importante para eles é pedir socorro sem perder o foco: a meta é atravessar o mês de setembro e completar com êxito o desafio da reforma administrativa e da reforma eleitoral, ganhando como bônus o novo imposto de renda.

Uma respiração profunda, mais alguns passos e os equilibristas do mercado financeiro, que pactuaram com o fascismo, alcançarão a margem segura, deixando para trás os jacarés insanos em direção à nova etapa, a construção da terceira via. Mas neste tramo final a corda anda muito esticada e obriga ao movimento dos braços abertos.

Essa ressalva das verdadeiras intenções precisa ser feita, o que não significa desmerecer o alerta, aliás, alerta que vem sendo feito pelas esquerdas há muito tempo, muito antes de Bolsonaro chegar ao poder.

A fervura está mesmo no ponto alto, justifica a grita, mas recepcionar de braços abertos os arrependidos e colaboracionistas exige um pouco de malícia por parte dos verdadeiros democratas.

É certo que a deterioração institucional e as ameaças de ruptura facilitam o perdão aos que apoiaram o golpe de 2016, aos que votaram no Bolsonaro ou viabilizaram os abusos da Lava Jato contra o país. Lula dá o exemplo e mostra um caminho. Fernando Henrique Cardozo reage com civilidade, a comemorada civilidade na política. Governadores se unem para apoiar os freios e contrapesos aplicados pelo STF ao bolsonarismo e Dória dá um soco na mesa. Lula já não é o grande mal, e isso não é pouca coisa.

Mas atenção. Quem cozinha sabe que é preciso jogar vinagre na fervura para evitar que os ovos se rompam. Acostumados ao léxico do mercado financeiro, os setores que abrem os braços pedindo apoio às reformas como condição para defender a democracia costumam registrar no formulário de suas aplicações o perfil “arrojado” e isso porque jogam com o dinheiro e os direitos dos outros e não com os próprios. O risco é praticamente zero, mas há eleições em 2022. Quando estes setores clamam desesperados por providências das Forças Armadas, do Congresso, do Ministério Público e da Justiça, estão também traindo os antigos aliados, é da natureza.

Carol Proner é professora na UFRJ, integrante da ABJD e do Grupo Prerrogativas

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on telegram
Telegram
Share on whatsapp
WhatsApp

Deixe um comentário