Só a organização salva

Passada a jornada de 7 de setembro são diversas as análises políticas sobre as manifestações da direita e da esquerda, mas uma questão tem sido pouco discutida e analisada superficialmente pela esquerda: a organização da campanha (ou movimento) Fora Bolsonaro.

Não se trata do debate sobre Frente Ampla ou de Esquerda, mas de questões práticas e objetivas de como está organizado o Fora Bolsonaro.

Do final do período da ditadura até hoje o país teve diversas campanhas e/ou movimentos cívicos impulsionados por setores democráticos, progressistas e de esquerda, com diferentes graus de participação popular. Tivemos: campanha pela Anistia; movimentos grevistas do final da década de 1970 e começo dos anos 1980; campanha pelas Diretas Já; campanha e/ou mobilização pela Participação Popular na Constituinte; Fora Collor e mesmo o Ele Não, exemplos de mobilizações e campanhas que podemos chamar de cidadãs, no sentido que transpassavam e buscavam incorporar o maior número de pessoas independente de sua organização e/ou filiação e militância à partidos, sindicatos, entidades, associações, etc.

Destas, sem dúvida, a que incorporou o maior número de pessoas foi a das Diretas Já. Foi uma campanha que incorporou setores populares massivos, organizados ou não em estruturas partidárias, sindicais, movimentos populares etc.

Ciente que vivemos outros tempos, mas também cientes que devemos aprender com a história, cabe resgatar algumas características organizativas da campanha das Diretas Já. Inicialmente, cabe lembrar que houve poucos megacomícios centralizados. Em São Paulo (desconsiderando o primeiro, chamado exclusivamente por partidos de esquerda e realizado no Pacaembu) foram dois: dia 25 de janeiro de 1984 na Praça da Sé e no dia 16 de abril de 1984 no Vale do Anhangabaú; no Rio de Janeiro passou para a história somente o comício da Candelária, realizado em 10 de abril de 1984.

Parece estranho que uma das maiores campanhas populares do país tenha passado para a história com tão poucos comícios considerados de massa, mas essa é a questão: a campanha das Diretas Já não se resumiu a esses grandes comícios, sua organização possibilitou uma capilaridade na sociedade que resultava em incontáveis ações espalhadas pelo país e é com ela que creio devemos aprender algumas lições.

O traço mais relevante foi a organização de Comitês pelas Diretas Já em níveis nacional, estaduais e municipais; e o mais relevante, nos bairros, fábricas, escolas, igrejas, sindicatos, associações profissionais, instituições políticas etc., aos que chamarei Comitês de Base.

Ao Comitê Nacional, além da coordenação política do movimento, cabia a organização dos megacomícios e outros eventos de corte nacional. Cumpria também o papel de disseminar material da campanha: foram contratados (não saberia dizer se de forma paga ou voluntária) profissionais de comunicação que criavam peças publicitárias (adesivos, camisetas, bandeiras, etc), logomarcas e outros materiais que eram repassados aos Comitês de Base, ou mesmo, serviam de matrizes para a produção de materiais nos Comitês de Base.

Mas o que garantiu o envolvimento organizativo das massas na campanha foram, sem dúvida, os Comitês de Base. Foram eles os principais responsáveis por disseminar e organizar a campanha no conjunto da população. Eram incontáveis as ações, debates, panfletagens, comícios e atos locais e municipais em todo o país. Políticos, dirigentes sindicais e de movimentos populares e mesmo artistas percorriam o país em atos, comícios e debates; eventos onde muitas vezes era possível fazer o debate político com a população relacionando as eleições diretas com a possibilidade de melhoria das condições de vida da população. Decorrentes dessa organização nos atos e comícios, a convocação e organização de caravanas era extremamente facilitada. Esses Comitês tiveram a capacidade de envolver os setores não organizados e/ou não militantes da população, em boa medida responsáveis pelas características de massa da campanha pelas Diretas Já.

Passados mais de 30 anos chega a ser inacreditável o grau de voluntarismo e desorganização da campanha Fora Bolsonaro, desde a confirmação de datas e locais, até a estrutura de campanha de comunicação, o que vemos é um festival de desencontros e falta de coordenação incompatíveis para um movimento que busca a retirada de um governo nos moldes de Bolsonaro: um governo com poder e apoio de parcela considerável do poder econômico, parlamentar e militar; um governo que opera com enorme eficiência seus canais de comunicação de massas (em moldes e práticas questionáveis, mas que dão resultado) e principalmente um governo que possui sim uma base de massas, que ocupa as ruas, com capacidade de organização e poder econômico para tanto, algo que não ocorria nas outras campanhas populares.

O fato é que o nosso lado está, do ponto de vista organizativo, se comportando de forma inacreditavelmente amadora (no bom sentido da palavra) enquanto o outro lado o faz de maneira profissional e vitaminada por recursos e uma base de massas.

Não se trata hoje de reproduzir mecanicamente o que foi feito no passado, mas considerar a questão organizativa como um erro sem importância é um equívoco que pode levar a deploráveis consequências, isso sim uma lição histórica que devemos levar em consideração.

Emilio Font – Arquiteto e militante do PT

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