Os Dilemas do Capitão do Mato e da Casa-Grande

Que o Brasil não é para amadores todo o mundo já sabia. Mas, com Bolsonaro, a coisa está ficando difícil até para os mais experimentados profissionais.

O grau de volatilidade do cenário político é tanto que as análises de conjuntura têm prazo de validade de apenas algumas horas. Num momento Bolsonaro, uma dissidência do Homo Sapiens, parece estar ensaiando um autogolpe e, no outro, Michel Temer, o profissional dos golpes, parece estar mandando de novo no país.

Os meandros tortuosos e contraintuitivos da física quântica são mais fáceis de serem entendidos. Na política brasileira, o gato dentro da caixa não apenas pode estar vivo ou estar morto. Pode estar se fingindo de vivo ou se fingindo de morto, vociferando contra a corrupção ou fazendo algum esquema no MS, atacando o STF ou buscando um habeas corpus no STF, envergando a bandeira nacional ou vendendo o patrimônio brasileiro, arfando coragem e furor ou buscando exílio no México. Muitas variáveis bizarras e contraditórias.

O Brasil, hoje, é uma mescla improvável de opera bufa com teatro do absurdo.

Mas há alguma lógica no caos construído. Bolsonaro esperava que o seu sequestro do 7 de setembro, o maior peculato político e simbólico da história, se tornasse o pontapé inicial de uma grande reviravolta política, que o retirasse das cordas de sua contínua desidratação, ocasionada por uma profunda crise econômica, social e sanitária.

Ele nutria a esperança de que a mobilização da massa fanática e furiosa dos 20% que ainda o apoiam, motivada também por uma dinheirama de origem desconhecida, talvez até, em parte, de origem externa, emparedasse as instituições e a oposição. No limite, se poderia até decretar o estado de sítio ou o de defesa, de forma a se iniciar um processo de destruição definitiva do que restou da democracia brasileira.

Houve, no entanto, um grosseiro erro de cálculo.

O capitão do mato achou que podia mandar na casa-grande. Não pode. O capitão do mato, embora tenha a função crucial de controlar os escravos, é também um mero empregado dos reais senhores.

É preciso entender que o golpe de 2016, a Lava Jato, a prisão sem provas de Lula e a eleição de Bolsonaro foram realizados com um grande e perene objetivo: enterrar o projeto progressista encabeçado pelo PT e implantar a Pinguela para o Passado, um modelo ultraneoliberal, socialmente regressivo e de aprofundamento da dependência.

Acontece que Bolsonaro não está cumprindo adequadamente essa função essencial. Em primeiro lugar, por causa da crise institucional que ele mesmo criou, Bolsonaro não está conseguindo aprovar as reformas prometidas ao capital para sedimentar, em solo pátrio, o modelo pretendido. Em segundo, sua estratégia de confronto permanente e sua insistência paleolítica em agendas de extrema-direita estão prejudicando “os negócios”.

Na realidade, as fricções entre o capitão do mato e a casa-grande vêm se acumulando há tempos.

Nesse contexto, o recuo, registrado para a posteridade por Temer, com erros de português e sem mesóclises, não foi o primeiro imposto a Bolsonaro. Houve outros igualmente significativos, embora menos estrondosos.

O primeiro foi na política externa.

O chanceler pré-iluminista, admirador de Trump e caudatário de grandes expoentes do “pensamento” do Ocidente cristão, como Steve Bannon e Olavo de Carvalho, teve de ser substituído por um diplomata profissional e racional. A substituição foi imposta por grandes interesses econômicos, inclusive os do agronegócio, atemorizados pelos conflitos constantes com a China e com as agressões contra tradicionais parceiros do Brasil, como Alemanha, França, Rússia, Argentina etc. Os elogios recentes de Bolsonaro à China na cúpula do BRICS foram apenas a culminação de um processo de correção de rumos que se desenvolve há meses.

O segundo foi na política ambiental.

A eleição de Biden e as fortes suspeitas de corrupção do ex-ministro antiambientalista, somadas aos grandes prejuízos acarretados ao país e aos seus negócios pela insistência numa desavergonhada predação ambiental, obrigaram Bolsonaro a recuar. Os setores mais esclarecidos do capital entenderam que, caso não houvesse esse recuo, o Brasil não entraria na OCDE e o Acordo Mercosul/UE não seria aprovado. Esses são sonhos de consumo das nossas oligarquias colonizadas. Por isso, o Bolsonaro curvou-se à pauta ambiental, na cúpula convocada por Biden.

O terceiro foi na política sanitária.

Graças, em boa parte, à CPI, tornou-se claro que a política omissa e genocida do governo, que colocava ênfase na imunidade de rebanho e em tratamentos enganosos e inúteis, não apenas estava matando pessoas, mas também as oportunidades para que a economia voltasse ao normal. Além disso, também estava contribuindo para isolar ainda mais o Brasil, no cenário mundial. Bolsonaro, a contragosto, teve de investir em vacinas, embora com desvios de corrupção, e ainda recalcitrante, em relação às medidas não-farmacológicas.

Mas tudo isso significa que Bolsonaro foi efetivamente domado ou “enquadrado”?

Não, isso seria ingenuidade.

O fascismo é de difícil controle. É como a caixa de Pandora, uma vez aberta, impossível fechá-la.

Afinal, o fascismo se move por emoções básicas e baixas. Bolsonaro, em particular, move-se, agora, pelo medo. Ele tem dois grandes temores. O primeiro é o de ser condenado e preso. Daí sua campanha raivosa contra Alexandre de Moraes e contra o STF. O segundo é o de ser derrotado por Lula, em 2022. Daí sua campanha de ódio e descrédito contra o TSE e o sistema de votação. Tenta emular Trump e a invasão do Capitólio.

Assim, Bolsonaro é como aquele cachorro que é perigoso justamente porque é medroso. Sentindo-se ameaçado, distribui mordidas a esmo.

A História mostra que movimentos como o de Bolsonaro podem extrapolar quaisquer controles institucionais. Na Alemanha, a elites apostaram em Hitler contra o fantasma do comunismo achando que ele era “controlável”. Deu no que deu.

Embora Bolsonaro esteja se enfraquecendo há tempos, ele ainda tem poder de mobilização e o relativo controle de alguns setores estratégicos, como as polícias militares, muitas igrejas evangélicas, parte das Forças Armadas, setores econômicos ligados ao agronegócio etc. Tem também apoio da extrema-direita mundial, que aqui desembarcou em peso para ajudá-lo em seus planos golpistas.

Não está morto e, a depender das circunstâncias voláteis, pode voltar a “esticar a corda” e intentar um novo putsch. O caos o favorece.

O dilema dele é claro: submeter-se aos grandes interesses que o colocaram no poder e tentar chegar a 2022 como o único candidato capaz de derrotar Lula, alternativa crescentemente improvável, ou, na iminência da debacle, amealhar forças para dar um autogolpe, antes ou depois das eleições. Alguma coisa semelhante ao que aconteceu na Bolívia e ao que Trump tentou fazer nos EUA.

A primeira alternativa lhe imporá forte degaste em suas ensandecidas bases. A segunda tem alta probabilidade de fracassar.

Já o dilema da nossa casa-grande é mais complexo. A alternativa mais segura para proteger seus interesses seria a construção de uma candidatura competitiva da “terceira via”, capaz de derrotar Lula em 2022, já que Bolsonaro não é mais funcional e confiável.

Tal construção, porém, não parece viável. Afinal, foi a própria casa-grande que investiu em golpe contra democracia, na Lava Jato, na prisão sem provas de Lula e, sobretudo, na polarização entre Bolsonaro e o PT, que hoje é o eixo político dominante do país.

Também investiu na criminalização da política, na fragilização das instituições e na condenação do sistema de representação. Ou seja, a casa-grande, para se livrar do Lula e do PT, investiu pesadamente na criminalização e fragilização das próprias instituições democráticas e num candidato claramente neofascista, que tinha longo histórico de ataques à democracia e de elogios à ditadura e a torturadores. Nesse contexto, por ela própria criado, fica difícil voltar a disputar a hegemonia do campo conservador.

Achou que estava fazendo uma aposta muito esperta. Deu com os burros n’agua. Ou melhor, deu com um jumento fascistoide e constrangedor no Planalto.

Mas que ainda pode ser um jumento útil.

Portanto, é provável que as nossas oligarquias, na ausência de alternativas, acabem por investir de verdade em um Bolsonaro “enquadrado”, ou aparentemente enquadrado, de modo a ter como derrotar Lula em 2022 e impedir a volta de um modelo econômica e socialmente progressista. No limite, poderiam até apoiar um golpe definitivo contra a democracia do Brasil, desde que seja algo “limpinho e cheiroso”, como já fizeram antes.

Podem escrever: investirão pesadamente na inviabilização da candidatura de Lula. Virá chumbo grosso. É provável que a “terceira via” e Bolsonaro acabem cerrando fileiras contra Lula. Voltarão a investir no fantasma do antipetismo, que é justamente o que mais fortalece Bolsonaro e o fascismo.   

Afinal, o grande imperativo, para eles, é prosseguir com a implantação da agenda ultraneoliberal e retrógrada. Quando dizem que não querem nem Bolsonaro nem Lula estão dizendo, na verdade, que não querem Lula de jeito nenhum, mas que aceitariam apoiar de novo Bolsonaro, caso não haja alternativa. O “inimigo principal”, para esses setores, é Lula e seu projeto progressista; não Bolsonaro, que nem projeto próprio tem.

A vetusta casa-grande só está realmente preocupada, como sempre esteve, com seus grandes interesses. Sua preocupação com a democracia vai apenas até os estreitos limites da legitimidade formal e da estabilidade política de governos que a apoiem.

Essa é grande tragédia do Brasil. Nem o ungido capitão do mato nem a casa-grande que o colocou no poder têm compromisso real, sólido, com a democracia, especialmente com uma democracia substantiva e inclusiva. Ambos defendem apenas seus interesses mesquinhos, conflitivos nos métodos, mas confluentes na substância.

Nenhum oferece esperança de uma vida melhor à população. Oferecem apenas desigualdade, pobreza, fome, desemprego, doença, no mundo hobbesiano da distopia neoliberal. Em nome desses interesses, estão dispostos a mandar tudo às favas. Inclusive a democracia. Ou o que dela restou.

Marcelo Zero –  É sociólogo, especialista em Relações Internacionais e assessor da liderança do PT no Senado

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