Celebrando a Vida da Haydée Lima – Campinas

A coisa mais difícil do mundo é saber o que dizer nessa hora. Não porque faltem adjetivos para falar sobre a mulher, de quem eu tive a imensa sorte de ser filha. E é difícil porque ela está em todos os lugares, está no mundo, nessa vila Ipê, nessa cidade, na vacina que a gente tomou, no SUS, no meu gosto, no meu rosto, na minha crença, na minha bondade, na minha vontade de mudar o mundo, na minha alegria, na minha esperança. Ela está em toda parte, em mim e no Tiago, na Camilla e no Paulo, no meu pai, na minha avó e na minha tia, na Margarida, na Cirlene e na Marinete, nos netos, nos gatos, em cada estrela vermelha, em cada livro que eu leio, em cada olhar de criança, em cada música bonita, em cada gesto de bondade.

Haydée Lima. Fonte: Facebook

Minha mãe (e que orgulho falar dela como minha mãe) me ensinou o que uma escritora de quem a gente gosta muito chama de grandes virtudes. “Não a poupança, mas a generosidade e a indiferença ao dinheiro; não a prudência, mas a coragem e o desdém pelo perigo; não a astúcia, mas a franqueza e o amor à verdade; não a diplomacia, mas o amor ao próximo e a abnegação; não o desejo de sucesso, mas o desejo de ser e de saber.”

Isso era a essência dela, a religião dela. E eu não consigo achar que ela assim, tão boa, tão sublime, tão generosa por religião, por crença nenhuma, por algum dom: ela era assim por escolha. Minha mãe era a pessoa mais inteligente que eu já conheci e a bondade dela era uma opção, um manifesto, uma construção. Uma vocação. E ela foi fiel a essa vocação com sabedoria, com garra, com ação, com luta e com muito, com muito amor.

O valor primordial da vida dela era a igualdade. A luta pela igualdade que só é possível em quem ama o ser humano, cuida do ser humano, no que ele tem de falível, de pequeno. Mas ela sabia, como ninguém, olhar a beleza e grandeza de cada pessoa que cruzava a vida dela. Por isso ela gostava tanto de histórias, de arte, de música, de literatura: nunca era a arte pela arte. Era pelas pessoas, pelo ser humano, pela vida.

Hoje, a gente vive um tempo sombrio: um governo que despreza as pessoas, que não se compadece da morte, que parece odiar as pessoas. Não é preciso pensar muito para entender como ela estava triste com a crueldade e a maldade dessa gente. E eu sinto uma tristeza absurda de ela ter ido embora nesse momento, quando a presença dela seria tão importante. O Thiago de Melo, um poeta de quem ela gostava tanto que deu até o nome dele pro meu irmão, diz: “faz escuro, mas eu canto”. Por isso, a gente aqui junto é um jeito de cantar, de resistir, de lutar: pelas pessoas, pela igualdade, pela alegria de estar vivo, pela felicidade que é olhar as pessoas – como ela me ensinou.

Hoje, sem ela, com essa falta imensa e brutal que eu sinto na minha pele, no meu coração, em cada gesto meu, eu só consigo sentir um amor infinito. Um amor por ela, pelo trabalho dela, pela pessoa imensa e linda que ela foi, pela vida que ela me deu, pelos amigos que ela fez, pela história que ela construiu. E que a gente saiba amar o outro, o tempo todo, com dedicação, com vocação, como ela fez.

Porque o amor à vida gera amor à vida.

Por Ana Lima

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