Eleições 2022 e economia

Ilustração Mihai Cauli

O quadro político é de franca deterioração do atual executivo federal, com a persistente queda de apoio e popularidade e a debandada de possíveis votos registrada pelas pesquisas de intenção de voto, a permanência da discussão do impeachment em pauta, o que deixa o presidente da República refém do presidente do Congresso, com orçamentos secretos e coisas do gênero, uma CPI da Covid que vai implacavelmente explicitando a culpa do Executivo federal nas mortes da pandemia, as denúncias fundadas de corrupção e outros elementos que vão esfarelando o apoio ao governo da extrema-direita. O apoio ao atual presidente vai caindo rumo aos 15%, o que não é pouco, mas está longe de se apresentar como uma margem confortável para garantir a ida ao segundo turno. Com um eleitorado aparentemente fiel, para o qual cada vez mais vai se voltando o discurso presidencial, como se viu na abertura da assembleia das Nações Unidas agora em setembro. A tentativa parece ser de manter esse eleitorado com um discurso mais ideológico e de “ódio à esquerda”, para evitar a consolidação de uma centro-direita não bolsonarista, e apostar no antipetismo no segundo turno. Se o patamar baixar muito da situação atual, o quadro pode se mostrar muito complicado, mais ainda porque a deterioração da base parlamentar do governo é nítida, cada vez mais dependente que está de um não confiável “Centrão”, cuja fidelidade decresce frente à combinação da impopularidade do atual governo com o calendário eleitoral. Se as próximas manifestações de rua previstas forem massivas e crescentes, a discussão do impeachment pode subir de prioridade na pauta de discussões.

Por outro lado, o quadro de deterioração econômica ajuda menos ainda. E aí, é importante levar em consideração ao menos cinco elementos. O primeiro deles é que a base de empresariado e formadores de opinião movida pela defesa das chamadas “reformas pró-mercado”, sejam trabalhistas ou fiscais, perdeu a confiança na capacidade do atual governo de entregar o combinado. Cada vez mais sujeito a um jogo parlamentar que se torna mais imprevisível na medida em que decresce o poder do Executivo e se aproxima o ano eleitoral, as propostas como as referentes ao orçamento, reforma administrativa e outras entram de um jeito, mas ninguém sabe o que vai sair no final do processo. E essa indefinição desanima estes setores.

De outro lado, temos um quadro internacional bastante complexo, em termos da disputa hegemônica entre EUA e China e seus parceiros que se movimentam mais ativamente. Isso às vezes sobe a tensão política, como a própria situação econômica das duas principais potências em disputa várias vezes sinaliza dúvidas sobre a sustentabilidade da retomada pós-Covid. A economia dos EUA é atingida pelas incertezas de que o megaprograma de investimentos de Biden possa se sustentar frente ao crescente discurso anti-inflação e pela subida dos juros dos setores mais financeirizados. Além disso, a tentativa de afirmação da hegemonia estadunidense se choca com interesses específicos de alguns parceiros, que por isso se distanciam, como foi o caso da França no momento em que os EUA avançaram com seu programa de articulação militar com Reino Unido e Austrália (conhecido pelo acrônimo Aukus), e afetou interesses econômicos e militares franceses de venda de submarinos à Austrália. Também interfere na própria Austrália, que ao tomar partido na disputa, coloca em risco seu acesso ao mercado chinês, ao qual é grande fornecedora de commodities agropecuárias e minerais.

A própria China tem se mostrado em apuros ao tentar regular suas novas megacorporações, como mostra o tema da incorporadora Evergrande e o estrago que pode fazer no setor imobiliário chinês, afetando a economia real, em especial de grandes fornecedores à China, como o Brasil. Enfim, a retomada aguda e sustentada que tinha sido prevista para o fim da pandemia pode não ser um quadro irreversível – assim como a própria pandemia, sujeita a permanentes avaliações quanto ao seu fim.

Voltando ao quadro interno, as idas e vindas dos preços das commodities internacionais e a disparada interna do dólar dos EUA, que em reais se aproxima neste momento dos R$ 5,50, jogam lenha na fogueira da inflação, sempre muito impopular, em especial atingindo os preços da alimentação e transportes.

A reação do Banco Central a esse quadro de inflação crescente é aumentar as taxas de juros, e assim matar as possibilidades de que o investimento deslanche, e com ele algum fôlego para o PIB. As projeções para o PIB de 2021 cada vez mais se aproximam de um nível em que mal saímos do buraco em que caímos com a pandemia, e se sairmos, continuaremos ao rés-do-chão, onde estávamos desde 2017, depois da recessão dos dois anos anteriores. Para o ano que vem, as projeções vão se aproximando de novo da estagnação, quando muito, lembrando que a isto devemos adicionar as incertezas do ano eleitoral.

Finalmente, neste cenário não há qualquer perspectiva de uma melhoria do quadro de queda da renda e aumento do desemprego em que nos metemos desde o governo Temer. As taxas de desemprego devem seguir altas, com uma massa de 15 milhões de desempregados, e a informalidade crescendo na medida em que as pessoas vão tendo que se virar para sobreviver.

Ou seja, esse agravamento rápido e crescente do quadro econômico, que parece meio irreversível a esta altura, deve complicar e, talvez, colocar uma pá de cal nas perspectivas eleitorais dos atuais ocupantes do Executivo federal. Apesar de que pode ser um fôlego do ponto de vista eleitoral, o somatório das crises política, social e econômica pode não resultar em boa coisa. No próximo período, pode faltar muita coisa, mas vai sobrar emoção.

Por Adhemar S. Mineiro Economista, doutorando do PPGCTIA/UFRRJ, membro da Coordenação da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia-RJ e assessor da Rede Brasileira pela Integração dos Povos.

Publicado originalmente em Terapia Política.

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