Feijoada de domingo com política

Eu falei ontem sobre fascistas quererem um lugar a mesa e não ganhar o debate, mas acho que dá pra ser mais didática.

Imagina que a mesa é a feijoada de domingo. Marxistas levam o feijão, anarquistas o goró. Os sociais democratas tão responsáveis pelo arroz e farofa.

Os trabalhistas tão levando a laranja. Os liberais tinham que levar couve, mas levaram uma quantidade ridiculamente pequena e agora os neoliberais querem nos convencer de que a grama no quintal serve como couve (só convidamos porque a social democracia insistiu muito).

O fascista é o cara que chega na mesa com um rato morto. Ele vai jogar o rato morto em cima da mesa da feijoada, junto com a comida e olhar com um sorriso escroto pra todo mundo. Mesmo se você gritar com ele ou esfregar o rato na cara dele, ele vai continuar com aquele sorrisinho.

De quem levou um rato morto pra sua feijoada. Ele tá na feijoada, foi convidado, já é um avanço. Ano passado ele ficou do lado de fora do portão.

Alguém na mesa, provavelmente o conservador que levou Skol choca e quente, vai falar que temos que comer o rato também. Estamos comendo a feijoada vegana de abobrinha que o ecossocialista trouxe, por isonomia temos que comer o rato também.
Se os marxistas ameaçarem sair e os anarquistas falarem que vão quebrar uma garrafa na cabeça do fascista, eles vão ser tirados de “estraga festa”.

O liberal vai tentar uma saída “racional”: comemos só o rabo, mas refogamos ele com alho e azeite trufado antes um meio termo, né? Nem feijoada nem rato morto, uma entradinha de tira gosto. Conciliador.

Mas se ele não estivesse na mesa, ninguém nunca teria pensado na possibilidade de comer rato morto. Mesmo se ninguém comer, ele ter colocado essa opção como uma possibilidade de almoço.

É um avanço em relação ao ano que ele ficou barrado no portão. No próximo ano, talvez o conservador traga o azeite trufado pra refogar o rato e crie coragem pra provar. Talvez até goste e chame o nacionalista pra provar.

É isso que eles tentam o tempo todo: reabilitar a ideologia deles como válida para se debater. Por isso que negam o holocausto, no mainstream, matar 6 milhões de pessoas pega mal. Mas se te enrolarem só um pouquinho, talvez consigam te fazer comer pelo menos o rabo do rato.

Por Estélio Natália – Cientista Política, Mestre em Sociologia, Doutoranda em Ciências Sociais e atleta de judô semi-aposentada. Falo de extrema direita, besteira e judô. (ela/dela).

Publicado originalmente em Thread

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