Uma fita de Chico Buarque para a Rádio Venceremos, em El Salvador

“Levava comigo, escondida na bota, uma fita gravada na qual Chico Buarque felicitava a Rádio Venceremos e exaltava a luta do povo salvadorenho”

Minha primeira visita a El Salvador, em 1988, foi como representante da Comissão de Direitos Humanos da seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (CDH-OAB/SP), presidida por um homem excepcional: Paulo Sergio Pinheiro. Paulo sempre teve uma vocação para a área de defesa dos direitos humanos, tanto que fundou, em 1987, o Núcleo de Estudos da Violência da USP.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) mandou um convite à CDH-OAB/SP para participar como observadora internacional em uma campanha de vacinação no dia 10 de abril de 1988, em zonas em conflito em El Salvador. A observação chegava sob a condição de não haver enfrentamento armado entre as partes no dia da vacinação. Eu nutria por ele amizade e admiração, e também sempre trocava informações sobre a situação das violações dos direitos humanos na América Central. Sobretudo para a grave situação de El Salvador.

Então, Paulo Sergio me nomeou para essa missão. Eu era estudante de Direito e colaborava com a CDH-OAB/SP, e ainda integrava a Secretaria de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores, com militância ferrenha na solidariedade internacional, principalmente com a América Central. Da delegação brasileira também participavam o juiz de direito Rubens Calazans Luz e um jornalista chileno chamado Cristian Bofill, que na época era o editor de Internacional do jornal O Estado de S. Paulo.

Chegamos em El Salvador em meio a um clima de muita violência. Para mim, em especial, significava pisar pela primeira vez em um país onde eu já mantinha uma relação de amor e de solidariedade. O primeiro que fiz foi sintonizar o radio para ouvir a Radio Venceremos (voz oficial da FML).

O clima político era tenso na capital: atentados, sequestros, assassinatos contra religiosos, sindicalistas e outros ativistas. Grandes passeadas e manifestações organizadas pelos movimentos sociais. A Frente Farabundo Martí (FMLN) mantinha uma forte presença na capital, por intermédio dos Comandos Urbanos que se formaram com a leitura do “Mini Manual do Guerrilheiro Urbano”, escrito por Carlos Marighella. A FMLN estava presente em todas as partes do país, ainda mais nas zonas rurais onde a guerra tinha alcance de maiores proporções.

Nossa delegação foi designada pelo Unicef para estar no Departamento (estado) de Morazán, especificamente Perquín, um dos lugares onde a FMLN mantinha uma disputa permanente com o Exército pelo controle político-militar. Eram diários os bombardeios contra a guerrilha, inclusive contra a população civil, considerada pelo governo de El Salvador como base social da FMLN.

Morazán foi onde, em dezembro de 1981, no vilarejo El Mozote, ocorreu uma das tragédias mais tristes e ultrajantes do continente. O Exército salvadorenho, treinado e financiado por Estados Unidos, assassinou mais de mil pessoas, sendo que 553 eram menores de idade, entre estes 477 menores de 12 anos e 248, menores de 6 anos. No período de 1980 na 1992, aliás, ocorreu o que foi considerado o maior massacre de civis da história da América Latina no século 20. A estimativa é de que os Estados Unidos entregaram ao governo de El Salvador cerca de US$ 6 bilhões em ajuda militar.

O que dividia o território controlado pela FMLN e pelo governo de El Salvador era um monte de pedras no meio de uma estrada pavimentada. Antes de chegar a essa divisão, o Exército nos interrogou e depois fez lista com nossos nomes e nos informaram que teríamos que regressar às 15h para relatar com quem tínhamos nos reunido e os nomes exatos dessas pessoas.

A fita de Chico Buarque para a Rádio Venceremos

FMLN e Exército salvadorenho se comprometeram com o Unicef a respeitar a trégua durante a campanha de vacinação. Porém, quando começamos a entrar na área controlada pelos guerrilheiros, a estrada, não pavimentada, mas de terra, estava cheia de buracos e com cheiro de queimado saindo do chão. Isso porque o Exército havia bombardeado essa zona no dia anterior.

Depois de mais ou menos 10 minutos de carro da barreira do Exército foi que conheci o primeiro guerrilheiro (em funções) da minha vida. Eu estava alegre, com meus companheiros nervosos, mas já estávamos em território “liberado”.

Eu já havia combinado que depois do meu trabalho de observadora me reuniria com educadores populares de uma comunidade chamada Segundo Montes, onde trabalhavam com o método de Paulo Freire. E também com militantes que viviam na clandestinidade, do alto comando da FMLN, em Morazán. Uma das minhas maiores expectativas era conhecer o acampamento da Rádio Venceremos (desejo foi realizado, mas história para outro artigo). Assim, levei uma lembrança para pessoas que iria conhecer – coisa de brasileiro, né? –, mas era um presente muito especial.

Levava escondida na minha bota uma fita cassete. Mas não uma fita qualquer, pois continha uma gravação na qual ninguém menos do que Chico Buarque felicitava a Rádio Venceremos e exaltava a luta do povo salvadorenho. Assim que cheguei, tratei de buscar uma desculpa para me afastar do grupo e entregar a fita ao meu contato, um jovem de mais ou menos 15 anos. Enquanto isso, o jornalista Cristian Bofill, do Estadão, anotava tudo que via e ouvia para uma reportagem especial, que acabou publicada em 1988.

Fizemos nosso trabalho de verificação e, quando terminamos, nos reunimos para conversar e tomar um café con pan dulce com camponeses que viviam nessa zona. Um deles carregava um rádio e era possível ouvir a voz de Carlos Henríquez Consalvi, locutor da Rádio Venceremos. Santiago, como Consalvi ´´é conhecido, venezuelano de nascimento, filho de um importante diplomata do seu país, abandonou tudo para entregar-se à tarefa de fundar a primeira rádio oficial da FMLN. Eu pedi, então, para aumentar o volume. Foi quando ouvi Santiago anunciando que nesse dia tinha uma grande surpresa para os ouvintes da Rádio Venceremos, e era Chico Buarque.

Cristian Bofill quase caiu de costas, enquanto eu abria um sorriso do tamanho do mundo. Eu não aguentava a emoção de ver a alegria e a supressa das pessoas ao meu lado. Na programação da Rádio Venceremos a música brasileira era diária e as de Chico Buarque, conhecidas.

Na viagem, histórica para mim, em quase todas as minhas conversas perguntavam muito sobre o Lula. Já nessa época, tanto eu quanto todas as pessoas que conheci nesse lugar “liberado” sonhavam com a possibilidade de que Lula fosse presidente.

Naquele momento eu comecei a pensar em quantas coisas o Brasil influenciou a luta do povo salvadorenho e em como o Brasil, especificamente o PT, poderia ajudar através das suas experiências do modo petista de governar e na reconstrução de El Salvador. Bateu-me grande vontade de participar do processo, como se dentro de mim alguma coisa forte estivesse nascendo. Nunca pensei que estaria na linha de frente no primeiro governo de esquerda de El Salvador.

Por Vanda Pignatoé advogada, ativista de direitos humanos, ex-primeira-dama de El Salvador (2009-2014), onde foi ministra de Inclusão Social

Publicado originalmente em Rede Brasil Atual.

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